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"Sob a Proteção do Mafioso" Capítulo 3 — A Empregada Que Entrou na Mansão Montenegro

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Na hora de desfazer a mala, Marina colocou a fotografia de Tereza sobre a cômoda. O quarto oferecido pela mansão era maior que a sala de sua casa, com lençóis macios e uma varanda voltada para as árvores.

Mesmo assim, sentiu falta do ruído dos ônibus passando na rua. Ligou para a mãe e descreveu o lugar sem exagerar a beleza. Tereza quis saber se havia janela que abrisse e se a filha tinha a chave da porta.

Marina testou as duas coisas antes de responder. Depois escreveu no caderno os horários de Rosa e o nome de cada funcionário. Era sua maneira de transformar um ambiente estranho num lugar onde pudesse trabalhar sem se perder.

No jantar, Dante percebeu que Marina não tocara na sobremesa. Ela explicou que Rosa estava cansada e precisava tomar um remédio com alimento. Em vez de chamar um empregado, Dante foi buscar uma tigela de frutas na cozinha.

Verônica observou o gesto como se tivesse assistido a uma afronta pública. Marina entendeu então que a rivalidade não nascera de um beijo nem de uma promessa amorosa. Nascera no momento em que Dante começara a prestar atenção em necessidades que Verônica jamais considerara importantes.

Na primeira manhã, a governanta da mansão, Célia, mostrou a Marina onde ficavam os remédios, os telefones de emergência e os horários de consulta.

Não a tratou com desprezo, mas avisou que a casa tinha regras não escritas: empregados não circulavam na ala social durante reuniões e ninguém fazia perguntas sobre os visitantes de Dante.

Marina pediu que as regras relativas a Rosa fossem registradas, para evitar confusões. Célia ergueu as sobrancelhas, depois lhe entregou um caderno. Em menos de uma hora, as duas haviam organizado uma rotina melhor do que a anterior.

Dona Rosa se divertiu com a eficiência da nova acompanhante. Insistiu em ensinar a ela uma receita de bolo de fubá e se recusou a comer sozinha.

Durante o lanche, perguntou sobre Tereza. Marina falou da costura, da teimosia da mãe e de como as duas inventavam nomes engraçados para os vizinhos barulhentos. Rosa escutou com interesse verdadeiro.

Quando Dante passou pela porta, encontrou as duas rindo de uma história sobre um papagaio que aprendera a imitar o alarme de um carro.

— O que houve aqui? — perguntou.

— Vida normal — respondeu Rosa. — Experimente um dia.

Dante permaneceu alguns segundos, desconcertado. Marina percebeu que, naquela casa imensa, o riso parecia visitante raro. E também percebeu que Verônica, parada no fim do corredor, assistia à cena como quem encontra uma invasora em território proibido.

O silêncio que se seguiu à acusação pareceu absorver todos os ruídos da mansão. Dante encarou a fotografia; Ricardo Albuquerque ainda sorria nela, eternamente jovem, como se nada pudesse alcançá-lo.

— Tem certeza? — perguntou.

Rosa recuou.

— Não me peça para contar tudo agora. Passei vinte anos tentando encontrar coragem.

Dante quis insistir, mas Marina o interrompeu com um olhar. A idosa estava pálida e respirava depressa. Ela a levou até um sofá, pediu água e esperou que o tremor das mãos diminuísse.

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— A senhora não precisa provar nada hoje — disse Marina.

Dante afastou-se até a janela. Estava acostumado a resolver problemas com uma ordem, um telefonema, um acordo imposto a alguém. Diante da mulher que o criara por alguns anos, não havia ordem capaz de recuperar o tempo perdido.

Henrique chegou naquela tarde. Leu o contrato de trabalho com Marina em uma sala separada, respondeu às perguntas e aceitou retirar uma cláusula que permitiria alterar seus horários sem aviso. Ela assinou somente depois disso. Ficaria no quarto próximo ao de Rosa durante a semana e teria dias livres para visitar Tereza.

— Você é a primeira pessoa que pede para mudar esse contrato — comentou o advogado.

— Então os outros deveriam ter pedido também.

Na hora do jantar, Marina conheceu a verdadeira dona da casa, ou pelo menos a mulher que se comportava como tal. Verônica Albuquerque apareceu envolta num perfume caro, usando um conjunto vermelho e saltos que batiam no mármore como pequenos avisos.

— Dante, amor, não sabia que teríamos visitas.

Ela beijou o ar perto do rosto dele e examinou Marina dos sapatos simples até o cabelo preso.

— Esta é a nova acompanhante de dona Rosa — explicou Dante.

— Ah. Pensei que fosse uma convidada. Hoje em dia ninguém sabe mais distinguir.

Marina não respondeu. Rosa apertou sua mão debaixo da mesa.

Verônica era filha de Ricardo. Seu casamento com Dante havia sido anunciado pela imprensa de negócios meses antes, embora nenhum dos dois parecesse feliz ao mencionar o assunto.

Dante explicou, quando ficaram a sós, que se tratava de um compromisso construído em torno de empresas e alianças antigas. Marina considerou a explicação insuficiente e mudou de assunto. Não queria ser colocada no meio da vida sentimental de seu empregador.

No dia seguinte, ela acompanhou Rosa pelo jardim. A idosa apontou um banco sob uma jabuticabeira e contou que Beatriz gostava de sentar ali para ler cartas. Pela primeira vez, sorriu sem esforço.

— Você me lembra ela — disse a Marina.

— Pela teimosia?

— Pela maneira como enxerga gente onde os outros só enxergam serviço.

Marina ia responder quando Verônica surgiu na varanda com uma taça de vinho. Chamou-a para perto e estendeu uma bandeja vazia.

— Leve isso para a cozinha.

— Posso pedir à equipe da casa. Estou acompanhando dona Rosa.

— Não complique uma tarefa tão simples.

Verônica moveu o braço com uma precisão que não parecia acidente. O vinho escuro caiu sobre a blusa branca de Marina, manchando o tecido do ombro até a cintura.

— Que desastre! — exclamou Verônica. — E ainda por cima você derramou na minha mão.

Marina olhou a taça, depois o rosto satisfeito da mulher.

— A senhora inclinou o copo.

— Está me chamando de mentirosa?

— Estou dizendo o que aconteceu.

Verônica apontou para o chão molhado.

— Então limpe.

Marina se abaixou para recolher os cacos de uma pequena taça que havia caído, mas uma voz a deteve.

— Não toque no vidro.

Dante estava na porta. Tirou um lenço do bolso e o entregou a Marina, depois chamou um funcionário para limpar o piso com segurança.

— Ela pode se cortar — disse, encarando Verônica.

— Você está me dando uma lição por causa de uma empregada?

— Estou dizendo que ninguém aqui merece ser humilhado.

Verônica se aproximou dele, furiosa.

— Você está esquecendo com quem vai se casar.

— Talvez seja justamente disso que eu esteja me lembrando.

Marina retirou-se antes que a discussão piorasse. No quarto, lavou a blusa e tentou não pensar no modo como Dante olhara para ela. Não queria confundir uma atitude decente com promessa de amor.

Mais tarde, ao buscar água para Rosa, ouviu Verônica falando ao telefone no corredor de serviço.

— Ela reconheceu a fotografia, pai. Eu vi. Se a velha ainda tiver aquilo, precisamos encontrá-lo antes do Dante.

Marina ficou imóvel até os passos se afastarem. Não sabia o que era “aquilo”, mas sabia que a ameaça não terminara vinte anos antes.

Ao voltar ao quarto, encontrou um envelope debaixo da porta. Dentro havia uma cópia antiga da fotografia de Beatriz com Rosa e um bebê no colo. No verso, escrito com tinta azul já desbotada, alguém deixara uma frase:

“ELA SABE QUEM DEU A ORDEM.”

Marina ergueu os olhos para o corredor vazio. Alguém na mansão queria que ela descobrisse a verdade. Ou queria que fosse a próxima pessoa a desaparecer.

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