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"O Segredo Debaixo da Mesa" Capítulo 5 — O Segredo da Mãe Morta

正文开头

— Marcelo Ferraz? — Dante repetiu, olhando para o telefone como se tivesse ouvido um nome impossível.

Henrique confirmou. Os pagamentos associados às solicitações de alteração no tratamento de Lucas passavam por uma empresa de consultoria que também prestava serviços ao Grupo Montenegro.

Marcelo, diretor financeiro havia quase uma década, autorizara despesas daquela empresa em diversas ocasiões.

— Isso não prova que ele mexeu em qualquer prescrição — advertiu o advogado. — Mas nos dá um caminho para investigar.

Dante encerrou a ligação. Do outro lado da bancada, Marina recolhia duas xícaras esquecidas. Ele tinha a impressão de que a cozinha inteira ouvira seu coração bater.

— O senhor está bem? — ela perguntou.

— Passei três anos tentando entender por que meu filho estava sempre doente. Agora descubro que pessoas próximas podem ter escondido informações de mim.

— Ainda não sabe tudo.

— É justamente isso que me assusta.

Marina pousou as xícaras. Não tentou consolar o patrão com promessas vazias. Disse apenas que Lucas estava dormindo, protegido, e que naquela noite ninguém entraria no quarto sem autorização de Vicente.

Dante agradeceu. Não era uma palavra que costumasse pronunciar dentro da própria casa.

Na manhã seguinte, Verônica apareceu à mesa do café como se nada tivesse acontecido. Vestia um conjunto branco impecável e trazia uma caixa de brinquedos caros para Lucas.

— Pensei que pudéssemos levá-lo para passar uns dias no litoral — anunciou.

Dante manteve a xícara suspensa.

— Lucas não vai viajar.

— Você não pode transformá-lo num prisioneiro porque uma empregada inventou histórias.

— Não fale de Marina dessa maneira.

Verônica deixou o sorriso desaparecer por um instante.

— Está defendendo aquela mulher de novo?

— Estou defendendo o direito do meu filho de receber cuidados que eu possa compreender.

Ele pediu que Verônica se afastasse das decisões médicas até o fim da auditoria. Ela ficou imóvel, os dedos apertando a alça da bolsa.

Depois saiu sem tocar no café. Dante percebeu que, pela primeira vez, ela não perguntara como Lucas havia passado a noite.

No quarto infantil, Lucas construía uma ponte de blocos enquanto Sofia segurava Bolota, seu coelho de pelúcia. A ponte caiu três vezes. Na quarta, a menina bateu palmas como se tivessem erguido um arranha-céu.

— Ficou forte! — ela comemorou.

Lucas sorriu discretamente. Dante observou pela porta. Aquele sorriso era pequeno, mas parecia maior que todos os contratos assinados por ele naquele ano.

Marina pediu algumas horas para visitar a mãe em Vila Mariana. Dante ofereceu motorista. Ela recusou primeiro, depois aceitou ao lembrar que Sofia estava cansada e que o ônibus seria demorado. Levou a filha consigo; Lucas ficou na mansão sob os cuidados de uma profissional indicada pela equipe médica.

Rosa Oliveira morava num apartamento simples, acima de uma padaria. O cheiro de pão recém-assado sempre fazia Marina lembrar dos domingos de infância.

Naquela tarde, porém, encontrou a mãe inquieta, com as cortinas fechadas apesar do sol.

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— O que aconteceu na mansão? — Rosa perguntou antes mesmo de oferecer água.

Marina contou sobre o jantar, o saco de veludo, o remédio de Lucas e as suspeitas sobre Verônica. Sofia interrompeu para explicar, com gestos largos, como o moço Dante levantara a toalha da mesa.

Rosa segurou a borda da cadeira.

— Você disse Verônica Albuquerque?

— A senhora conhece essa família?

A mãe não respondeu. Levantou-se, foi até a pia e deixou cair um copo. O vidro se espalhou pelo chão. Sofia começou a chorar com o susto, e Marina a colocou no sofá com Bolota antes de ajudar Rosa.

— Mãe, olha para mim.

Rosa tinha os olhos molhados.

— Eu devia ter falado há muito tempo.

Ela contou que trabalhara para os Montenegro quando Beatriz, a primeira esposa de Dante, ainda estava viva. Beatriz era gentil com os funcionários, mas nos últimos meses antes do acidente andava nervosa.

Passava horas conferindo papéis, fazia perguntas sobre transferências financeiras e insistia em falar com o marido sem intermediários.

— Ela desconfiava de Marcelo — disse Rosa. — Achava que havia dinheiro saindo da empresa por caminhos que ninguém explicava.

— E Verônica?

— Frequentava a casa. Era amiga de conhecidos da família. Beatriz não gostava da maneira como ela aparecia sem avisar.

Marina sentiu um frio no estômago.

— A senhora contou isso à polícia quando Beatriz morreu?

Rosa baixou a cabeça.

— Eu só sabia de suspeitas, filha. Não vi ninguém provocar aquele acidente. Depois recebi uma ligação mandando esquecer o que ouvira. Você era jovem, estava grávida, e eu tive medo.

O silêncio pareceu comprimir o apartamento. Sofia, já tranquila, fazia o coelho tomar chá numa xícara de brinquedo. Marina pensou na facilidade com que os adultos chamavam o medo de prudência.

— Beatriz deixou alguma coisa com a senhora?

Rosa olhou para a neta, depois para a porta. Foi ao quarto e puxou de dentro de uma mala uma caixa de sapatos amarrada com barbante. Havia fotografias antigas, uma cópia de comprovante bancário e um envelope amarelado.

— Ela me pediu para guardar isso. Disse que, se acontecesse alguma coisa, eu deveria procurar Dante. Nunca tive coragem.

Marina segurou o envelope sem abri-lo. Na frente, a letra inclinada de Beatriz formava uma frase: “Se alguma coisa acontecer comigo, protejam meu filho.”

— Preciso entregar ao Dante — murmurou.

— Entregue a alguém que possa preservar tudo — Rosa pediu. — Não quero que a verdade desapareça de novo.

O celular de Marina tocou. Era Vicente. Ele informou que um homem desconhecido havia tentado entrar na área de serviço da mansão alegando ser funcionário de uma empresa contratada. Ao ser impedido, fugira antes de apresentar identificação.

Marina olhou para a mãe. A velha ameaça parecia ter encontrado o endereço do presente.

Quando Dante recebeu as fotografias do envelope por mensagem, reconheceu imediatamente a letra de Beatriz. Ficou alguns segundos sem respirar. Havia guardado cartas dela durante anos; nenhuma começava com tanto medo.

Henrique pediu que o original fosse acondicionado e entregue com registro formal, sem circular entre curiosos. Dante concordou. Pela primeira vez desde a morte da esposa, não queria uma resposta rápida. Queria uma resposta verdadeira.

Antes de sair, Marina ajudou Rosa a recolher os cacos do copo. A mãe insistiu em fazer café, como fazia sempre que estava nervosa, mas esqueceu de colocar água na cafeteira.

Marina desligou o aparelho e a abraçou. Havia raiva por tantos anos de silêncio, mas também compreensão. Rosa criara a filha sozinha depois de perder o marido e aprendera a enxergar perigo em qualquer pessoa poderosa.

— Eu não quero que a senhora carregue isso sozinha de novo — Marina disse.

Rosa apertou as mãos da filha.

— Promete que não vai deixar Sofia perto dessa confusão?

— Prometo fazer tudo para protegê-la. Mas não vou ensinar minha filha a ter vergonha da verdade.

Sofia apareceu na porta, com o coelho debaixo do braço, e perguntou se a vovó estava triste. Rosa a puxou para um abraço. Pela primeira vez naquela tarde, conseguiu sorrir.

Então Marina virou o último papel encontrado na caixa. No verso de um recibo antigo, Beatriz escrevera apenas dois nomes, ligados por uma seta: “Marcelo Ferraz — Albuquerque”. Abaixo, uma data: três dias antes do acidente.

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