"Minha Família Me Excluiu de 13 Natais. Depois, Apareceu com 23 Pessoas na Casa que Herdei." Capítulo 5
A MINHA MESA
Minha mãe me encarou como se eu tivesse sugerido que dormissem na areia.
"Somos vinte e três pessoas."
"Eu sei."
"É dia 23 de dezembro."
"Também sei."
"Você viu quanto custa um hotel nesta época?"
Lembrei do sanduíche frio no carro. Não contei a ela. Naquela manhã, eu já tinha explicado o suficiente.
Bruno ergueu a tampa de um cooler.
"Tem carne aqui para uma semana."
"Levem com vocês."
"Não cabe tudo se a gente tiver que ficar em quartos separados."
Não respondi. Ele esperou mais um instante, depois fechou a tampa.
Beatriz continuava segurando a mala diante de mim.
"Sua avó nunca teria deixado os próprios filhos na rua."
Meu pai levantou a cabeça.
"Ela acabou de dizer o que queria, Beatriz."
Minha tia abriu a boca, surpresa.
Ele passou por ela e pegou duas sacolas que estavam junto ao muro.
"Vamos guardar as coisas."
Ninguém se mexeu imediatamente. Depois um primo abriu o porta-malas. Outro começou a procurar hospedagem no celular, andando pela calçada para fugir das reclamações.
Renata voltou com as crianças. Meu sobrinho perguntou se não dormiria no quarto dos beliches.
Minha irmã se abaixou diante dele.
"Não, filho. A gente veio sem combinar com a tia. Vamos para outro lugar."
Foi a primeira frase daquela manhã que não tentava me culpar.
Os adultos carregaram tudo de volta. Uma caixa de presentes rasgou no fundo e meu pai precisou se ajoelhar para recolher os pacotes. Beatriz reclamou da areia nas rodas da mala. Bruno descobriu que o cooler não passava pelo porta-malas com os bancos levantados.
Fiquei ali até terminarem.
Antes de entrar no carro, minha tia apontou para mim.
"Não pense que isso acabou."
Eduardo lhe entregou seu cartão.
Ela o pegou, amassou uma ponta entre os dedos e foi embora.
Minha mãe se demorou junto à porta aberta.
"Você vai passar o Natal sozinha?"
Olhei para ela. Eu esperara aquela pergunta por tanto tempo que, quando finalmente veio, não sabia o que responder.
"Ainda não decidi."
Ela assentiu e entrou.
Depois que os carros desapareceram, fechei o portão. Minhas mãos tremiam ao girar a chave.
Eduardo esperou que eu respirasse antes de perguntar se precisava de alguma coisa.
Pedi uma cópia do áudio.
Queria ouvir minha avó outra vez, quando não houvesse ninguém exigindo que eu abrisse uma porta.
Os meses seguintes não foram simples. Houve documentos, explicações e mensagens que deixei sem resposta. Alguns pagamentos tinham sido autorizados. Outros, não. Ao fim das negociações, Beatriz assinou um acordo para devolver as quantias que não conseguiu justificar.
Nunca pediu desculpas. Eu parei de esperar.
Minha mãe demorou até conseguir escrever sem defender a irmã.
Um dia mandou:
"Eu devia ter perguntado por que minha filha não estava à mesa. Eu sabia que você não estava trabalhando em todos aqueles Natais."
Respondi apenas quando consegui.
Voltamos a tomar café de vez em quando. Meu pai começou a ligar sem passar o telefone para ela. Renata me pediu desculpas pelas mensagens que tinha escrito no grupo.
Ouvi os três. Não marquei uma reunião para comemorar que estava tudo resolvido.
Não estava.
No dezembro seguinte, preparei a mesa da varanda.
Convidei a enfermeira que cuidara da minha avó, o vizinho que conferia as janelas depois das tempestades, duas colegas da clínica e uma amiga que passaria aquele Natal longe dos filhos.
Comigo e os outros convidados, éramos nove.
Todos perguntaram o que poderiam levar.
Usei a louça azul de dona Lúcia. Quando fui buscar mais pratos, encontrei no armário um jogo de copos que Beatriz sempre dizia ser delicado demais para usar.
Lavei todos.
Minha mãe mandou uma mensagem desejando uma noite tranquila. Agradeci. Ainda não estava pronta para convidá-la.
Na varanda, alguém puxou uma cadeira e perguntou onde devia colocá-la.
Mostrei o lugar ao meu lado.
Durante treze anos, eu tinha esperado que minha família se lembrasse de guardar um lugar para mim.
Naquela noite, servi a comida antes que esfriasse.
Todos os lugares da minha mesa estavam ocupados por pessoas que eu queria ali.
FIM
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