"O Segredo Debaixo da Mesa" Capítulo 1 — O Segredo Debaixo da Mesa
— Moço… olha embaixo da mesa.
A voz pequena atravessou o salão como uma taça quebrando no mármore. Dante Montenegro interrompeu a assinatura que estava prestes a colocar no documento diante dele. A menina de vestido azul-marinho, pouco mais alta que a borda da mesa, segurava um coelho de pelúcia pela orelha.
— O que você disse, pequena?
Sofia Oliveira apontou para a toalha branca que chegava ao chão.
— A moça escondeu o remédio do Lucas ali.
Verônica Albuquerque ficou imóvel. Um segundo antes, sorria para os investidores reunidos na mansão de Jardim Europa. Agora seus dedos apertavam tanto a haste da taça que as juntas perderam a cor.
— Dante, não dê atenção a essa criança — disse, soltando uma risada aguda. — Ela deve ter confundido alguma coisa.
Mas Dante não estava olhando para Sofia. Estava olhando para a noiva.
Aquela noite deveria celebrar o novo acordo do Grupo Montenegro. Lustres de cristal iluminavam arranjos de orquídeas, garçons circulavam com bandejas de prata e homens acostumados a decidir o destino de empresas brindavam ao futuro.
Na cabeceira da mesa, Dante vestia um smoking preto impecável. Ao seu lado, Verônica exibia um vestido champanhe e um anel que custara mais do que muitos apartamentos de São Paulo.
Tudo parecia perfeito. Menos Lucas.
O menino de cinco anos permanecia numa poltrona perto da janela, com um prato intocado no colo. Tinha os olhos cansados e os ombros encolhidos.
Dante já lhe perguntara duas vezes se queria ir descansar. Lucas respondera apenas que estava bem. Ultimamente, era sempre assim: dias de fraqueza, consultas, exames e explicações que nunca pareciam definitivas.
Marina Oliveira observava o garoto enquanto recolhia pratos. Era seu primeiro mês trabalhando na mansão, e já aprendera que ninguém deveria comentar os assuntos da família. Mesmo assim, doía ver uma criança tão quieta numa casa cheia de gente.
Naquela tarde, a vizinha que costumava cuidar de Sofia ficara doente. Marina pedira autorização à governanta para deixar a filha numa sala de serviço durante o evento. Trouxera lápis de cor, um sanduíche e o coelho de pelúcia gasto que a menina chamava de Bolota.
Só que Sofia encontrara Lucas no corredor antes de o jantar começar.
— Você quer brincar? — perguntara ela.
— Não posso correr — respondera o menino.
— Então a gente brinca sentado.
Ela colocara Bolota nas mãos dele como se entregasse um tesouro. Lucas sorrira de um jeito tão discreto que Marina quase não percebeu. Pela primeira vez naquela noite, o menino parecera ter cinco anos, e não carregar o peso de uma doença que ninguém explicava direito.
Verônica percebera a aproximação e não gostara.
— Marina, sua filha não foi convidada. Não transforme minha festa numa creche.
— Desculpe, dona Verônica. Ela já vai voltar para a sala.
— E mantenha essa menina longe de Lucas. Ele precisa de tranquilidade.
Marina pegara Sofia pela mão. Antes de sair, porém, a menina vira Verônica se afastar com Marcelo Ferraz, diretor financeiro do grupo. Os dois conversaram atrás de uma coluna. Marcelo entregou algo pequeno à noiva. Ela olhou ao redor, abaixou-se junto à mesa principal e empurrou um saquinho escuro para debaixo da toalha.
Sofia não entendeu por que uma adulta esconderia alguma coisa no chão. Entendeu apenas uma palavra dita em voz baixa: Lucas.
Agora, diante de todos, apontava para o mesmo lugar.
— Mamãe falou que remédio não é brinquedo — explicou. — E ela escondeu.
— Marina! — Verônica chamou, com a voz cortante. — Tire sua filha daqui imediatamente.
Marina surgiu entre os garçons, assustada ao ver Sofia ao lado do anfitrião.
— Sofia, meu amor, vem com a mamãe.
— Mas eu vi, mamãe.
Dante ergueu a mão, pedindo silêncio. Não havia gritado. Mesmo assim, as conversas cessaram. Ele se abaixou diante da menina.
— Você viu alguém colocar alguma coisa aqui?
Sofia assentiu e apontou para Verônica.
— Ela. A moça brilhante.
Um murmúrio percorreu o salão. Verônica tentou sorrir, mas o rosto não obedeceu.
— Isso é ridículo. Vai acreditar numa criança que nem deveria estar aqui?
Dante se endireitou.
— Se não há nada, não há motivo para preocupação.
Ele segurou a ponta da toalha.
— Leonardo… — começou uma convidada, sem perceber que chamava pelo nome de outro empresário. Ninguém lhe deu atenção.
Verônica deu um passo brusco.
— Dante, espera!
Tarde demais.
Debaixo da mesa havia um pequeno saco de veludo preto, preso atrás de um dos pés com uma fita. Dante o soltou. Dentro encontrou uma seringa ainda embalada, um frasco de medicamento infantil e um pedaço rasgado de papel timbrado de uma clínica particular.
No rótulo do frasco, uma palavra lhe tirou o ar: LUCAS MONTENEGRO.
Dante conhecia os remédios do filho. Havia aprendido a ler nomes difíceis, a reconhecer horários e a guardar cada receita. O nome impresso naquele frasco não correspondia à medicação que lhe tinham mostrado naquela semana.
— O que é isso, Verônica?
— Eu não sei! — respondeu ela depressa demais. — Essa empregada armou tudo!
Marina recuou, como se tivesse recebido um tapa.
— Eu nunca vi esse saco na minha vida.
— Você trouxe sua filha escondida para a festa. Queria dinheiro, não queria? — Verônica avançou. — Sabia que Dante faria qualquer coisa pelo filho!
Sofia apertou o vestido da mãe.
— Mamãe não fez nada.
Dante fechou o saco sem tocar diretamente nos objetos e o entregou a Vicente Galvão, chefe da segurança.
— Isole essa mesa. Ninguém mexe em mais nada. Henrique precisa vir agora.
— Dante, você está me humilhando na frente de todos — sussurrou Verônica.
Ele olhou para o filho, ainda sentado perto da janela. Lucas observava o frasco com uma expressão que Dante nunca esqueceria: medo, não surpresa.
— Então me diga por que o nome do meu filho está num medicamento escondido durante a minha festa.
Verônica abriu a boca, mas nenhuma resposta saiu.
Lucas desceu da poltrona e caminhou até Marina. Não procurou a noiva do pai. Segurou a mão de Sofia.
— Eu não quero tomar aquilo — disse baixinho.
Dante sentiu o mundo perder o equilíbrio.
— Aquilo o quê, filho?
Lucas ergueu os olhos. Antes que respondesse, Verônica derrubou a taça no chão.
O cristal se espalhou pelo mármore. Todos se viraram para ela. E, naquele instante, Dante percebeu que a mulher com quem pretendia se casar estava mais preocupada com um frasco escondido do que com o menino que dizia amar.
Antes da ligação, Marina ainda encontrou Sofia junto à porta do salão. A menina perguntava se tinha estragado a festa.
Marina ajoelhou-se, ajeitou a fita solta do vestido e explicou que dizer a verdade não era estragar nada. Sofia olhou para os convidados que se afastavam e quis saber por que os adultos pareciam zangados.
Marina não encontrou resposta fácil. Disse apenas que, às vezes, gente grande ficava assustada quando alguma coisa importante aparecia de surpresa.
Sofia abraçou Bolota e perguntou se Lucas também estava assustado. Marina olhou para o menino, tão quieto ao lado do pai, e respondeu que sim. Aquela resposta doeu mais do que qualquer insulto de Verônica.
Ele chamou o médico de Lucas pelo telefone. Pediu que verificasse o nome do produto e a origem da prescrição. Do outro lado da linha, depois de um silêncio desconfortável, o médico fez uma pergunta inesperada:
— Senhor Montenegro… quem autorizou essa alteração no tratamento do seu filho?
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