"Sob a Proteção do Mafioso" Capítulo 1 — O Almoço de R$ 12,40
Antes que Dante se levantasse, Marina havia sentido o telefone vibrar duas vezes no bolso. Eram mensagens de Tereza. A primeira perguntava se ela conseguiria passar na farmácia antes do fechamento; a segunda dizia que não havia problema se estivesse cansada.
Marina conhecia bem aquele “não há problema”. Era a maneira que a mãe encontrara de esconder as próprias necessidades.
Tereza fora costureira por trinta anos e ainda guardava uma máquina antiga perto da janela, embora os dedos já não obedecessem como antes.
Toda manhã insistia em preparar café para a filha, mesmo quando as dores a obrigavam a se apoiar na pia. Marina lembrava disso enquanto Marcelo falava em disciplina e regras.
A história com dona Rosa também não começara naquele dia. Nas primeiras semanas de trabalho, Marina notara que a senhora sempre pedia o mesmo prato e dividia o pão ao meio, guardando uma parte para mais tarde.
Certa quinta-feira, o ar-condicionado quebrara e Rosa oferecera seu lenço a uma funcionária que chorava na cozinha. Noutra ocasião, passara meia hora ouvindo Lucas falar sobre a mãe doente.
Era uma cliente que tratava os empregados como pessoas, não como parte da mobília. Por isso, quando o gerente começou a gritar, Marina não enxergou uma conta pendente. Enxergou alguém que lhe ensinara gentileza sem nunca fazer discurso.
Ela sabia que seria julgada como imprudente. Talvez fosse. Mas também sabia o peso de voltar para casa lembrando que poderia ter ajudado e preferira desviar o rosto.
— Tire essa velha daqui antes que ela espante os clientes!
A ordem atravessou o salão do Jardim Imperial como um tapa. Marina Oliveira parou com uma bandeja de xícaras nas mãos. Perto da janela, dona Rosa Almeida tentava fechar a bolsa vazia, e os dedos enrugados tremiam tanto que o fecho não encaixava.
— Eu deixei a carteira no táxi — explicou a senhora, sem levantar os olhos. — Posso voltar amanhã. Venho aqui há tantos anos…
Marcelo Ferraz, gerente do restaurante, inclinou-se sobre a mesa.
— Aqui não é instituição de caridade. Se não tem dinheiro, não deveria entrar.
Uma mulher com colar de pérolas fingiu examinar o cardápio. Dois homens interromperam a conversa. Ninguém disse nada. Marina conhecia aquele silêncio: o mesmo que surgia quando um cliente rico estalava os dedos para chamar uma funcionária ou reclamava da gorjeta como se estivesse fazendo um favor.
Ela colocou a bandeja no aparador.
— Quanto ficou a conta?
— Não se meta, Marina — advertiu Marcelo.
— Perguntei quanto ficou.
A operadora do caixa respondeu quase num sussurro:
— Doze reais e quarenta centavos.
Marina abriu a carteira. Tinha uma nota de vinte, moedas, o bilhete do ônibus e um papel com a lista dos remédios de sua mãe. Aquele dinheiro não era sobra. Tereza Oliveira precisava renovar a receita, o aluguel da pequena casa na Vila Mariana venceria em nove dias e o freio do carro emprestado pelo vizinho fazia um ruído preocupante.
Mesmo assim, estendeu a nota.
— Pode descontar daqui.
Dona Rosa segurou o braço dela.
— Minha filha, não. Você trabalha demais por esse dinheiro.
— E a senhora merece terminar o almoço em paz.
O rosto da idosa se contraiu. Marina apertou de leve sua mão e sorriu, tentando diminuir o constrangimento.
— A senhora me paga contando de novo aquela história do cachorro que roubou o bolo de casamento.
Dona Rosa soltou uma risada molhada de lágrimas. Marcelo não riu.
— No meu escritório. Agora.
Marina sabia o que viria. Fazia dois anos que suportava turnos dobrados, comentários sobre seu cabelo preso às pressas e a obrigação de sorrir para homens que nunca aprendiam seu nome. Ainda assim, esperava uma advertência. Marcelo preferiu fazer um espetáculo.
— Funcionária nenhuma decide dar desconto ou pagar conta de cliente sem autorização! — gritou, alto o bastante para que o salão inteiro escutasse. — Você já criou problemas antes.
— Chamar uma ambulância para um diabético não foi criar problema.
— Não discuta comigo!
— Eu paguei com meu dinheiro. O restaurante recebeu cada centavo.
Marcelo apontou para o avental preto.
— Tire isso. Está demitida.
O mundo pareceu diminuir até caber naquela peça de tecido. Marina pensou em Tereza sentada à mesa da cozinha, partindo comprimidos ao meio para fazê-los durar. Pensou na farmácia, no aluguel, nas entrevistas em que perguntariam por que perdera o emprego. Por um segundo, sentiu vontade de implorar.
Mas dona Rosa estava olhando para ela, encolhida na cadeira, como se sua existência fosse a causa de tudo.
Marina desatou o avental.
— Se a regra é humilhar uma senhora por doze reais e quarenta centavos, não quero trabalhar aqui.
— Muito bonito — ironizou Marcelo. — Vamos ver se dignidade paga suas contas.
Lucas Ferreira, auxiliar de salão, aproximou-se discretamente da porta. Ao passar por Marina, colocou um guardanapo dobrado na mão dela. Havia um telefone escrito a caneta: o número da padaria de sua prima, que procurava alguém para o balcão.
— Você não está sozinha — murmurou.
Marina engoliu o choro. Foi quando notou o homem sentado na mesa mais afastada, junto à parede de madeira escura. Terno preto impecável, relógio de prata, uma tatuagem aparecendo sobre os nós dos dedos. Não havia tocado no café. Observava tudo com uma imobilidade perturbadora.
— Está gostando do espetáculo? — perguntou ela, exausta demais para ter medo.
O homem ergueu os olhos.
— Não.
— Então podia ter dito alguma coisa.
Marcelo empalideceu.
— Marina, cale a boca. Você não sabe com quem está falando.
O desconhecido pousou o guardanapo ao lado da xícara.
— Ela sabe exatamente com quem está falando. Com alguém que ficou sentado.
Ele se levantou. Uma cadeira arrastou no piso. Na porta, dois homens de terno se endireitaram, mas permaneceram onde estavam. A atmosfera mudou de maneira quase física.
— Senhor Montenegro… — balbuciou Marcelo.
Marina conhecia o sobrenome. Dante Montenegro era mencionado nos noticiários, nas conversas baixas dos motoristas, nas histórias que terminavam quando alguém se aproximava. O homem que ninguém contrariava em São Paulo estava a poucos passos dela.
Dante encarou o gerente.
— Devolva o dinheiro à funcionária. E peça desculpas à senhora.
Marcelo abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
— Não precisa me obedecer por medo — acrescentou Dante, gelado. — Precisa entender que estava errado.
Marina se virou para buscar sua bolsa. Não pretendia trocar um chefe autoritário por outro, mesmo que aquele fosse muito mais poderoso.
— Senhorita Oliveira — chamou Dante. — Espere.
— Meu emprego já acabou.
— Não estou falando do emprego.
Ele passou por ela e parou diante da mesa da janela. Dona Rosa mantinha as mãos sobre o colo. Ao vê-lo, perdeu a cor.
— Dante…
A voz saiu como uma lembrança que doía.
O homem que fazia empresários baixar os olhos ajoelhou-se ao lado da cadeira, sem se importar com os clientes que observavam.
— Dona Rosa? — A firmeza desapareceu de sua voz. — Disseram que a senhora tinha morrido.
Marina levou a mão à boca.
Dona Rosa tocou o rosto dele com os dedos trêmulos.
— Meu menino… eu tentei voltar.
Dante fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, havia uma pergunta neles que nenhum dinheiro poderia responder.
— Quem fez a senhora desaparecer da minha vida?
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