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"A Sem-Teto Que Salvou o Mafioso" Capítulo 1 — Enterrado Vivo

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O homem que estavam enterrando ainda respirava.

Marina Oliveira percebeu pelo som. Não foi um grito. Nem uma súplica. Foi o atrito desesperado de um sapato contra a terra encharcada, seguido de uma respiração abafada por fita adesiva.

Ela se agachou atrás de uma moita na Serra da Cantareira. A chuva havia parado havia poucos minutos. Os faróis de um sedã preto iluminavam a clareira, uma cova aberta e três homens que pareciam não ter pressa nenhuma de cometer um assassinato.

O prisioneiro estava de joelhos. Tinha as mãos presas atrás das costas, a camisa preta rasgada na altura do ombro e lama no rosto. Era alto, mesmo curvado. Dois homens seguravam seus braços. Um terceiro, mais velho, observava tudo com os sapatos caros afastados da lama.

Marina apertou a alça da mochila. Dentro dela havia um casaco fino, uma garrafa quase vazia, uma fotografia da mãe e um canivete pequeno. Era tudo que possuía.

Oito meses antes, ainda estudava enfermagem no Instituto São Lucas. Fazia plantões de estágio, tomava ônibus lotado e chegava em casa com histórias para contar a dona Rosa. Depois vieram a doença da mãe, as contas, o funeral e o despejo. Agora dormia onde conseguia: em abrigos, na rodoviária do Tietê e, quando não havia outra opção, sob a cobertura de uma antiga estação de vigilância florestal.

Aprendera três regras para sobreviver: não chamar atenção, não confiar em desconhecidos e nunca entrar em uma briga que não fosse sua.

Naquela noite, obedecer significava assistir a um homem morrer.

O prisioneiro ergueu o rosto. Seus olhos encontraram os dela entre os galhos.

Marina parou de respirar.

Ele poderia gritar. Poderia indicar sua posição. Poderia implorar. Em vez disso, moveu a cabeça devagar, numa negativa firme.

Não apareça.

Estava diante da própria sepultura e tentava proteger uma desconhecida.

O homem mais velho arrancou a fita da boca dele.

— Última oportunidade, Dante. Onde está a cópia?

O prisioneiro cuspiu terra.

— Longe das suas mãos, Marcelo.

— Você perdeu seus homens, seus negócios e sua casa. Ainda quer bancar o chefe?

— Às oito da manhã, se eu não cancelar o envio, os documentos chegam às autoridades.

Marcelo Ferraz deixou de sorrir.

— Está blefando.

— Então me enterre e descubra.

O telefone de Marcelo tocou. Ele se afastou e falou em voz baixa. Marina distinguiu palavras soltas: auditoria, servidor, Santos, transferência. Quando voltou, seu rosto estava rígido.

— Não enterrem muito fundo — ordenou. — Quero que ele tenha tempo de se arrepender.

Um dos capangas hesitou.

— E se ele não falar?

— A terra responde por ele.

Marcelo recolocou a fita na boca de Dante, entrou no carro e desapareceu pela estrada de cascalho. Os dois homens arrastaram o prisioneiro até a beira da cova.

Marina segurou o próprio pulso para não se mover.

Dante caiu de lado. A primeira pá de terra atingiu suas pernas. A segunda, suas costas. A terceira cobriu parte do peito. Ele tentou se erguer, mas as mãos amarradas o impediram.

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— Nunca imaginei que fosse enterrar o patrão — comentou um dos homens.

— Ex-patrão — corrigiu o outro.

Mais terra. Um som de tosse abafada. Marina sentiu o gosto metálico do medo.

Então um celular tocou. O homem atendeu, praguejou e olhou para a estrada.

— Marcelo quer a gente no depósito. Agora.

— E ele?

Restava visível apenas parte do rosto de Dante e um ombro.

— Daqui a vinte minutos, não importa mais.

Jogaram as pás perto de uma árvore e saíram numa caminhonete. Marina contou os segundos até os faróis sumirem.

Cinco. Dez. Vinte.

Ela correu.

Caiu de joelhos junto à cova e começou a remover a terra com as mãos.

— Não morre. Por favor, não morre!

A lama se enfiou sob suas unhas. Uma delas quebrou. A outra sangrou. Marina continuou. Limpou a terra do nariz dele, puxou a fita da boca e procurou a pulsação no pescoço.

Nada.

Mudou a posição dos dedos. Sentiu um batimento tão fraco que quase pareceu imaginação.

— Achei você — sussurrou.

Cavou até libertar o tórax. Cortou as abraçadeiras com o canivete e o ajudou a virar de lado, retirando a terra solta de sua boca. Dante puxou ar com um gemido que lhe atravessou o corpo.

— Devagar. Eu estudei enfermagem. Tenta respirar comigo.

Ele abriu os olhos, reconhecendo-a.

— Mandei... você se esconder.

— E eu nunca fui boa em obedecer ordens.

Um esboço de sorriso apareceu sob a lama. Durou pouco. Dante tentou apoiar o peso nas pernas e caiu sobre ela. Marina segurou seu ombro, sentindo a diferença brutal entre a força que ele devia ter e a fragilidade daquele instante.

— Preciso levar você para longe.

— Me deixa. Corre.

— Já perdi gente demais para obedecer a essa ordem.

Ela pensou em dona Rosa, que morrera numa cama de hospital enquanto a filha prometia que tudo ficaria bem. Pensou em quantas vezes passara diante de pessoas pedindo ajuda e não soubera o que fazer. Naquela noite, sabia.

Marina passou o braço dele sobre seus ombros. Arrastaram-se até um trecho de pedras coberto por raízes. Ela rasgou a barra do casaco para proteger o corte no braço dele. A respiração de Dante vinha em intervalos curtos.

— Qual é seu nome? — ele perguntou.

— Marina.

— Marina... não olhe para trás.

Ela olhou.

Dois faróis surgiam entre as árvores. A caminhonete estava voltando.

O motor cresceu na escuridão. Uma porta bateu. Alguém gritou que a cova estava vazia.

Marina apertou a mão do homem que acabara de tirar da terra. Salvar sua vida tinha sido a parte fácil.

Agora precisava sair daquela mata com ele antes que os assassinos descobrissem quem os havia desafiado.

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