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"A Criada Que Fez a Coroa Brilhar" Capítulo 9

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A testemunha da passagem

Rosa não queria entrar no palácio. Recebeu Marina na lavanderia onde ainda trabalhava, perto de um canal, e manteve as mãos mergulhadas na água enquanto a ouvia.

“Vieram aqui quando minha irmã morreu”, disse. “Prometeram ler meu depoimento. Depois disseram que eu confundira fumaça com barulho de madeira.”

Marina não pediu que Rosa confiasse no príncipe nem no arquivo. Mostrou-lhe o termo da audiência que preservava as falas sem exigir entrada no conselho, e apresentou o jurista que acompanhara Bento. Rosa leu tudo em silêncio. Só então contou o que vira.

Na noite do incêndio, levara lençóis limpos à ala infantil. Encontrou a porta principal fechada por fora com uma barra que não costumava estar ali. Do interior vinham batidas e a voz de Helena. Rosa correu para chamar ajuda. Ao voltar, a passagem de serviço já estava aberta e um guarda ajudava uma mulher com uma criança a atravessar o pátio.

“Por que não falou da barra aos investigadores?” perguntou Lúcia.

“Falei. Minha irmã estava na ala. Quando pedi para procurá-la, disseram que, se eu continuasse acusando a administração, perderia o emprego antes de poder pagar o enterro.”

Marina pensou nas cópias de Bento e no recibo que o homem guardara por medo de ser chamado de desertor. Dois sobreviventes haviam sido empurrados para histórias falsas diferentes. Nenhum dos dois podia dizer quem ateara fogo. Juntos, podiam demonstrar que a investigação encerrada por Belmonte deixara de ouvir quem sabia como a porta fora fechada.

Rosa mostrou uma ficha de entrega de roupas daquela noite. Trazia a hora de chegada à ala e uma assinatura de recebimento feita por outra funcionária. A ficha não provava a barra, mas ajudava a situá-la no local antes do incêndio. Marina pediu que Rosa mantivesse o original; o jurista fez uma transcrição, assinada ali pelas presentes.

“Quer que seu nome apareça?”, perguntou Marina.

“Quero que apareça o nome da minha irmã. O meu pode esperar até eu saber que meus filhos não perderão este trabalho.”

Rosa contou que sua irmã, Joana, ajudara na limpeza da ala naquela manhã e ficara para substituir uma colega. O registro oficial a descrevia como visitante não autorizada, razão usada para negar auxílio à família. Marina acrescentou ao pedido a revisão desse registro de serviço. Mesmo que não descobrissem quem dera a ordem para barrar a porta, poderiam corrigir a mentira que ainda pesava sobre Joana.

“Se eu entrar naquele salão”, disse Rosa, “não quero que me perguntem primeiro se a princesa saiu viva. Quero que saibam que Joana estava trabalhando.”

Marina prometeu colocar a escala de serviço na mesa antes do depoimento. Não prometeu uma reparação que ainda não podia garantir.

Marina aceitou a condição. Com o jurista, preparou um pedido ao conselho para que empregados e famílias pudessem depor sem que administradores envolvidos decidissem sobre seus contratos. Solicitou também que cópias dos depoimentos fossem guardadas fora do palácio por uma pessoa escolhida pelos próprios declarantes.

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Augusto recebeu o pedido na presença de Rosa, que concordou em entrar apenas numa sala lateral, sem atravessar o grande salão. O príncipe prometeu suspender qualquer medida de emprego ligada aos testemunhos enquanto a apuração estivesse aberta. Marina exigiu uma ordem assinada que alcançasse também a lavanderia contratada pelo palácio. Ele a redigiu ali.

O administrador dos criados tentou limitar a proteção aos funcionários diretos. Lúcia apontou que, vinte e três anos antes, Joana também prestava serviço por meio de uma lavanderia externa. Se deixassem as contratadas de fora, repetiriam a distinção que permitira negar ajuda à família. Augusto mandou incluir explicitamente prestadores de serviço, antigos empregados e parentes que apresentassem documentos. Rosa leu a nova redação antes de aceitá-la.

“Isso pode proteger Rosa hoje”, disse Marina. “E quando outro príncipe ocupar sua cadeira?”

Augusto olhou para as famílias esperando do lado de fora. “Precisaremos de uma regra que sobreviva a mim.”

Foi a primeira vez que Marina o ouviu falar em mudar o modo como o palácio guardava registros, não apenas em resolver seu caso.

Na tarde seguinte, o conselho convocou uma reunião reservada para votar o reconhecimento de sua identidade. Marina compareceu com Lúcia e recusou que Rosa fosse chamada antes de receber a cópia da ordem de proteção. Cecília contestou a presença da criada na mesa de testemunhas.

“Lúcia é quem registrou a abertura dos lacres”, respondeu Marina. “Tirá-la agora tornaria o trabalho de todos vocês menos verificável.”

Belmonte permaneceu calado até que o jurista apresentou os depoimentos. Em seguida, ofereceu uma concessão: aceitaria o reconhecimento provisório de Marina como filha de Isabel, desde que a investigação do incêndio fosse separada e conduzida mais tarde.

“Separar significa deixar as atas antigas sob o seu controle?”, perguntou ela.

“Significa evitar uma acusação sem autor identificado.”

“Ninguém aqui apontou um incendiário. Bento viu Helena com uma criança viva. Rosa viu a porta barrada. O senhor encerrou a investigação antes que ela pudesse contar isso. Esses fatos podem ser verificados agora.”

Um conselheiro pediu que a rubrica de Belmonte no protocolo fosse exibida. O conde admitiu ter autorizado o encerramento, alegando que os guardas haviam dado a tragédia como acidente. Marina colocou ao lado do protocolo a lista de pessoas que aguardavam depoimento naquele dia: Rosa aparecia no terceiro lugar.

Belmonte leu o próprio nome e se recusou a comentar a lista.

O conselho decidiu preservar os novos depoimentos e marcar uma sessão pública. Também reconheceu provisoriamente os indícios da filiação de Marina, sem decidir a sucessão. Ela poderia usar o nome da mãe biológica nos atos da investigação, se quisesse. Ao receber a decisão, escreveu sua assinatura habitual: Marina Duarte. Embaixo, acrescentou, pela primeira vez, filha de Isabel de Aurélia.

O jurista esclareceu que a expressão no termo identificava a matéria investigada, sem substituir a certidão civil de Marina. Ela pediu que essa distinção constasse da cópia destinada à imprensa da corte. Não permitiria que uma manchete transformasse uma decisão provisória em título definitivo e desse ao conselho pretexto para alegar, mais tarde, que ela enganara o reino.

Lúcia levou uma via a Rosa e outra à tia na oficina. As mulheres que haviam copiado os primeiros registros teriam, enfim, um documento oficial para confrontar qualquer versão alterada do que acontecera naquela sala.

Cecília a observou.

“Aceitou a metade do reconhecimento que lhe ofereceram.”

“Aceitei uma ata que vocês não poderão fingir que nunca existiu.”

No corredor, Rosa recebeu a cópia assinada da proteção e se preparou para voltar aos filhos. Marina acompanhou-a até o portão. Um mensageiro aguardava com um envelope endereçado a Augusto. Trazia o selo de uma casa nobre ligada à antiga investigação.

O príncipe abriu a carta diante de Marina, porque o assunto também a atingia. Um antigo livro de pagamentos, conservado fora do palácio, seria entregue na sessão pública. A família exigia imunidade para o portador e anunciava que o volume continha o nome de quem pagara para barrar a porta da ala infantil.

Marina pediu que Augusto não anunciasse ainda um culpado. Primeiro precisariam receber o livro, verificar suas folhas e proteger a pessoa que o transportava.

Ele concordou. Ao longe, as portas do grande salão se fechavam para a noite. Na próxima vez que se abrissem, Rosa pretendia dizer em voz alta o nome da irmã.

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