"A Enfermeira Que Salvou o Chefe da Máfia da Própria Noiva" Capítulo 5 — O Irmão do Mafioso
— Quem contou a você sobre aquele carro?
Dante Montenegro ouviu a pergunta do irmão sem desviar os olhos do mar de Santos.
— Você está mais preocupado com a fonte do que com a invasão da casa de uma senhora de setenta e dois anos?
Ricardo soltou uma risada curta.
— Minha empresa tem centenas de veículos, Dante. Se um funcionário cometeu alguma besteira, vou resolver.
— Não resolva nada. Quero os registros intactos.
— Desde quando você desconfia de mim?
— Desde que fez essa pergunta antes de perguntar se a senhora está bem.
Dante desligou. Marina Oliveira, ao seu lado, apertou o casaco que ele lhe emprestara.
— Você não precisava confrontá-lo agora.
— Precisava ouvir a voz dele.
— E o que ouviu?
— Medo. Ricardo sempre disfarçou melhor do que eu.
Rafael aproximou-se com outra informação. O carro havia sido retirado da garagem mediante autorização eletrônica de um supervisor ligado diretamente ao gabinete de Ricardo.
— Isso ainda não prova que seu irmão mandou alguém à casa da minha mãe — Marina advertiu.
Dante assentiu.
— Então vamos encontrar provas. Sem colocar sua família na linha de fogo.
Antes de voltar para São Paulo, Dante acompanhou Marina até a entrada do apartamento temporário.
— Sua mãe vai me odiar se descobrir quanto custa a segurança? — perguntou.
— Ela vai odiar se você tentar pagar a feira dela.
— Então posso levar flores?
— Pode. Mas ela prefere manjericão.
Dante tirou o telefone do bolso e anotou a informação com seriedade exagerada.
Marina balançou a cabeça, sorrindo.
— Você está anotando mesmo?
— É uma mulher importante. Quero causar boa impressão.
A frase a deixou sem resposta. Dante percebeu e não pressionou.
No carro, Rafael informou que a polícia recolhera imagens do edifício. Dois homens apareciam entrando pela garagem, mas seus rostos estavam parcialmente cobertos.
— A perícia ainda vai comparar as imagens com outros registros — explicou.
Dante observou Marina pelo retrovisor.
— Não quero que ela precise reconhecer ninguém sem apoio.
— Eu também não quero — Marina respondeu. — Mas, se for necessário, vou colaborar.
Ela sabia que o medo não desapareceria por decreto. Precisava continuar trabalhando, telefonar à mãe e confiar nos procedimentos, um dia de cada vez.
Na manhã seguinte, Marina visitou Dona Lúcia no apartamento temporário. Encontrou a mãe preparando café para dois policiais que faziam a ronda do edifício.
— Mãe! Não precisa servir ninguém!
— Preciso, sim. Esses rapazes estão trabalhando. E aquele grandalhão de preto comeu três pães.
Marina reconheceu Rafael na varanda, segurando uma xícara minúscula entre os dedos.
Pela primeira vez em dois dias, ela riu sem esforço.
O telefone tocou. Era Dante.
— Sua mãe está bem?
— Está alimentando sua equipe inteira.
— Então é mais perigosa do que pensei.
Marina sorriu, mas a voz dele mudou.
— Preciso que venha à mansão. Ricardo convocou uma reunião extraordinária.
Na Faria Lima, Ricardo já havia reunido diretores e o advogado Marcelo Ferraz. Uma tela exibia gráficos sobre a queda de produtividade de Dante.
— Meu irmão precisa de repouso — anunciou Ricardo. — Alguém deve assumir temporariamente as decisões estratégicas.
Marcelo distribuiu cópias de uma proposta de procuração empresarial.
Dona Beatriz estava presente, sentada ao lado de Vanessa. A jovem apertava sua mão com expressão de falsa preocupação.
— Só queremos protegê-lo, meu filho — disse Beatriz quando Dante entrou.
Ele atravessou a sala sem pressa. Marina vinha atrás, com uma pasta de registros clínicos autorizados pelo próprio paciente.
— Proteger-me de quê? — perguntou Dante.
Ricardo levantou-se.
— De outra crise. Você desmaiou duas vezes em poucos dias.
— E continua sendo meu irmão. Por que não me telefonou antes de convocar meus diretores?
— Porque você não está ouvindo ninguém além dessa enfermeira.
Vanessa aproveitou a deixa.
— Dante, meu amor, você precisa reconhecer que está fragilizado.
— Não me chame assim nesta reunião.
O silêncio espalhou-se pela mesa.
Marcelo pigarreou.
— A proposta prevê poderes administrativos limitados, mediante sua assinatura voluntária. Não há transferência automática de propriedade.
Dante leu a primeira página e depois a última.
— E por que a cláusula sete permite renovar esses poderes sem minha presença?
Marcelo empalideceu.
— É uma previsão excepcional.
— Excepcionalmente conveniente para quem redigiu.
Ricardo bateu a mão na mesa.
— Você está deixando uma estranha envenenar sua cabeça!
Marina sentiu o insulto, mas permaneceu calada. Dante, não.
— Cuidado com o que diz sobre ela.
— Ela apareceu há três dias! — Ricardo gritou. — Você a conhece há três dias!
— E nesses três dias ela fez perguntas que ninguém nesta família teve coragem de fazer.
Vanessa levantou-se de repente.
— Porque está interessada no seu dinheiro!
Marina abriu a pasta.
— Se o senhor permitir, Dante, posso apresentar apenas os fatos médicos confirmados.
Ele assentiu.
Marina explicou a hipoglicemia documentada, a ausência de diagnóstico de diabetes e a investigação sobre uma prescrição eletrônica suspeita. Não atribuiu culpa a ninguém.
— A auditoria ainda está em andamento — concluiu. — A decisão empresarial não deveria se basear em afirmações médicas não verificadas.
Um dos diretores, Paulo Nogueira, afastou a procuração.
— Concordo. Não vou votar uma medida construída sobre informações incompletas.
Outros dois diretores fizeram o mesmo.
Ricardo lançou um olhar fulminante para Marcelo.
Dante recolheu os documentos.
— A reunião terminou. Qualquer mudança de gestão passará por revisão jurídica independente.
Quando os convidados saíram, Vanessa interceptou Marina perto do elevador.
— Está satisfeita? Humilhou uma família inteira.
— Não fui eu quem convocou a reunião.
— Você quer o lugar que é meu.
— Não quero lugar nenhum que precise ser roubado.
Vanessa ergueu a mão. Dante apareceu antes que ela completasse o gesto.
— Vanessa. Afaste-se.
Ela baixou o braço, os olhos cheios de lágrimas ensaiadas.
— Vai defendê-la contra mim outra vez?
— Vou impedir que ameace alguém na minha frente.
Marina tocou de leve o antebraço dele.
— Eu posso responder por mim.
Dante olhou para ela e recuou um passo.
— Eu sei. Desculpe.
A resposta desconcertou Vanessa mais do que qualquer grito.
À noite, Marina voltou ao escritório da mansão para devolver uma pasta. Encontrou Dante sozinho, olhando uma fotografia antiga dos irmãos.
— Nós éramos próximos — ele disse.
— E deixaram de ser?
— Quando meu pai decidiu que eu comandaria o grupo. Ricardo nunca me perdoou.
Marina sentou-se à frente dele.
— Desconfiança não é prova. Você sabe disso.
— Sei. É por isso que ainda não o afastei.
Rafael entrou com uma cópia de registros societários obtidos legalmente pela equipe jurídica.
— Patrão, o advogado independente encontrou uma coisa.
Dante pegou o documento.
Três meses antes, Ricardo apresentara uma proposta de alteração do acordo de sócios. O texto previa ampliação de seus poderes se Dante ficasse impossibilitado de administrar o grupo.
Marina verificou a data. Era a véspera do primeiro desmaio de Dante.
— Pode ser coincidência — ela murmurou.
Dante passou o dedo sobre a assinatura de Ricardo.
— Então por que meu irmão tentou esconder que esse documento existia?
Rafael apontou para a última folha.
Havia uma segunda assinatura como testemunha da negociação.
Vanessa Albuquerque.
Dante fechou a pasta devagar.
Naquele instante, o celular de Marina vibrou. Uma mensagem sem identificação dizia apenas:
“Pergunte a Ricardo quem ganhou dinheiro quando seu pai morreu.”
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