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"Minha Família Me Excluiu de 13 Natais. Depois, Apareceu com 23 Pessoas na Casa que Herdei." Capítulo 1

正文开头

ELES JÁ TINHAM ESCOLHIDO OS QUARTOS

Minha tia tentou abrir o portão com a chave antiga antes mesmo de dizer bom-dia.

Atrás dela, quatro carros ocupavam a rua. Havia malas, caixas de cerveja, presentes e uma criança abraçada a uma boia de tubarão.

Vinte e três pessoas.

Nenhuma tinha sido convidada.

"Mariana, essa chave não está entrando. O que você fez com a fechadura?"

Fiquei do outro lado das grades.

"Troquei."

Beatriz ergueu os olhos. Minha mãe parou de tirar uma travessa do porta-malas.

"Então venha abrir. Estamos cansados da estrada."

Minha irmã apareceu atrás dela, segurando duas mochilas.

"Mari, deixaram o quarto da varanda para mim, né? Com as crianças, preciso de espaço."

Olhei para Renata. Ela falava comigo como se tivéssemos combinado aquilo durante um almoço de domingo.

Fazia oito meses que não perguntava como eu estava.

"Ninguém vai ficar aqui."

Minha tia soltou uma risada impaciente.

"Não começa. São quase onze horas, está um calor absurdo e tem criança querendo fazer xixi."

Era 23 de dezembro. O primeiro Natal desde a morte da minha avó.

E o primeiro, em treze anos, em que minha família fazia questão de me encontrar.

Não para me ver.

Para eu abrir a casa.

Meu nome é Mariana Duarte. Aos trinta e seis anos, eu trabalhava como fisioterapeuta em São Paulo e já tinha aprendido a evitar as redes sociais na manhã de Natal.

Sempre havia fotos.

Meus pais diante da árvore. Renata com os filhos. Meus primos de gorros vermelhos, brindando na varanda daquela mesma casa em Itanhaém.

Eu descobria pelas legendas onde todos tinham passado a noite.

No começo, ligava.

"Achamos que você estaria trabalhando", minha mãe dizia.

Ou então:

"Foi tudo tão em cima da hora."

Nas fotos, porém, havia camisetas iguais com os nomes de cada um.

Um ano, perguntei por que não tinham feito uma para mim.

Meu pai suspirou ao telefone.

"Você já é adulta, Mariana. Não precisa transformar uma ceia num problema."

Parei de perguntar. Isso facilitou muito a vida deles.

Minha avó continuava ligando. Às vezes da cozinha, com o barulho da reunião atrás dela. Eu dizia que estava tudo bem antes que ela perguntasse.

Em outubro, segurei sua mão no hospital até a enfermeira precisar me afastar da cama.

Depois do enterro, Beatriz não perguntou se eu tinha conseguido dormir.

Mandou uma mensagem:

"Vamos chegar dia 23. Avise a moça da limpeza para preparar os quartos de cima."

Vieram outras.

"Nós levamos as carnes."

"Renata fica na varanda."

"Não esqueça de ligar os freezers."

Respondi que não receberia hóspedes. Minha tia chamou aquilo de ressentimento. Três dias antes da viagem, enviei um novo aviso, sem rodeios: ninguém tinha autorização para se instalar na casa.

Beatriz respondeu que a chave dela ainda funcionava.

Agora girava aquela chave inútil entre os dedos.

"Sua avó nunca fez uma coisa dessas."

"Eu avisei que vocês não poderiam vir."

"Você escreveu um monte de absurdos. Achei que já tivesse passado."

Meu pai se aproximou, enxugando a testa.

"Vamos conversar lá dentro."

"Podemos conversar aqui."

Ele olhou para os carros, constrangido. Alguns vizinhos tinham saído às varandas.

Minha mãe abaixou a voz.

"Você pretende deixar a própria família na calçada?"

Atrás dela, meu primo Bruno já descarregava um segundo cooler. Fiz um gesto para que parasse.

Beatriz bateu a palma no portão.

"Essa casa é da minha mãe. Não pense que vai se aproveitar da morte dela para mandar em todo mundo."

Ao meu lado, o doutor Eduardo Martins deu um passo à frente.

Minha tia só então pareceu reparar no homem de pasta que aguardava em silêncio.

"Quem é você?"

"O advogado que acompanhou sua mãe. E precisamos esclarecer algumas coisas antes que a senhora tente entrar."

Ele abriu a pasta.

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