"O Segredo Debaixo da Mesa" Capítulo 2 — A Noiva Que Quis Calar a Menina
— Que alteração? — Dante perguntou, sem reconhecer a própria voz.
O médico hesitou. Explicou que não poderia concluir nada por telefone, sem examinar o frasco e os registros originais, mas confirmou que a descrição informada por Dante não correspondia à orientação mais recente de sua equipe.
Pediu que o menino fosse avaliado e que nenhum medicamento de procedência duvidosa fosse administrado.
Dante encerrou a ligação olhando para Lucas.
— Vicente, chame o carro. Henrique, venha à mansão e preserve tudo o que foi encontrado.
Verônica atravessou o salão antes que alguém se movesse.
— Você está transformando uma confusão numa acusação absurda! Eu cuidei desse menino quando você passava noites trabalhando!
— Então vai querer esclarecer o que aconteceu — respondeu Dante.
— Primeiro, quero essa mulher fora da minha casa.
Ela apontou para Marina. Os convidados fingiam não ouvir, mas ninguém se afastava. A humilhação pública era justamente o que Verônica desejava: fazer a empregada parecer culpada antes que qualquer prova fosse examinada.
— Marina apareceu aqui há poucas semanas. Trouxe uma criança sem autorização e agora surge um objeto escondido exatamente onde a menina manda procurar. Não percebe a encenação?
Marina sentiu o rosto queimar. Precisava daquele salário para pagar o aluguel em Vila Mariana e ajudar a mãe, Rosa, que vivia com uma aposentadoria pequena. Mas não suportaria ouvir sua filha ser chamada de mentirosa.
— Minha filha não sabe inventar uma coisa dessas, dona Verônica.
— Ah, claro. Uma santa de três anos que resolveu salvar o milionário! Quanto você espera receber?
— Não quero um centavo seu.
— Mentirosa!
Verônica avançou e estendeu a mão na direção de Sofia, que se escondia atrás das pernas da mãe. Dante segurou seu pulso antes que ela alcançasse a menina.
— Tire as mãos da menina.
O tom baixo foi mais assustador do que um grito. Verônica encarou o noivo, incrédula.
— Você vai me impedir de corrigir uma criança insolente?
— Não é sua filha. E ninguém vai encostar nela.
Marina colocou Sofia no colo. A pequena tremia e apertava Bolota contra o peito.
— Eu só contei, mamãe — murmurou.
— Eu sei, meu amor. Você fez a coisa certa.
Dante pediu que os convidados se retirassem. A festa terminara. Alguns saíram apressados; outros trocaram olhares que prometiam transformar aquela noite no assunto mais comentado dos Jardins.
Verônica parecia calcular o tamanho do escândalo. Marcelo Ferraz, parado perto da porta, não demonstrava surpresa. Apenas digitava no celular com rapidez.
Henrique Sampaio chegou quarenta minutos depois. Fotografou o local, anotou quem havia tocado no saco e orientou Vicente a conservar as gravações originais da segurança.
Os objetos foram guardados para entrega aos profissionais responsáveis pela análise. Ele advertiu Dante de que suspeitas, por mais graves que fossem, precisavam de verificação independente.
— Não vou acusar ninguém sem provas — disse Dante. — Mas também não vou ignorar meu filho.
Lucas estava sentado no sofá, encostado em Marina. Sofia havia adormecido com a cabeça no ombro da mãe. Dante se aproximou e se ajoelhou diante do menino.
— Filho, você tem medo daquele frasco?
Lucas olhou para a porta por onde Verônica saíra.
— Não quero falar.
— Tudo bem. Você não precisa agora.
— Ela vai ficar brava?
Dante engoliu em seco.
— Ninguém vai brigar com você por contar o que sente.
Lucas abaixou a cabeça. Dante desejou abraçá-lo, mas percebeu que o filho estava exausto. Pediu a Vicente que preparasse o carro para levá-lo ao hospital, onde poderiam avaliar sua condição com calma.
Verônica voltou usando um casaco branco e uma expressão cuidadosamente triste.
— Eu vou com vocês. Lucas precisa de mim.
O menino se encolheu.
Dante viu. Pela primeira vez, não procurou uma explicação confortável.
— Hoje não, Verônica.
— Sou praticamente a mãe dele!
— A mãe dele se chamava Beatriz.
O nome da falecida esposa caiu entre os dois como uma porta se fechando. Verônica empalideceu.
Dante raramente falava de Beatriz, morta três anos antes numa estrada molhada, quando Lucas ainda era pequeno. Ele passara tanto tempo tentando fugir da lembrança que quase deixara outras pessoas decidirem o que era melhor para o filho.
Marina ofereceu levar Sofia para casa. Dante pediu que aguardasse até Henrique registrar seu relato, sem pressionar a menina.
A mãe contou apenas o que Sofia dissera espontaneamente e indicou onde estivera durante o evento. Henrique prometeu que qualquer conversa futura com a criança seria conduzida de maneira apropriada, sem perguntas sugestivas.
— Eu não quero colocar minha filha no meio disso — disse Marina.
— Nem eu — respondeu Dante. — E sinto muito pelo que aconteceu na minha casa.
Era a primeira vez que um patrão lhe pedia desculpas. Marina não soube responder.
No hospital do Morumbi, Lucas foi examinado. Os primeiros resultados não permitiam apontar uma causa única para sua fraqueza. O pediatra pediu observação, revisão das prescrições e uma avaliação detalhada do histórico de medicamentos. Dante permaneceu ao lado da cama, segurando a mão do filho.
— Papai, eu fiz alguma coisa errada?
— Não. Nada disso foi culpa sua.
— A Sofia também não fez.
— Eu sei.
Lucas pareceu relaxar. Dormiu antes da meia-noite.
Marina voltou para casa com Sofia adormecida no ônibus. As luzes da cidade passavam pelas janelas, indiferentes ao que acontecera.
No apartamento pequeno, ela deitou a filha, conferiu se a porta estava trancada e ficou olhando o uniforme pendurado atrás da cadeira. Se perdesse o emprego, não sabia como pagaria as contas.
Ainda assim, quando Sofia murmurou o nome de Lucas durante o sono, Marina teve certeza de que não poderia fingir que nada acontecera.
Na mansão, Verônica entrou no escritório de Marcelo sem bater. Ele havia voltado discretamente depois que os convidados saíram.
— Você disse que ninguém encontraria o saco! — ela disparou.
— Fale baixo.
— Uma menina viu tudo!
Marcelo fechou a porta.
— O problema não é a menina. É o que Dante pode descobrir se examinar os registros.
— Então apague tudo.
— Não funciona assim. Existem cópias fora da mansão.
Verônica se aproximou, furiosa.
— Você me garantiu que o casamento resolveria tudo.
Marcelo sustentou seu olhar.
— E vai resolver, se você parar de entrar em pânico.
Antes de seguir para o hospital, Dante ordenara também que os funcionários fossem tratados com respeito.
A governanta explicou que Marina avisara sobre Sofia antes da festa e recebera permissão para mantê-la na sala de serviço.
A informação desmontava uma das acusações de Verônica, mas Dante não sentiu satisfação.
Cada detalhe revelava como fora fácil permitir que uma pessoa poderosa transformasse uma trabalhadora em alvo. Pediu desculpas à governanta por não ter perguntado antes. Ela, surpresa, respondeu que na mansão as pessoas costumavam obedecer primeiro e falar depois.
Dante passou o resto da viagem pensando nessa frase. Se todos tinham medo de falar, quantas coisas sobre Lucas jamais haviam chegado aos seus ouvidos?
Naquela madrugada, Dante recebeu uma ligação do hospital. Lucas acordara com náusea, tontura e uma fraqueza repentina. A equipe já o atendia. Dante correu pelo corredor antes de ouvir o restante da explicação.
Encontrou o filho cercado por profissionais, assustado, mas consciente. Esperou até que o médico pudesse conversar com ele.
— Senhor Montenegro, precisamos investigar se os sintomas têm relação com alguma exposição medicamentosa recente — explicou o pediatra. — Ainda não podemos afirmar a causa.
Dante apertou o telefone na mão. Então uma mensagem de número desconhecido apareceu na tela:
“Se continuar fazendo perguntas, seu filho vai pagar o preço.”
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