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"A Criada Que Fez a Coroa Brilhar" Capítulo 10

正文开头

Diante da corte

“Antes de abrirem esse livro”, disse Marina, “quero que Rosa termine o depoimento que interromperam há vinte e três anos.”

O grande salão se encheu cedo. Augusto destinara uma mesa aos escrivães do conselho e outra ao jurista escolhido pelos testemunhos. A Mão de Cristal permanecia sob um pano leve; Marina não pretendia tocar nela de novo para que acreditassem em pessoas que tinham olhos e memória.

Rosa entrou com a escala de serviço da irmã apertada contra o peito. Lúcia a acompanhou até a mesa. Marina pediu que o escrivão lesse primeiro o nome de Joana, a função e a hora em que fora designada para substituir uma colega na ala infantil. O registro da administração, que a chamava de visitante, foi colocado ao lado da escala. As duas versões ficaram à vista de todos.

Rosa descreveu a barra do lado de fora da porta, as batidas de Helena e a corrida até o pátio. Quando Belmonte perguntou se ela vira quem colocara a barra, respondeu que não. Quando perguntou se vira alguém acender o fogo, repetiu a mesma resposta.

“Então não pode afirmar que houve crime”, disse o conde.

“Posso afirmar que minha irmã trabalhava ali e que alguém fechou a saída”, respondeu Rosa. “Foi isso que não deixaram constar da primeira vez.”

O jurista apresentou o protocolo da investigação antiga. Belmonte confirmara em reunião reservada que ordenara seu encerramento enquanto o nome de Rosa permanecia na lista de depoentes. Agora tentou explicar que a lista era provisória. Marina pediu a ata da ordem para dispersar as famílias. O escrivão leu sua data: o mesmo dia em que Rosa aguardava para falar.

“O senhor não sabia que ela estava aqui?”, Marina perguntou.

O jurista pôs também sobre a mesa o depoimento de Bento, assinado no posto das serras. Belmonte apontou uma correção feita à mão como se isso invalidasse tudo. Marina explicou que o antigo guarda alterara a expressão “sair da ala” para “cruzar o pátio” antes de assinar. A emenda tornava a afirmação menor e mais precisa. Bento confirmou por escrito a mudança. O conselho não poderia usar o zelo da testemunha para apagar o que ela efetivamente vira.

“Havia centenas de pessoas naquele dia.”

“E decidiu que nenhuma delas precisava ser ouvida depois que seu gabinete recebeu a lista.”

Belmonte voltou-se para Augusto.

“Vai permitir que uma requerente interrogue o presidente do conselho?”

“Ela pergunta sobre a ordem que o senhor assinou”, disse o príncipe. “Responda à ordem.”

O conde não respondeu.

O portador do livro de pagamentos chegou depois. Chamava-se Álvaro, antigo contador da Casa de Vilar, cujos proprietários haviam financiado parte da reconstrução do palácio. Trazia um volume encadernado e uma carta autorizando sua entrega. Marina pediu que a proteção negociada alcançasse o homem e que a origem do livro fosse descrita antes de lerem uma linha. Álvaro explicou que o encontrara entre as contas do pai, contador da casa na época do incêndio. Mostrou uma sequência contínua de lançamentos anteriores e posteriores, inclusive despesas que podiam ser conferidas em recibos guardados pela família.

正文1

Os escrivães compararam as páginas, a numeração e a escrita. Não declararam o volume autêntico por decreto; registraram os pontos que confirmavam sua origem e os que ainda exigiam exame. Marina aceitou esperar a leitura até que terminassem.

Havia, no dia anterior ao incêndio, uma quantia entregue a um encarregado de manutenção do palácio. Na coluna de finalidade lia-se: “fecho da porta da ala infantil”. A autorização vinha do gabinete administrativo de Belmonte, por intermédio de um secretário. O nome do conde não aparecia naquele lançamento como quem dera pessoalmente a ordem.

O salão se agitou. Augusto pediu silêncio antes que alguém gritasse “assassino”.

“O pagamento por uma barra externa exige explicação”, disse Marina. “Mas este livro não diz quem mandou acender fogo. Nem sequer prova que quem pagou sabia que haveria fogo.”

Belmonte agarrou a ressalva.

“Finalmente reconhece que me acusaram sem fundamento.”

“Reconheço os limites do papel. O senhor reconhece que encerrou a investigação antes de perguntarem por que pagaram para fechar uma saída?”

O conde acusou o secretário morto. Álvaro mostrou outro lançamento, semanas depois da tragédia: reembolso ao mesmo gabinete pelas despesas da investigação encerrada. A rubrica de autorização coincidia com a de Belmonte no protocolo já conferido. O livro conectava dinheiro e decisão administrativa; ainda deixava aberta a pergunta sobre a intenção de quem fizera cada movimento.

Cecília levantou-se. Por um instante, Marina pensou que repetiria a defesa do avô. A jovem pediu para falar como herdeira dos papéis da família. Contou que vira um funcionário aplicar o selo novo à declaração contra Helena na semana da cerimônia. Segundo ele, era uma autenticação rotineira. Ela não soubera que a declaração faltava ao inventário antigo.

“Eu mandei trazer o documento ao salão”, disse, olhando para Marina. “Não perguntei o bastante. Mas não escrevi aquela acusação.”

Marina não lhe ofereceu absolvição. Pediu que o nome do funcionário e a ordem recebida fossem registrados. Cecília os deu. Augusto afastou o homem da custódia de documentos até a conclusão da apuração e ordenou preservar seus registros de trabalho. Belmonte protestou que a neta fora induzida a constranger a própria família.

“Ela acaba de testemunhar sob o próprio nome”, respondeu Marina. “É uma escolha que outras pessoas desta sala não tiveram.”

Ao fim da sessão, o conselho votou sob observação dos dois grupos de escrivães. Determinou a investigação independente do pagamento pela barra, da adulteração da declaração contra Helena, do desaparecimento de páginas e do encerramento da apuração antiga. Belmonte foi afastado da presidência e da administração dos arquivos enquanto os atos fossem examinados. Não houve uma condenação pelo incêndio naquela tarde.

Marina pediu uma decisão adicional. A escala de Joana e o depoimento de Rosa seriam juntados ao registro oficial da tragédia imediatamente, com nota expressa de que a versão anterior sobre a presença de Joana estava contestada. O conselho aprovou. Rosa cobriu o rosto por um instante e depois pediu para ouvir a leitura da ata inteira.

Augusto anunciou que os indícios da filiação de Marina também passariam à decisão final, em procedimento separado da culpa pelo fogo. Belmonte tentou dizer que ela buscava o trono desde o primeiro dia.

“Não”, respondeu Marina. “O senhor é que precisou transformar meu nome numa ameaça para não responder pelos seus registros.”

Quando o salão esvaziou, Teodoro trouxe a caixa com a folha arrancada e o livro médico, ambos lacrados. O jurista confirmou a transferência para guarda conjunta. Marina observou as duas assinaturas fecharem a fita. A audiência terminara sem a resposta completa sobre o incêndio, mas agora nenhum homem sozinho poderia decidir quais perguntas chegariam ao arquivo.

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