"A Sem-Teto Que Salvou o Mafioso" Capítulo 3 — O Homem Mais Perigoso de São Paulo
O primeiro disparo atingiu a fechadura.
Marina se jogou no chão. Dante a puxou para trás do banco de madeira, protegendo-lhe a cabeça com o próprio braço. A porta se abriu num estrondo.
Antes que os invasores avançassem, faróis brancos iluminaram a janela. Uma voz poderosa ecoou do lado de fora.
— Larguem as armas! Agora!
Houve correria, um segundo disparo e o som de passos fugindo pela mata. Rafael Costa entrou acompanhado de dois homens e uma médica de emergência.
— Chefe!
Dante ergueu a mão.
— Primeiro ela.
— Estou bem — Marina protestou.
— As mãos dela estão sangrando.
Rafael viu a terra seca nas unhas da jovem, a roupa molhada e o homem que todos acreditavam morto. Não perguntou mais nada. A equipe avaliou Dante, estabilizou-o para o transporte e o levou a uma clínica particular no Morumbi.
Marina só compreendeu a dimensão da história quando um segurança chamou o ferido de doutor Montenegro. No corredor, outra pessoa falou em empresas, portos e homens armados. Ela reconheceu o sobrenome de notícias sobre negócios suspeitos e disputas violentas em São Paulo.
— Dante Montenegro? — perguntou, quase sem voz.
Rafael assentiu.
— Você não sabia?
Ela soltou uma risada sem humor.
— Eu só sabia que ele precisava respirar.
A médica, Helena Batista, examinou o paciente. Havia suspeita de fraturas, lesões por compressão, hipotermia e comprometimento respiratório por aspiração de partículas. Dante precisou de exames, oxigênio e observação rigorosa.
Marina contou o que vira sem omitir detalhes. Quando a médica perguntou como havia retirado Dante da cova, ela mostrou as mãos feridas. Helena pediu que uma enfermeira cuidasse delas.
— Você fez o que pôde numa situação impossível — disse a médica. — Mas ele ainda corre riscos.
Horas depois, Dante foi transferido para uma ala protegida de sua propriedade em Jardim Europa, com acompanhamento médico contínuo. Marina acompanhou a equipe para prestar depoimento detalhado e recuperar sua mochila.
O portão da mansão se abriu diante de um jardim iluminado. Havia fontes, carros caros e homens de terno preto posicionados em silêncio. Marina parou na entrada.
— Isso é uma casa ou um aeroporto particular?
Rafael quase sorriu.
— Depende do dia.
Dentro da residência, uma funcionária olhou de relance para os tênis gastos de Marina. Outra se afastou quando ela passou. A jovem percebeu, mas fingiu não notar.
Dante acordou no fim da tarde e pediu para vê-la. Marina entrou no quarto com os braços cruzados.
— Disseram que você não quer que eu saia.
— Marcelo sabe que existe uma testemunha.
— Isso não dá a você o direito de me prender.
Ele tentou sentar, mas a dor o impediu.
— Eu não disse que você está presa.
— Então abra o portão.
Dante observou o rosto cansado da jovem.
— O portão está aberto. Só estou pedindo que não saia sozinha até descobrirmos quem a identificou.
Marina respirou fundo.
— Eu salvei sua vida. Não vendi minha liberdade.
O silêncio durou alguns segundos.
— Tem razão — ele respondeu. — Peço desculpas.
A resposta a surpreendeu mais do que os carros na garagem.
Ela explicou que precisava recuperar uma fotografia da mãe e documentos guardados num antigo armário próximo à rodoviária. Dante chamou Rafael e pediu que a acompanhasse, respeitando sua decisão.
— Por que essa fotografia é tão importante? — perguntou.
— É a única em que minha mãe está rindo.
Dante baixou os olhos.
— Então vamos encontrá-la.
Enquanto esperava, Marina caminhou até a varanda. Viu a cidade ao longe e se perguntou como seria dormir numa cama sem medo de que alguém a mandasse sair. Logo se repreendeu. Não queria dever nada àquele homem.
Rafael voltou antes do previsto. Seu rosto estava sombrio. Chamou Dante para conversar, mas ele exigiu que Marina permanecesse.
— O armário foi arrombado — informou. — E o lugar onde ela costumava passar a noite pegou fogo.
Marina deu um passo para trás.
— A foto?
Rafael retirou um envelope amassado do bolso.
— Consegui encontrar isto. Mas havia outra coisa.
Ele mostrou uma imagem no celular. Na parede chamuscada, alguém escrevera em tinta vermelha: MARINA OLIVEIRA, VOCÊ É A PRÓXIMA.
Dante se levantou apesar da dor. Pela primeira vez, Marina viu o homem que todos temiam.
— Rafael — disse ele, com uma calma assustadora. — Descubra quem tocou naquela parede.
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