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"A Criada Que Fez a Coroa Brilhar" Capítulo 7

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A prova que eles falsificaram

Teodoro abriu o livro diante da corte inteira. Na primeira retirada relativa à pasta de Helena, havia uma data de apenas seis dias antes da cerimônia. O número da autorização coincidia com aquele copiado por Lúcia no arquivo. O nome do solicitante fora apagado, mas a coluna seguinte conservava a rubrica do homem que entregara o volume: um funcionário da administração de Belmonte.

“Leia também a observação”, pediu Marina.

O escrivão inclinou a cabeça sobre a página.

“Matriz nova, brasão de três raios longos e dois curtos, aplicada para confirmação da declaração.”

O murmúrio atravessou o salão. O texto atribuído à supervisora datava de antes da reforma do brasão. Não havia ordem de autenticação tardia anexada. A cera recente fora posta justamente na semana em que alguém consultara o nascimento da filha de Isabel.

“A declaração já existia antes?”, perguntou Marina.

Teodoro virou a folha do inventário antigo. A pasta de Helena estava listada sem aquela declaração. Augusto pediu aos escrivães que confrontassem os dois registros, sem deixar a mesa. Ambos confirmaram a ausência.

Belmonte alegou que um papel poderia ter sido guardado fora da pasta. Marina não discutiu uma possibilidade impossível de excluir. Exigiu uma decisão sobre o que a corte tinha de fato diante de si.

“Até que tragam quem redigiu e quem autenticou, não chamem minha mãe de sequestradora com base nisso.”

Augusto ordenou que a imputação fosse retirada da ata como fato. Ficaria registrada apenas como alegação contestada, apresentada por Belmonte com origem não demonstrada. Em seguida, suspendeu a validade da declaração para qualquer decisão sobre Marina ou Helena. A pena do escrivão correu no papel. Marina ouviu o som antes de permitir que o alívio chegasse.

“A supervisora pode depor?”, perguntou um conselheiro.

Marina pediu também a exibição da declaração original à funcionária mais antiga do arquivo, uma mulher que durante anos organizara papéis da ala infantil. Ela identificou o tipo de folha como pertencente a um lote comprado depois do incêndio. O dado não datava a redação com precisão, porque alguém poderia ter copiado um texto velho em papel novo. Confirmava, porém, que a folha exibida por Belmonte não era um registro material guardado intacto desde aquela noite.

“Quero essa ressalva na ata”, disse Marina. “Ela protege a investigação tanto quanto protege minha mãe.”

O escrivão incluiu as duas possibilidades. Belmonte já não podia chamar o papel de prova contemporânea sem contestação.

Teodoro consultou a lista de antigos empregados. A mulher morrera oito anos antes. A assinatura atribuída a ela agora precisava ser comparada com documentos preservados, não aceita por sua aparência. Marina pediu o exame e a guarda separada da declaração.

Belmonte bateu a mão na mesa.

“Meu escritório apresentou o documento de boa-fé.”

“Então ajude a descobrir quem usou o escritório”, respondeu Augusto.

Pela primeira vez, o conde não encontrou uma resposta imediata.

A audiência teve outro efeito. O conselho reconheceu, por voto provisório, que existiam indícios suficientes para abrir formalmente a investigação sobre a identidade da filha de Isabel. Nenhum título foi atribuído. Marina aceitou a distinção; era a primeira vez que uma instituição do reino deixava de descrevê-la apenas como criada quando examinava aqueles fatos.

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Ao sair do salão, encontrou Lúcia encostada numa coluna.

“Helena teria gostado de ver você obrigando todos eles a ler uma linha inteira”, disse a amiga.

Marina soltou uma risada curta. Depois viu Cecília atravessar o corredor, levando o avô pelo braço. A jovem não olhou para trás.

Teodoro trouxe um detalhe que passara quase despercebido: no mesmo período em que a declaração aparecera, alguém requisitara as atas da primeira investigação do incêndio. A requisição mais antiga das atas, vinte e três anos antes, também trazia uma autorização da administração de Belmonte.

“Ele supervisionava o palácio”, disse Marina. “Poderia ter feito isso por dever.”

“Poderia. Mas as atas foram devolvidas com uma página a menos.”

“Quem percebeu?”

“Eu. Registrei numa nota que nunca entrou no índice principal.”

Marina encarou o velho.

“Por que me conta agora?”

“Porque hoje você mostrou como se registra uma recusa diante de todos. Eu aceitei uma recusa em particular.”

Ela ainda estava irritada com os anos de silêncio, mas pediu a nota. Teodoro a conduziu à sala de trabalho, sob a supervisão de um guarda indicado por Augusto. A folha ausente continha os depoimentos dos responsáveis por fechar as portas da ala infantil. Não havia cópia entre os papéis do arquivista. Havia, porém, um protocolo de encaminhamento: a investigação passara da guarda palaciana ao gabinete do conselho e terminara no dia seguinte.

“Por ordem de quem?”

O protocolo indicava o secretário do conselho, já falecido. Ao lado, uma rubrica autorizava o encerramento. Teodoro a identificou como a de Belmonte. Marina solicitou comparação com assinaturas reconhecidas. Não queria transformar a certeza do arquivista em prova única.

Naquela tarde, Bento Nogueira enviou outra mensagem. Não viajaria para a capital enquanto o conselho controlasse os portões. Aceitaria falar com Marina em local escolhido por ele, desde que ela não levasse soldados da casa de Belmonte.

Augusto propôs mandar seus próprios guardas. Marina recusou antes que terminasse.

“Ele tem medo de uniformes. Vou com Lúcia e uma testemunha que ele aceite.”

“Se algo acontecer, a sua palavra contra a do conselho pode não bastar.”

Marina conhecia o risco. O capitão da guarda confirmara que a estrada até as serras passava por terras de famílias representadas no conselho. Ela solicitou recibos das duas mensagens enviadas a Bento e pediu ao jurista do mercado que acompanhasse a reunião caso o guarda concordasse. A presença de uma pessoa capaz de registrar o testemunho fora do palácio valia mais que uma escolta numerosa.

Augusto ofereceu uma bolsa de moedas para a viagem. Marina aceitou apenas a quantia exata para o transporte de Lúcia e do jurista, anotada como despesa da investigação. Não queria que Bento visse um pagamento real e confundisse as intenções dela com as de quem já lhe oferecera dinheiro pelo silêncio.

“Então escreva uma autorização para que eu consulte as atas onde estiverem. Não escreva uma ordem para Bento vir até nós.”

Augusto assinou. Deu-lhe também uma cópia do termo que invalidava provisoriamente a declaração contra Helena. Marina guardou os dois papéis em lugares diferentes.

À noite, a tia de Lúcia recebeu aviso de que a oficina perderia encomendas oficiais se continuasse a guardar transcrições para Marina. Nenhuma encomenda fora cancelada ainda, mas a ameaça era suficiente para assustar as trabalhadoras. Marina recolheu sua parte dos documentos e pagou pelo trabalho já feito com o pouco que lhe restava. A tia recusou o dinheiro; Marina insistiu. Não permitiria que outras mulheres financiassem sozinhas sua disputa com a corte.

Quando se preparava para partir rumo às serras, um escrivão jovem apareceu na oficina. Trazia a cópia autenticada do protocolo de encerramento. A rubrica fora comparada com três atos posteriores.

Era de Belmonte.

O jovem escrivão não quis deixar seu nome nas mãos de Marina. Receava que o conselho o afastasse do cargo. Ela pediu que entregasse outra cópia, protocolada, a Augusto; assim a descoberta não dependeria de um encontro discreto na oficina. O rapaz concordou depois de ler o termo que suspendia qualquer punição relacionada aos registros da audiência.

Marina observou-o atravessar a rua com a pasta apertada contra o peito. Sabia reconhecer aquele medo. Fora o mesmo que sentira ao caminhar até o pedestal, antes de descobrir que podia escolher o que fazer apesar dele.

Marina leu a data: ele mandara encerrar a investigação enquanto ainda havia testemunhas esperando para depor.

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