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"Sob a Proteção do Mafioso" Capítulo 2 — A Mulher Que o Mafioso Chamava de Mãe

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Antes de sair do apartamento de Rosa, Marina pediu licença para usar o banheiro e encontrou, no corredor, uma parede coberta por calendários antigos. Cada ano tinha datas circuladas a lápis.

O dia do aniversário de Dante aparecia em todos, mesmo nos anos em que a idosa acreditava que nunca mais o veria.

Na cozinha, uma lata de biscoitos guardava cartões de aniversário sem destinatário. Alguns continham apenas duas linhas: “Espero que esteja comendo direito. Espero que tenha alguém para abraçá-lo.” Marina fechou a tampa com cuidado. Entendeu que desaparecer não significava esquecer.

No trajeto até a Vila Mariana, Vicente comentou que conhecia Dante desde jovem. Não ofereceu histórias de violência nem tentou impressioná-la. Disse apenas que o patrão tinha dificuldade de confiar e que havia passado muito tempo confundindo obediência com lealdade.

Marina respondeu que não pretendia ser mais uma pessoa obrigada a concordar com ele. Vicente olhou pelo retrovisor e assentiu, como se aquela fosse a resposta que esperava.

Em casa, Tereza examinou o cartão de Henrique sob a luz da cozinha. Quis saber se o contrato incluía contribuição previdenciária, descanso semanal e transporte. Marina riu: a mãe podia estar cansada, mas não perdia a atenção aos detalhes.

As duas fizeram contas num caderno escolar. Pela primeira vez em meses, os números não terminavam num saldo negativo.

Ainda assim, Marina deixou uma linha em branco no fim da página: “O que esse trabalho vai custar além do salário?” Ela não tinha resposta. Guardou o caderno para lembrar de continuar perguntando.

Dante não percebeu que o restaurante inteiro o observava. Vinte anos haviam passado desde a última vez em que vira aqueles olhos castanhos e a maneira como dona Rosa inclinava a cabeça para escutar. Ela lhe dera sopa quando ele era uma criança que não conseguia dormir; agora estava sentada diante de uma conta de R$ 12,40, pedindo desculpas por existir.

— Levante, menino — pediu a idosa. — O chão está frio.

Ele obedeceu apenas depois de beijar a mão dela.

— Vamos conversar em algum lugar tranquilo.

— Não quero causar mais problemas à moça — respondeu Rosa, olhando para Marina.

Dante se voltou para Marcelo.

— O pagamento foi feito. Devolva os vinte reais e o troco correto. Depois, peça desculpas olhando para ela.

O gerente remexeu no caixa. Sua mão tremia tanto que deixou cair duas moedas. Devolveu o dinheiro a Marina e murmurou uma desculpa. Ela guardou as notas sem agradecer. Não aceitaria uma encenação de arrependimento como substituto do emprego perdido.

— Minha rescisão deve ser paga no prazo legal — avisou. — E quero tudo por escrito.

Dante quase sorriu. Havia visto muita gente negociar diante dele. Poucas lembravam de exigir um documento.

Do lado de fora, o céu ameaçava chuva. Um carro preto aguardava na calçada. Dante ofereceu levar Rosa para casa; ela recusou duas vezes, até ele prometer que não tentaria decidir por ela.

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— Eu também vou — disse Marina. — A senhora está nervosa.

— Não precisa — respondeu Rosa.

— Preciso, sim. Quero saber se chegou bem.

Dante abriu a porta traseira do carro. Marina hesitou antes de entrar. O motorista, Vicente Galvão, manteve os olhos na rua e não fez perguntas.

A casa de dona Rosa ficava numa rua modesta da Aclimação, num prédio antigo de escadas estreitas. Ela morava num apartamento limpo, com plantas nas janelas e retratos amarelados sobre a estante. Dante reconheceu um deles imediatamente: sua mãe, Beatriz, sorrindo ao lado de Rosa numa cozinha ensolarada.

— Você guardou — disse.

— Algumas coisas a gente não consegue jogar fora.

Marina foi preparar chá, deixando os dois na sala. Ouviu apenas fragmentos: “a noite do incêndio”, “o hospital”, “uma ameaça”. Não quis escutar escondida. Quando voltou, encontrou Dante de pé diante da fotografia.

— Minha mãe dizia que você era a pessoa mais corajosa que conhecia — ele contou a Marina. — Quando eu tinha nove anos, fiquei três dias sem falar depois da morte dela. Dona Rosa sentava ao meu lado sem exigir uma palavra.

— E por que vocês perderam contato? — perguntou Marina.

Rosa apertou a xícara.

— Porque alguém me convenceu de que ele estaria mais seguro sem mim.

Dante tentou saber quem. A idosa desviou a resposta, assustada com um barulho no corredor. Marina notou que ela trancava a porta com duas fechaduras e mantinha uma cadeira encostada na janela da cozinha.

— A senhora está com medo de alguém? — perguntou.

— Estou velha. A gente passa a temer coisas bobas.

— Medo não é bobagem — respondeu Marina.

No caminho de volta, Dante pediu que Vicente investigasse discretamente a situação da senhora, mas proibiu qualquer abordagem que a assustasse. Depois voltou-se para Marina.

— Você perdeu o trabalho por causa dela. Quero compensar.

— Não quero uma recompensa.

— Não ofereci uma recompensa. Dona Rosa precisa de companhia, consultas, alguém que ela conheça. Você pode assumir esse trabalho, com contrato, folgas e salário justo.

Marina pensou em Tereza. A proposta poderia pagar os medicamentos sem que a mãe precisasse escolher entre uma consulta e a conta de luz. Ainda assim, desconfiava do preço invisível de aceitar favores.

— Se eu aceitar, trabalho para dona Rosa. Não para os seus caprichos.

— Combinado.

— E não vou morar em uma casa onde não posso sair quando quiser.

— Você terá suas próprias chaves.

Ela pediu um dia para decidir. Dante lhe entregou o cartão de Henrique Sampaio, seu advogado, para que lesse o contrato antes de assinar. O gesto surpreendeu Marina mais do que a oferta.

À noite, ela contou tudo à mãe, sentadas diante de um prato de arroz com feijão. Tereza ouviu em silêncio e depois segurou o recibo amassado que a filha havia guardado.

— Você fez o que seu pai teria feito — disse. — Mas não deixe homem rico nenhum convencer você de que gratidão é dívida.

Na manhã seguinte, Rosa telefonou. A voz parecia mais frágil.

— Marina, eu aceitei passar uns dias na casa do Dante. Você vem comigo? Não gosto de ficar sozinha lá.

Marina concordou em conhecer o lugar antes de decidir. A mansão Montenegro, no Jardim Europa, parecia saída de uma revista: muros altos, jardins impecáveis, portas de madeira trabalhada. Dante esperava na entrada, sem a gravata, como se tentasse parecer menos intimidador.

Rosa entrou apoiada no braço de Marina. No corredor principal, uma fotografia enorme mostrava Beatriz Montenegro ao lado de vários empresários numa festa de vinte e três anos antes.

A idosa parou tão bruscamente que Marina quase tropeçou.

— Dona Rosa? Está sentindo alguma coisa?

Rosa apontou para um homem na extremidade da fotografia: cabelos escuros, sorriso largo, a mão pousada no ombro de Beatriz.

Dante aproximou-se.

— É Ricardo Albuquerque. Foi sócio da minha mãe.

Rosa começou a chorar.

— Foi ele, Dante. O homem que mandou matar sua mãe está nesta fotografia.

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