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"A Criada Que Fez a Coroa Brilhar" Capítulo 5

正文开头

A carta de Helena

Marina mostrou o bilhete a Augusto no portão, diante do capitão da guarda. Não lhe entregou o original.

“Entraram na minha casa depois que fui afastada”, disse. “Quero a ocorrência registrada com a hora e a lista do que falta.”

O príncipe ordenou ao capitão que enviasse dois guardas e garantiu que ninguém tocaria no imóvel antes de Lúcia testemunhar a vistoria. Marina aceitou. Já não pretendia confiar em promessas sem nomes no papel.

Teodoro veio com o livro de condições dos depósitos privados. Marina pediu que lesse a regra de Helena em voz alta, exatamente como estava escrita. O arquivista hesitou diante de Augusto.

“O conteúdo da carta pode ser revelado se a Mão de Cristal reagir a uma mulher criada fora do palácio e se essa mulher solicitar a leitura por vontade própria.”

“Eu solicito”, disse Marina.

Cecília apareceu ao lado do conselheiro da noite anterior. Augusto os havia convocado para atestar a abertura do lacre. A presença dos dois deu a Marina vontade de sair, mas também tornaria mais difícil negar depois que a carta existira.

Lúcia copiou a descrição do selo. Teodoro abriu o envelope diante de seis testemunhas e entregou a folha a Marina.

No verso do lacre havia uma pequena marca feita por duas pontas de agulha. Marina lembrava de Helena usar a mesma marca em encomendas de tecido quando clientes tentavam trocar pacotes. A mãe deixara uma forma simples de reconhecer se alguém substituísse até mesmo aquele envelope.

Helena começava chamando-a de filha.

Descrevia os primeiros dias após o nascimento da criança de Isabel, o modo como a princesa pedia que o berço fosse aproximado da janela e a pulseira fina colocada no braço esquerdo do bebê durante a apresentação à família. Na noite do incêndio, Helena ouvira passos correndo no corredor antes de sentir fumaça. Encontrara uma porta trancada que deveria permanecer aberta. Rompera a fechadura com um castiçal, envolvera a criança numa manta úmida e correra pela passagem de serviço. Ao tentar soltar a pulseira aquecida, queimara o pulso da menina.

Marina interrompeu a leitura. A cicatriz parecia apertar sua pele.

“Continue quando estiver pronta”, disse Lúcia.

Ela prosseguiu. Helena havia procurado Bento, o guarda da porta, para testemunhar que saíra com uma criança viva. Antes de desaparecer, separara o adorno de Isabel em duas metades. Levava uma; deixava a outra sob a guarda de Teodoro. Queria que a filha pudesse reclamar o próprio nome quando tivesse idade para escolher.

“Acreditei que o fogo foi provocado”, escrevera Helena. “Vi homens perto da ala que não deveriam estar ali. Não vi quem acendeu a chama. Jamais diga que lhe dei uma certeza que eu não tinha.”

A linha seguinte fez Marina parar de novo.

“Se decidir voltar, não faça isso por mim. Vivi para lhe dar uma vida longe deles. Ela é sua, qualquer que seja o nome que escolher.”

正文1

Marina dobrou a carta devagar. Durante anos confundira os silêncios da mãe com vergonha. Agora lhe custava imaginar Helena criando uma filha enquanto guardava sozinha o medo de que alguém reconhecesse a marca no pulso.

O conselheiro pediu para examinar a folha. Marina permitiu que a lesse sobre a mesa, sem tirá-la de sua vista.

“Uma declaração pessoal”, ele observou. “Sem autenticação da origem da criança.”

“A carta diz onde buscar confirmação”, Marina respondeu. “A pulseira, o registro de saída, Bento. Por que estão tentando levar esses documentos em vez de examiná-los?”

Cecília apontou para a frase sobre os homens perto da ala.

“Sua mãe acusou pessoas sem identificá-las. Talvez quisesse proteger a si mesma.”

“Ela escreveu precisamente o que viu e o que não viu. Faça o mesmo.”

Augusto pediu ao conselheiro que identificasse a autorização usada para consultar o registro de nascimento na semana anterior à cerimônia. O homem disse que precisava verificar o escritório. Marina percebeu Cecília olhar para ele antes da resposta.

“Até lá”, disse ela, “quero que a folha arrancada seja registrada como prova desaparecida, não como página inexistente.”

Teodoro lavrou o termo. O príncipe assinou. O conselheiro recusou a própria assinatura, mas sua recusa também entrou no papel.

Ao sair, Marina soube que um mensageiro do conselho tentara entregar à dona de sua casa uma ordem para que a desocupasse ao fim da semana. A justificativa era a perda do emprego. Augusto ofereceu outro quarto no palácio. Marina recusou: quem revistara sua casa teria liberdade ainda maior ali.

“Preciso de um lugar seguro para a carta e das cópias”, disse ela. “E preciso encontrar Bento.”

Lúcia sugeriu a oficina de sua tia, onde várias mulheres encadernavam livros para comerciantes. Elas poderiam guardar cópias em pacotes separados. Marina levou a carta original ao cofre de Teodoro, sob lacre que ela mesma assinou, e distribuiu duas transcrições: uma à tia de Lúcia, outra ao príncipe. Reservou para si o bilhete encontrado na gaveta.

Na oficina, enquanto as páginas secavam, Lúcia encontrou uma marca num canto do papel da carta. Helena havia usado folhas antigas do dispensário da ala infantil. Teodoro poderia comparar a remessa com os livros de compras para situar a escrita no tempo, sem fingir que isso bastava para provar cada palavra.

Marina escreveu a Bento no endereço das serras. Não revelou o conteúdo da carta. Pediu apenas que confirmasse se vira Helena sair do palácio com uma criança. Mandou a mensagem por dois caminhos distintos.

À noite, Augusto apareceu na oficina com a resposta sobre a autorização. O número não estava ligado ao conselho. Fora emitido pelo escritório da própria casa principesca, usando um selo que desaparecera três meses antes.

“Você não sabe quem o usou”, disse Marina.

“Ainda não.”

Ela observou o príncipe, procurando no rosto dele algum sinal de que já soubesse. Não encontrou. Também não encontrou uma razão para excluí-lo da lista de pessoas que podiam se beneficiar da página arrancada.

“Então vamos fazer a abertura diante de todos”, ela disse. “O conselho não poderá esconder o que encontrar. E você não poderá escolher sozinho o que mostrar.”

Augusto demorou a responder. Por fim, concordou em convocar uma audiência pública no grande salão.

Na manhã seguinte, uma resposta chegou das serras. Bento estava vivo. E pedia que Marina não o procurasse antes da audiência, pois alguém já oferecera dinheiro pelo silêncio dele.

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