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"Minha Família Me Excluiu de 13 Natais. Depois, Apareceu com 23 Pessoas na Casa que Herdei." Capítulo 2

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AS PASTAS DE DONA LÚCIA

Beatriz não pegou o documento que Eduardo ofereceu.

"Eu sei o que está escrito. Essa história ainda vai ser resolvida."

"Qualquer questionamento será tratado pelos meios adequados. Hoje, ninguém vai forçar a entrada."

Eu tinha pedido que ele estivesse ali depois que minha tia ameaçara chamar um chaveiro. Conhecia Beatriz: se me encontrasse sozinha, faria de tudo para transformar meu não numa discussão interminável.

Minha mãe encarou a pasta.

"Sua avó tinha outros netos, Mariana."

"Eu sei."

"Então você entende como isso parece."

Entendia. Desde que souberam do testamento, olhavam para mim como se eu tivesse saído do hospital levando a bolsa da minha avó.

Dona Lúcia deixara recursos para os filhos. A casa tinha sido destinada a mim, e Eduardo acompanhava os procedimentos necessários.

Eu também só soubera depois da morte dela.

"Foi uma decisão da minha mãe", Beatriz disse, "mas ela já estava muito confusa. Algumas pessoas passavam tempo demais sozinhas com ela."

Renata baixou os olhos.

Eu me lembrei de um domingo em que tinha vindo consertar a bomba de água. Minha avó ficara sentada perto de mim, segurando uma lanterna, embora ainda fosse dia.

"Você podia ter chamado um profissional, vó."

"Chamei. Ele não veio. Você veio."

Eu viera muitas vezes. Para acompanhá-la ao banco, levá-la a consultas, esperar o técnico do refrigerador. Às vezes perdia o domingo inteiro na estrada.

Nunca imaginei que aquilo estivesse me comprando uma casa.

"Eu estava com ela porque queria estar", respondi.

"E eu não?" Beatriz puxou a alça da bolsa. "Quem administrava tudo? Quem resolvia os pagamentos? Você acha que uma visita de fim de semana vale mais do que anos cuidando das contas?"

Eduardo olhou para mim. Tirei do envelope algumas folhas copiadas.

Minha avó comprara três pastas de argolas nos últimos meses de vida. Eu mesma a levara à papelaria.

"Vai organizar as receitas?", perguntei naquele dia.

Ela escolhera divisórias coloridas.

"Vou organizar o que andam dizendo que eu esqueci."

Achei que fosse uma reclamação sobre remédios.

Só entendi quando abri as pastas no armário da sala.

"Ela guardou os comprovantes", falei.

Beatriz estendeu a mão.

"Me dê isso."

Mantive as folhas do meu lado.

Havia consertos feitos depois das temporadas da família, compras pessoais no cartão adicional e transferências que minha avó tinha marcado com pontos de interrogação.

Ao lado de uma compra de televisão, escrevera: "Não comprei. Beatriz ficou de explicar."

Minha mãe reconheceu a data e olhou para a irmã.

"Essa televisão não era..."

"Eu ia acertar depois", Beatriz interrompeu. "Não vou discutir cada centavo no meio da rua."

Meu estômago apertou.

Treze anos antes, eu encontrara minha avó chorando à mesa. O cartão tinha sido recusado na farmácia.

Sentamos juntas para conferir a fatura. Havia supermercado, combustível e uma televisão que não estava naquela casa.

Beatriz tinha um cartão adicional para comprar o que minha avó precisasse.

Quando perguntei sobre os gastos, ela gritou comigo. Minha mãe pediu que eu não provocasse uma briga.

Três semanas depois, fizeram a ceia sem me chamar.

"Você já inventava problema naquela época", minha tia disse agora.

Antes que eu respondesse, Renata soltou:

"Essa história da televisão aconteceu há anos. Pra que mexer nisso agora?"

Virei o rosto para ela.

"Eu não tinha dito que era a mesma televisão."

Minha irmã apertou as mochilas contra o corpo.

"Mari..."

"Então você sabia."

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