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"A Criada Que Fez a Coroa Brilhar" Capítulo 2

正文开头

A cicatriz no pulso

“Ninguém vai tirar o pingente de você”, declarou Augusto.

Não precisou erguer a voz. Cecília retirou a mão que já estendia na direção de Marina, mas continuou ao lado do pedestal, atenta a cada gesto.

“A peça é parte de um assunto da Coroa”, insistiu ela.

“E está no pescoço de Marina”, respondeu o príncipe. “Neste momento, isso basta.”

Marina guardou o pingente sob a gola. A escultura continuava acesa, tingindo de amarelo as mangas dos guardas. O mestre de cerimônias tentou cobri-la com um pano. Augusto o deteve.

“Todos viram o que aconteceu. Cobri-la não apagará isso.”

Teodoro pediu que as portas do salão fossem fechadas por alguns minutos. Cecília protestou que convidados de outras casas tinham direito de sair. Marina interrompeu os dois.

“Se vão decidir algo a meu respeito, quero ouvir.”

Teodoro voltou-se para ela. De perto, parecia mais cansado do que no lugar reservado ao arquivista.

“Quero lhe fazer perguntas. Não estou pedindo que confie em mim.”

“Ótimo. Comece pela cicatriz.”

Ele abriu a boca, mas olhou ao redor. Nem todos naquele salão precisavam ouvir uma resposta ainda incerta. Marina percebeu o receio e fez sua própria proposta.

“O príncipe, o arquivista e eu. Mais uma pessoa escolhida por mim para testemunhar o que for dito.”

Augusto pareceu surpreso.

“Quem?”

Marina apontou para Lúcia, a criada que recolhia taças perto da porta. Tinham trabalhado juntas durante dois anos. Lúcia empalideceu, mas atravessou o salão e ficou ao lado dela.

“Se desaparecer algum documento”, disse Marina, “alguém de fora da família real saberá que ele existiu.”

O capitão da guarda conteve uma reação. Augusto estudou o rosto de Marina por um momento.

“Concedido.”

Cecília exigiu que uma representante do conselho acompanhasse a conversa. Augusto permitiu apenas que ela aguardasse do lado de fora da sala de audiências, com dois guardas à vista. Marina não gostou da solução, mas podia ouvir quando Cecília se movia no corredor. Isso lhe pareceu melhor do que perdê-la de vista.

Na sala menor, Teodoro pediu licença para examinar o pulso. Marina o mostrou sem permitir que ele lhe segurasse a mão.

“É uma queimadura”, disse ele. “Havia um adorno preso aqui quando a pele foi atingida.”

“Helena dizia que eu caí perto de um braseiro.”

“Talvez tenha sido o que contaram a ela.”

“Você sabe que não foi.”

Teodoro não respondeu imediatamente. Perguntou a data aproximada em que Helena a acolhera, o nome do vilarejo onde haviam vivido e se existia uma certidão de nascimento. Marina respondeu às duas primeiras perguntas. Quanto à última, tinha apenas o documento emitido anos depois por um cartório local, com Helena declarada responsável por sua criação.

“Ela era minha mãe”, Marina disse.

“Não estou contestando isso.”

“Então pare de falar como se precisasse me corrigir.”

O nome de Helena trouxe uma lembrança involuntária: mãos manchadas de farinha fechando as cortinas antes de dormir, uma voz baixa inventando histórias quando faltava lenha para aquecer o quarto. Marina não precisava de uma certidão para saber quem lhe ensinara a sobreviver. Precisava, contudo, entender por que aquela mulher estremecera ao ver um brasão costurado na capa de um visitante.

正文1

Lúcia tocou de leve seu cotovelo. Augusto permaneceu junto à janela. A luz do fim da tarde já alcançava o piso.

Teodoro passou os dedos por uma rachadura da mesa.

“Conheci Helena aqui. Ela serviu à princesa Isabel antes do incêndio da ala infantil.”

Marina conhecia aquela tragédia. Toda criança de Aurélia ouvira a história: a irmã do antigo rei perdera a vida com a filha recém-nascida, e a ala fora fechada. O nome de Helena nunca aparecera no relato.

“Quando?”

“Vinte e três anos atrás.”

Era a idade de Marina.

Ela lançou um olhar à porta. Por baixo dela se via a sombra de Cecília avançar e recuar no corredor.

“Isso não prova que o incêndio tem alguma relação comigo.”

“Não. A luz prova apenas uma ligação de sangue com a linhagem reconhecida pelo cristal. Sua cicatriz e esse objeto sugerem uma história mais específica. Preciso dos registros para saber até onde ela vai.”

Augusto afastou-se da janela.

“Você me pediu acesso ao arquivo selado há três anos.”

“Pedi, alteza.”

“E agora?”

“Agora há uma pessoa viva que talvez tenha sido omitida daqueles livros.”

Marina sentiu raiva antes de sentir medo. Pessoas tinham feito perguntas durante vinte e três anos, talvez até encontrado respostas, enquanto Helena trabalhava para alimentá-la e desviava o olhar sempre que alguém mencionava o palácio.

“Se vamos abrir esse arquivo”, ela disse, “quero que Lúcia anote cada item retirado. Quero ver as páginas antes que voltem para qualquer armário.”

“O arquivo fica sob o trono”, respondeu Augusto. “Há selos que não posso romper sem registrar minha ordem.”

“Então registre.”

O príncipe sustentou seu olhar. Teodoro aguardou sem intervir.

“Vou fazê-lo”, disse Augusto. “Mas, antes, Teodoro deve explicar por que reconheceu o nome Helena.”

Lúcia puxou uma cadeira para Marina, que permaneceu de pé. Tirou do bolso um pequeno carvão usado para marcar garrafas da adega e pediu papel. O capitão trouxe três folhas; ela entregou duas a Lúcia.

“Anote também quem esteve nesta sala”, pediu. “Não quero que amanhã digam que a luz se apagou antes de alguém vê-la.”

“Há centenas de testemunhas”, respondeu Augusto.

“Hoje há. Amanhã haverá apenas as que estiverem dispostas a falar.”

O príncipe mandou registrar a hora da prova e recolher as assinaturas dos funcionários próximos ao pedestal. Foi a primeira ordem daquela tarde que pareceu a Marina destinada a proteger o que acontecera.

O arquivista pareceu envelhecer outra vez.

“Ela veio falar comigo pouco depois do incêndio. Pediu uma forma de provar, no futuro, que certas páginas haviam existido.”

“Que páginas?” perguntou Marina.

“As do nascimento da filha de Isabel.”

Do lado de fora, algo roçou a porta. Lúcia ergueu a cabeça.

Marina não soltou o pulso que mantinha contra o peito.

“Por que Helena precisaria provar isso?”

Teodoro respondeu olhando diretamente para ela.

“Porque Helena Duarte nunca teve uma filha biológica.”

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