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"A Enfermeira Que Salvou o Chefe da Máfia da Própria Noiva" Capítulo 3 — Três Meses de Mentiras

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— VOCÊ ESTÁ DIZENDO QUE MINHA NOIVA ME ENVENENOU?

Dante bateu a pasta sobre a mesa do escritório, no Jardim Europa. O som fez estremecer uma pequena escultura de bronze.

Marina não recuou. Estava diante de um homem acostumado a intimidar adversários, mas também diante de um paciente que precisava de respostas.

— Estou dizendo que suas crises precisam ser investigadas. Não vou chamar ninguém de culpado sem provas.

— Então por que reuniu todas essas datas?

— Porque existe um padrão que os médicos precisam avaliar.

Ela abriu a pasta. Os registros mostravam episódios de suor frio, confusão e tremores, alguns ocorridos depois de refeições ou da administração de medicamentos.

Dante percorreu a lista. Lembrava-se de cada humilhação. A reunião interrompida. A queda no banheiro. A manhã em que precisou ser carregado por dois seguranças.

— Vanessa ficou comigo em todas essas ocasiões.

— Eu sei.

— Cancelou viagens. Passou noites sem dormir.

— Isso também está registrado.

— Então você não entende o que está insinuando.

Marina fechou a pasta com delicadeza.

— Entendo que o senhor tem medo de descobrir que alguém próximo pode ter mentido. Mas investigar não significa condenar.

Dante virou-se para a janela. O jardim parecia impecável. Funcionários podavam arbustos enquanto pássaros pousavam na fonte. Nada denunciava o medo que havia dentro daquela casa.

— Meu pai dizia que a fraqueza convida a traição.

— Seu pai estava errado sobre uma coisa — Marina respondeu.

Ele olhou por cima do ombro.

— Qual?

— Precisar de ajuda não torna ninguém fraco.

Dante não encontrou resposta. Marina aproveitou o silêncio para lembrar as orientações de Henrique: refeições regulares, acompanhamento, registro de sintomas e nada de medicamentos sem conferência.

— O senhor precisa almoçar.

— Não estou com fome.

— Isso não altera o horário da refeição.

— Você dá ordens a todos os pacientes?

— Só aos que tentam discutir com o próprio relógio.

Ele soltou uma risada inesperada. Marina também sorriu, mas recuperou a seriedade.

— Vou pedir que tragam a comida.

— Coma comigo.

— Isso não faz parte do contrato.

— Considere um pedido pessoal.

Ela hesitou. Dante percebeu a diferença entre um pedido e uma ordem. Estava tentando aprender a fazer o primeiro.

Almoçaram numa sala envidraçada diante do jardim. Pela primeira vez, ele não consultou o telefone durante a refeição.

Marina contou sobre Santos, o cheiro de pão fresco nas manhãs de domingo e Dona Lúcia reclamando que a filha trabalhava demais.

Dante ouviu com atenção. A simplicidade daquelas lembranças o comoveu mais do que esperava.

— Minha mãe também reclama — disse.

— Mas o senhor escuta?

— Raramente.

— Então as duas têm algo em comum.

Ele observou Marina servir água no próprio copo. Seus gestos eram seguros, sem afetação. Ela não tentava agradá-lo. Talvez por isso ele quisesse tanto fazê-la sorrir.

— Por que escolheu enfermagem?

— Minha avó passou meses internada quando eu era adolescente. Uma enfermeira conversava com ela como se fosse uma pessoa, não um diagnóstico.

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— E você quis fazer o mesmo.

— Quis que alguém sentisse menos medo porque eu estava por perto.

Dante baixou os olhos para o prato. Pensou no quanto havia temido as próprias crises, embora nunca admitisse isso diante da família.

— Está funcionando — murmurou.

Marina não fingiu não ouvir. Apenas lhe ofereceu um sorriso pequeno.

À tarde, Vanessa apareceu sem avisar. Encontrou Marina perto da escada e exigiu uma conversa privada.

— Você gosta de dinheiro, não gosta?

— Gosto de receber pelo meu trabalho.

Vanessa retirou um cheque da bolsa. O valor equivalia a muitos meses de salário.

— Pegue e desapareça da vida do Dante.

Marina olhou o papel, depois o rosto da mulher.

— Isso é uma tentativa de suborno?

— É uma oportunidade de sair sem escândalo.

— Não estou procurando escândalo. Estou trabalhando.

Vanessa se aproximou, o perfume caro invadindo o corredor.

— Mulheres como você confundem gratidão com interesse amoroso. Ele nunca vai escolher uma enfermeira de Santos.

Marina sentiu a provocação. Recusou-se a responder no mesmo tom.

— O senhor Montenegro precisa de cuidados e de uma investigação. Não vou aceitar dinheiro para abandonar meu trabalho.

Ela devolveu o cheque intacto. Vanessa o amassou na mão.

— Você vai se arrepender.

— Espero que a senhora não esteja me ameaçando.

Vanessa se afastou sem responder. No escritório vizinho, Ricardo aguardava com os braços cruzados.

— E então? — perguntou.

— Ela recusou.

— Você deveria ter previsto isso.

— Não fale comigo como se fosse meu chefe!

Ricardo fechou a porta.

— Dante está revisando os registros. Se continuar, vai chegar até nós.

— Você prometeu que a documentação estava segura.

— E você prometeu que ninguém perceberia a medicação.

Vanessa empalideceu. Do lado de fora, um funcionário passou carregando toalhas. Os dois interromperam a discussão imediatamente.

Na saída do escritório, Marina encontrou uma funcionária recolhendo pratos. A mulher parecia nervosa e evitava olhar para a porta fechada de Ricardo.

— Está tudo bem? — Marina perguntou.

— Sim, senhora. Só estou atrasada.

— Se viu alguma coisa importante sobre os medicamentos, pode falar com a equipe médica.

A funcionária apertou a bandeja contra o corpo.

— Nesta casa, doutora, algumas perguntas custam o emprego.

Antes que Marina pudesse responder, a mulher desapareceu pelo corredor de serviço. Aquela frase ficou ecoando em sua cabeça.

Ao anoitecer, Dante insistiu em terminar uma reunião por vídeo. Marina encerrou seu turno depois de conferir as orientações e deixar Rafael informado sobre os sinais de alerta.

Quarenta minutos depois, o telefone dela tocou.

— Marina! — Rafael disse, sem cumprimentar. — O patrão está no chão do escritório.

Ela retornou à mansão. Encontrou Dante encostado na mesa, suando e com dificuldade para responder perguntas simples.

— Dante, consegue me ouvir?

— Marina...

Ela verificou os sinais e a glicemia. O valor estava baixo novamente. Pediu que Rafael acionasse a equipe de emergência e seguiu o plano de atendimento estabelecido.

Dante segurou sua mão. Os dedos estavam frios, e o aperto não tinha a força habitual.

— Não me deixe sozinho.

Marina se ajoelhou ao lado dele.

— Estou aqui. A ajuda está chegando.

— Promete?

Ela sentiu um aperto no peito. O homem que controlava uma cidade parecia uma criança perdida diante de algo que não compreendia.

— Prometo fazer tudo o que estiver ao meu alcance.

Quando a equipe chegou, ela relatou os fatos. Dante foi avaliado novamente. Henrique determinou observação e revisão de todas as possíveis fontes de exposição a medicamentos.

Rafael encontrou Marina no corredor, horas depois.

— Nunca vi o patrão pedir que alguém ficasse.

— Todo mundo precisa de companhia em algum momento.

— Ele não costuma admitir isso.

Marina olhou pela janela. A cidade brilhava, indiferente ao sofrimento de quem vivia atrás de muros altos.

— Talvez esteja cansado de fingir.

O telefone vibrou. Era uma fotografia de Dona Lúcia saindo da padaria no Gonzaga. A mãe de Marina segurava uma sacola de pão e sorria para alguém fora do enquadramento.

Abaixo, uma frase: “Você salvou o homem errado.”

Marina tentou ligar para a mãe. A chamada não foi atendida. Outra mensagem apareceu.

“Pare de investigar.”

Ela discou novamente, agora com as mãos trêmulas. Nada. Uma terceira mensagem surgiu antes que a ligação terminasse.

“Se continuar, sua mãe será a próxima.”

Marina levou a mão à boca. Pela primeira vez desde que entrara na mansão Montenegro, pensou seriamente em fugir.

Então ouviu a voz de Dante atrás dela.

— Marina? O que aconteceu?

Ela se virou, segurando o telefone contra o peito. Não queria mostrar medo. Mas as lágrimas que tentava conter já brilhavam nos olhos.

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