"Sob a Proteção do Mafioso" Capítulo 5 — O Beijo Que Não Deveria Acontecer
Depois do beijo, Marina ficou algum tempo sozinha no jardim, tentando organizar os pensamentos. Não era uma adolescente encantada por uma festa. Conhecia o peso do trabalho, as contas da casa e o risco de ser vista como mais uma mulher que se aproximara de Dante por interesse.
Sabia também que havia gostado de beijá-lo. As duas verdades podiam existir juntas. Voltou ao salão, recolheu a bolsa e pediu um carro por aplicativo. Dante ofereceu acompanhá-la, mas ela preferiu ir sozinha. Ele aceitou sem insistir.
No caminho, recebeu uma mensagem simples: “Chegou bem?” Marina respondeu quando entrou em casa. Tereza ainda estava acordada, lendo uma revista antiga.
A filha sentou ao lado dela e contou sobre a dança, mas não sobre a fotografia tirada por Verônica, que desconhecia.
Tereza ouviu, sorriu e perguntou se Dante sabia pedir desculpas.
Marina pensou na maneira como ele tratara os empregados depois do incidente do bracelete.
“Está aprendendo”, respondeu. A mãe fechou a revista. “Então não pare de prestar atenção.”
Antes do jantar beneficente, Marina foi visitar Tereza. Encontrou a mãe costurando a barra de um vestido antigo, transformando uma peça esquecida em roupa de festa.
Tereza insistiu para que a filha o experimentasse.
O tecido azul-marinho caía bem, e Marina girou diante do espelho rachado como fazia quando criança.
Por alguns minutos, não existiram Ricardo, Verônica ou documentos secretos. Existiram duas mulheres numa casa pequena, rindo porque a costura de um lado ficara mais curta que a do outro.
— Você está gostando dele — disse Tereza, sem precisar ouvir o nome.
Marina sentou na beirada da cama.
— Isso me assusta.
— Gostar de alguém não obriga você a se diminuir. O amor que exige silêncio não é amor.
A filha guardou a frase. Mais tarde, quando Verônica a insultou diante das convidadas, lembrou-se da mãe alinhavando o vestido sob a luz fraca. Não precisava provar que pertencia àquele salão. Pertencia a si mesma.
Durante a dança, Dante contou que a última vez em que dançara sem pensar nos negócios fora com Beatriz, numa festa escolar.
Marina perguntou se ele lembrava da música. Ele tentou cantarolar e errou o ritmo de maneira tão absurda que ela começou a rir.
Dante riu também, surpreso com o som. Foi esse pequeno instante, mais do que o luxo ao redor, que fez Marina sentir vontade de ficar.
A felicidade podia ser tão simples quanto um homem poderoso admitir que não sabia dançar direito.
Dante passou a manhã examinando a assinatura impossível. Beatriz morrera num incêndio, segundo a versão oficial, mas alguém continuara usando seu nome para movimentar empresas e abrir portas fechadas.
Henrique aconselhou cautela. Ricardo tinha advogados, influência e amigos dispostos a jurar que o céu era verde se ele pagasse o suficiente.
Na cozinha, Marina ajudava Rosa a descascar laranjas. A idosa insistia em fazer alguma coisa com as mãos.
— Dante sempre fica mais frio quando está com medo — comentou Rosa.
— Ele parece não ter medo de nada.
— Você ainda não conhece o menino que havia por trás daquele terno.
Marina tentou esconder um sorriso. Rosa percebeu.
— Não confunda o homem com o poder dele, minha filha. Se gostar dele, goste do que ele faz quando não tem plateia.
Nos dias seguintes, Dante fez pequenas coisas que ninguém lhe pedira. Pediu ao cozinheiro que reservasse café sem açúcar para Marina, depois de vê-la deixar duas xícaras pela metade.
Ajustou a escala de trabalho para que ela pudesse levar Tereza a uma consulta. Quando soube do custo dos medicamentos, ofereceu o contato de um serviço social, sem tentar pagar tudo às escondidas.
Marina aceitou a informação, não o controle. Gostava cada vez mais da companhia dele, e isso a assustava. Um homem como Dante podia abrir portas com um telefonema. Ela precisava saber se ele também saberia ouvir um não.
Verônica notou a mudança. Anunciou um jantar beneficente num salão elegante dos Jardins e insistiu que Marina ajudasse a servir os convidados.
Rosa se opôs, mas Marina preferiu ir: queria observar Verônica longe da mansão, onde os aliados dela se sentiam seguros.
Na noite do evento, os lustres lançavam reflexos sobre taças altas. Marina usava uniforme preto e branco; Verônica, um vestido vermelho que parecia escolhido para provocar incêndios.
— A acompanhante da velhinha também serve bebidas? — perguntou uma convidada.
— Quando precisa — respondeu Marina, oferecendo a bandeja.
Verônica aproximou-se com duas amigas.
— Cuidado com os copos. Não queremos outra tragédia. Uma garçonete nunca vai se tornar a senhora Montenegro, por mais que se esforce.
Marina respirou fundo.
— Não preciso do sobrenome de ninguém para ter dignidade.
Uma das amigas desviou os olhos. Verônica ergueu o queixo, pronta para responder, mas a música mudou e Dante surgiu ao lado delas.
— Marina, dança comigo?
Ela olhou para a bandeja.
— Estou trabalhando.
— Sua escala terminou há dez minutos. Confirmei com a equipe. Se não quiser, tudo bem.
A escolha, feita diante de tanta gente, desarmou Marina. Ela entregou a bandeja ao responsável pelo salão e aceitou a mão estendida.
No centro da pista, Dante manteve distância suficiente para que ela se sentisse à vontade. Marina percebeu que ele não dançava para desafiar Verônica; dançava porque queria estar ali.
— Você faz ideia de quantas pessoas estão olhando? — perguntou.
— Mais do que eu gostaria.
— Então por que me chamou?
— Porque passei anos escolhendo o que era conveniente. Hoje queria escolher o que é verdadeiro.
Marina abaixou os olhos. A mão dele era quente, firme, sem apertar demais.
— Sua noiva não parece concordar.
— Verônica e eu precisamos encerrar um acordo que nunca deveria ter sido confundido com amor. Vou fazer isso de maneira clara, não às suas custas.
— Faça por você — respondeu Marina. — Não quero ser desculpa para uma guerra.
Dante assentiu. Era uma resposta que não esperava, e justamente por isso a respeitava.
Depois da dança, Marina saiu para o jardim. A noite cheirava a terra molhada; a chuva ameaçava cair sobre as árvores iluminadas. Dante apareceu na varanda, mas só se aproximou quando ela o chamou.
— Dona Rosa me contou que você tinha pesadelos — disse Marina.
— Ainda tenho.
— E o que faz quando acorda?
— Trabalho. Dou ordens. Finjo que não aconteceu.
— Talvez esteja na hora de tentar outra coisa.
Dante riu baixinho, sem alegria. Ela tocou a mão dele.
— Você não precisa me contar tudo hoje.
— É estranho — confessou. — Perto de você, não sinto vontade de parecer invencível.
Marina ergueu o rosto. O beijo aconteceu devagar, depois de um instante em que ambos tiveram tempo para recuar. Dante tocou sua face como se temesse quebrar uma coisa preciosa. Quando se afastaram, ela estava sorrindo e assustada ao mesmo tempo.
— Isso complica tudo — sussurrou.
— Eu sei.
— Não me prometa um futuro que ainda não sabe construir.
— Então prometo só uma coisa: não vou mentir sobre o que sinto.
No andar de cima, atrás de uma cortina, Verônica fotografou o beijo. Não chorou. Enviou a imagem ao pai, com uma mensagem curta:
“Chegou a hora de destruir aquela garçonete.”
Ricardo respondeu quase imediatamente:
“Primeiro, descubra onde a velha escondeu a chave.”
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