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"A Criada Que Fez a Coroa Brilhar" Capítulo 1

正文开头

A mão da criada

“A criada também pode tentar.”

A sugestão de Cecília atravessou o salão de mármore como uma taça quebrada. Primeiro veio o silêncio. Depois, o riso das damas reunidas junto ao pedestal.

Marina Duarte segurava uma bandeja de vinho. Estava ali para substituir uma colega com febre, trocar as velas antes que queimassem até o fim e passar despercebida. Não para encostar na Mão de Cristal, relíquia que os nobres de Aurélia tratavam como se fosse um segundo trono.

“Ela?” Uma condessa ergueu o leque. “Deixará a peça suja.”

Cecília mostrou a própria mão, ainda vermelha do contato com a abertura estreita da escultura. Havia sido a última candidata da tarde. Como todas as outras, obtivera apenas o reflexo frio do teto.

“Vamos, Marina. A lei permite a qualquer pessoa presente fazer a prova, não permite?”

Do alto dos degraus, o príncipe herdeiro Augusto respondeu antes que alguém pudesse detê-lo.

“Permite. Até o pôr do sol.”

O capitão da guarda lançou um olhar ao príncipe. O arquivista Teodoro, sentado próximo ao trono, fechou devagar o livro que mantinha no colo. Ninguém pareceu perceber. Todos olhavam para o vestido cinza de Marina e para seus dedos marcados pelo trabalho.

Ela poderia recusar. Perderia talvez uma semana de salário por ofender Cecília, mas ainda voltaria para casa inteira. A outra escolha transformaria sua humilhação em espetáculo.

Então sentiu sob a gola a corrente de prata. Helena a havia colocado em suas mãos quando Marina completou dezesseis anos.

“Se algum dia entrar naquele palácio, esconda isto.”

Marina sempre acreditara que a ordem tinha relação com algum furto antigo. Helena nunca explicava. Mesmo quando, doente, a mãe mal conseguia sustentar uma colher, repetira o aviso com uma firmeza que Marina não esquecera.

“Está com medo de quê?”, perguntou Cecília.

Marina pousou a bandeja numa mesa lateral.

“De derramar vinho no seu vestido, senhora. Por isso vou com as mãos livres.”

Um murmúrio correu pelo salão. Marina ouviu alguém prender o riso. Não olhou para trás.

Havia uma linha de candidatas recusadas junto às colunas: filhas de duques, de comandantes, de famílias que custeavam metade das festas da corte. Algumas a observavam com pena. Outras já esperavam a próxima piada.

A escultura tinha a forma de uma mão aberta, feita de cristal transparente e presa a uma base dourada. A abertura começava no pulso. Segundo o mestre de cerimônias, uma portadora do sangue da antiga linhagem real faria surgir luz no interior da peça. Aquela prova, porém, não atribuía título nem decidia sucessão. O conselho havia insistido em repetir isso durante toda a tarde.

Naquela manhã, Marina ouvira dois copeiros discutirem a cerimônia. O antigo rei deixara disputas entre ramos da família, e o conselho queria encontrar uma candidata cuja origem reforçasse uma aliança. Nada fora preparado para uma serva. Pelo modo como os nobres recitavam suas genealogias, Marina entendeu que a prova valeria muito para uns e talvez não valesse nada para ela.

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Marina parou a um passo do pedestal. A cicatriz fina que contornava seu pulso esquerdo parecia mais clara sob as velas. Teodoro a encarava.

“Eu já vi essa marca”, ele disse, quase sem voz.

O mestre de cerimônias bateu o bastão no chão.

“Coloque a mão.”

Marina poderia perguntar ao arquivista o que quisera dizer. Mas Cecília já sorria, e centenas de olhos aguardavam sua retirada. Ela ergueu o braço e deslizou os dedos para dentro do cristal.

Nada.

O silêncio durou o suficiente para que Marina escutasse as chamas estalando nos candelabros.

“Surpreendente”, Cecília comentou. “Uma criada comum.”

Marina começou a puxar a mão. Uma linha dourada apareceu sob a ponta de seu indicador.

Ela pensou que fosse um reflexo de alguma joia próxima. A linha avançou pelo cristal, ramificou-se entre os dedos e desceu até a base. O pedestal inteiro brilhou. Nas paredes brancas, as sombras das pessoas adquiriram bordas de ouro.

O mestre de cerimônias deixou cair o bastão.

Augusto levantou-se. Seu movimento fez as damas abrirem caminho, embora ele ainda estivesse junto ao trono.

Marina tentou retirar a mão. O cristal não a prendia, mas as pernas haviam perdido a força. Que significava aquela luz? Helena sabia que isso aconteceria? E por que nunca lhe contara?

“Espere”, ordenou Teodoro.

Não era a escultura que ele observava. Era o pulso de Marina, visível pela abertura.

“Quem fez essa cicatriz?”

“Não sei. Sempre esteve aqui.”

“Sempre?”

“Desde bebê, segundo minha mãe.”

Teodoro aproximou-se tanto que o capitão da guarda se interpôs por instinto. O arquivista nem pareceu vê-lo.

“O nome dela.”

Marina retirou finalmente a mão. A luz permaneceu presa dentro do cristal.

“Helena Duarte.”

Uma mudança atravessou o rosto do velho. Augusto desceu o primeiro degrau.

“Teodoro, fale diante de todos.”

“Ainda não posso, alteza.”

Cecília aproveitou a hesitação.

“Então a prova deve ser interrompida. Uma serva pode ter escondido alguma substância na mão.”

“Revistem minhas mãos”, disse Marina. “Mas façam a mesma inspeção nas candidatas que vieram antes de mim.”

Cecília apertou os lábios. Augusto fez um gesto para que ninguém se aproximasse.

Teodoro olhou para o pescoço de Marina. Um trecho da corrente havia escapado pela gola quando ela estendera o braço.

“A senhora Helena lhe deu alguma coisa além do nome?”

Marina segurou a corrente por dentro do vestido. À sua volta, os nobres voltaram a cochichar. Ela poderia obedecer à última ordem de Helena e esconder o objeto. Poderia também sair daquele salão sem jamais saber por que a mãe temera tanto aquelas paredes.

Puxou o pingente para fora.

Era metade de um sol de metal prateado, quebrado numa linha irregular. Teodoro empalideceu.

“Guardas”, disse Cecília, “tomem isso.”

Marina fechou a mão sobre a peça e recuou um passo.

“Ninguém toca nela até que eu saiba por quê.”

Pela primeira vez, Augusto não olhava para a Mão de Cristal. Olhava para o objeto que a criada se recusava a entregar.

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