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"O Segredo Debaixo da Mesa" Capítulo 4 — A Empregada Que Enfrentou a Noiva

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— Você autorizou alterações nos registros médicos do meu filho?

Verônica levantou os olhos da xícara de café. Dante estava à porta da sala de estar, ainda com o casaco que usara no hospital. Ela levou um instante para recuperar o sorriso.

— Bom dia para você também, meu amor.

— Responda.

— Eu ajudei com a burocracia. Você me pediu para cuidar das consultas quando estava viajando.

Dante se lembrava de ter permitido que Verônica agendasse atendimentos. Não se lembrava de autorizar mudanças em prescrições. A distinção era importante, e ele não a deixaria desaparecer numa discussão.

— Agendar consultas não é decidir tratamento.

— Você fala como se eu tivesse feito alguma coisa monstruosa!

— Estou pedindo uma explicação.

Verônica se levantou. O vestido de seda azul e os brincos de pérola compunham a imagem de uma mulher injustamente ofendida. Ela sabia usar a própria elegância como escudo.

— Desde que aquela empregada apareceu, você só sabe me acusar. Marina enche sua cabeça de mentiras, e você acredita porque ela faz cara de santa.

— Marina não tem acesso aos registros do hospital.

— Mas tem acesso a você. E isso parece ser suficiente.

Dante não respondeu. O silêncio irritou Verônica mais do que qualquer grito.

Na cozinha, Marina preparava uma bandeja de frutas para Lucas, que recebera alta com orientações de acompanhamento. O menino estava melhor, mas ainda cansava com facilidade. Sofia sentava-se numa cadeira pequena, desenhando com lápis emprestados pela governanta.

— Mamãe, o Lucas gosta de maçã sem casca — comentou.

— Eu sei, meu bem.

— E gosta quando eu faço voz de coelho.

Marina beijou a cabeça da filha. Gostaria que a infância das duas pudesse ser feita apenas dessas descobertas simples. Mas desde o jantar sentia que a mansão escondia corredores mais perigosos do que aparentava.

Verônica entrou na cozinha sem cumprimentar ninguém.

— Marina, venha comigo. Agora.

No salão de serviço, vários funcionários estavam reunidos. Verônica fizera questão de chamá-los como testemunhas. Sobre uma mesa havia um envelope com o nome de Marina e uma folha de desligamento.

— Seu contrato termina hoje — anunciou.

Marina sentiu um frio no estômago.

— Aconteceu alguma coisa com meu trabalho?

— Aconteceu que você se meteu em assuntos que não lhe dizem respeito. Trouxe sua filha para uma festa particular, criou um escândalo e agora tenta se aproximar de Lucas para ganhar a confiança de Dante.

— Eu não fiz nada disso.

— Não discuta comigo. Assine e vá embora.

Uma camareira abaixou os olhos. Um cozinheiro pareceu querer intervir, mas recuou. Todos sabiam que Verônica tinha influência sobre a administração da casa.

Marina pensou no aluguel que venceria em oito dias, na mãe precisando de remédios e na mochila de Sofia pendurada na cadeira.

Por um instante, teve vontade de implorar.

Então lembrou o menino encolhido na cama do hospital.

— Eu posso perder meu emprego — disse, controlando a voz. — Mas não vou pedir desculpas por ter protegido uma criança.

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Verônica deu uma risada curta.

— Que discurso comovente. Você se imagina heroína de novela?

— Não. Sou mãe. E sei reconhecer quando uma criança está com medo.

O rosto de Verônica endureceu.

— Está insinuando alguma coisa sobre mim?

— Estou dizendo o que vi.

— Você quer meu lugar nesta casa!

Marina encarou a mulher que usava um relógio mais caro que tudo o que ela possuía.

— Eu quero voltar para casa com minha filha em segurança. Só isso.

— Então vá. E nunca mais se aproxime de Lucas.

— Quem determinou isso?

A pergunta veio da porta. Dante entrara sem fazer barulho. Atrás dele estava Vicente, que o procurava para tratar de um assunto de segurança.

Verônica mudou imediatamente de expressão.

— Dante, estou resolvendo um problema interno. Você não precisa se envolver.

Ele viu o papel de desligamento, o envelope e os rostos tensos dos funcionários.

— Marina foi contratada pela administração da casa. Qual é o motivo formal da demissão?

— Falta de confiança.

— Baseada em quê?

— Na minha palavra!

Dante pegou a folha e a colocou sobre a mesa.

— Nesta casa, quem decide sou eu. E ninguém será punido por relatar uma preocupação legítima sobre a segurança de Lucas.

Verônica perdeu a compostura.

— Você está escolhendo uma empregada em vez da sua noiva!

— Estou escolhendo investigar antes de condenar alguém.

Marina não sentiu vitória. Sentiu alívio e vergonha por ter sido exposta diante de todos. Dante percebeu. Pediu aos funcionários que voltassem ao trabalho e esperou até que estivessem sozinhos.

— Sinto muito por isso — disse a ela.

— Não quero que o senhor brigue com sua noiva por minha causa.

— Essa discussão não começou com você. Começou quando encontrei o nome do meu filho num frasco escondido.

Marina respirou fundo.

— Só peço que a Sofia não seja tratada como culpada por ter contado o que viu.

— Não será.

Quando os funcionários saíram, Marina recolheu o envelope com seus documentos sem abri-lo. Não queria dinheiro para comprar seu silêncio, nem uma promessa vaga de que tudo seria esquecido. Precisava de um ambiente em que pudesse trabalhar sem ameaças.

Dante compreendeu quando ela explicou isso e se comprometeu a orientar a administração a registrar qualquer nova ocorrência. Não lhe pediu confiança imediata. Disse que confiança seria construída por atitudes.

Marina ficou surpresa com a resposta. Em tantos empregos, ouvira patrões exigirem gratidão por coisas que eram apenas direitos. Pela primeira vez, alguém parecia disposto a escutá-la sem confundir sua necessidade de salário com ausência de dignidade.

Do corredor surgiu Lucas, caminhando devagar. Sofia vinha atrás, segurando Bolota.

— Papai, a Marina vai embora? — perguntou o menino.

Dante olhou para Marina antes de responder.

— Ela vai decidir o que é melhor para ela. Mas ninguém vai expulsá-la daqui por ter ajudado você.

Lucas abraçou a cintura de Marina. Ela se ajoelhou para retribuir o gesto. Sofia juntou-se aos dois, e por alguns segundos o salão de serviço pareceu o lugar mais acolhedor da mansão.

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Dante observou a cena com uma dor inesperada. Desde a morte de Beatriz, tentara preservar uma aparência de normalidade. Contratara especialistas, enchera a casa de brinquedos e planejara um novo casamento. Ainda assim, o filho encontrara conforto nos braços de uma mulher que quase fora mandada embora.

Naquela noite, Marina encontrou Dante na cozinha, procurando uma caneca. Ele parecia perdido entre armários que nunca precisara abrir.

— O senhor quer chá? — perguntou.

— Quero aprender onde fica o chá.

Ela sorriu pela primeira vez sem cautela. Mostrou a gaveta, a chaleira e o pote de erva-doce. Dante preparou duas xícaras, desajeitado. Conversaram sobre o medo de falhar como pais.

Marina contou que às vezes trabalhava até tarde e ainda se perguntava se fazia o suficiente por Sofia. Dante confessou que confundira presença com provisão.

— Lucas sorriu hoje — disse ele. — Fazia tempo que eu não o via assim.

— Criança precisa sentir que pode ser criança.

Dante ficou olhando para ela um instante além do necessário. Marina baixou os olhos, percebendo a proximidade. Nenhum dos dois se moveu. Ainda havia uma noiva, uma investigação e duas crianças precisando de segurança.

O telefone de Dante vibrou sobre a bancada.

Henrique falava depressa. A auditoria preliminar encontrara solicitações de alteração associadas ao acesso administrativo de Verônica, além de contatos diretos dela com integrantes da equipe responsável pelos agendamentos. Era preciso verificar autoria, contexto e eventual participação de terceiros.

— Há documentos suficientes para aprofundar a investigação — disse o advogado. — E encontrei um nome repetido em registros de pagamentos ligados a essas solicitações.

— Quem?

— Marcelo Ferraz.

Dante olhou para a porta fechada da cozinha. Pela primeira vez, compreendeu que o problema talvez não estivesse limitado à mulher com quem pretendia se casar. Podia alcançar o coração de sua empresa — e, pior, a vida de seu filho.

A FILHA DA EMPREGADA MANDOU O MILIONÁRIO OLHAR DEBAIXO DA MESA… E SUA NOIVA ENTROU EM PÂNICO!

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