"Sem Nada, Sustento Meus Dois Irmãos no Mundo das Feras" Capítulo 8
Helena
"Mas... não pode."
Luan se assustou.
Ainda assim, não ousou contrariar Ana.
Só pôde acompanhá-la, hesitante.
"Mostre o caminho. Eu não sei onde é."
Ana tocou seu braço com a ponta de um dedo.
Foi um contato tão leve que Luan ficou parado por um instante.
A tensão em seu peito começou a diminuir.
Ela parecia mesmo ter mudado.
Olhou para o caminho à frente.
Normalmente, antes que o sol nascesse, fazia um desvio pelos arredores para chegar ao rio.
Havia uma passagem direta pela tribo, mas ele não tinha o direito de usá-la.
Lançou um olhar discreto para Ana.
Decidiu seguir pelo caminho principal.
Não importava o que acontecesse com ele.
Mas não podia fazê-la passar vergonha.
O ponto de coleta de água não ficava longe.
Luan caminhava à frente, nervoso, apertando as próprias mãos, sem saber o que Ana pretendia.
Ela apenas o seguia tranquilamente.
Quase não falou.
Quando outros metamorfos que buscavam água lhes lançaram olhares surpresos, Luan abaixou ainda mais a cabeça.
O café da manhã voltou a ser fruto-de-farinha.
Ana também havia emagrecido bastante.
Olhou para o próprio corpo e depois para Luan, que parecia prestes a ser levado pelo vento.
Criou coragem e decidiu cozinhar os dois frutos.
Se necessário, deixariam um pouco para o meio do dia.
Enquanto comia aquela papa sem graça, com apenas um leve gosto de sal, sentia todo o corpo protestar.
Queria carne.
Mal colocou a tigela no chão, ouviu o som que Bento descrevera.
Lembrava as trompas feitas de chifre que vira em vídeos sobre povos antigos.
"Vou sair para ver como é."
Falou com Luan antes de se levantar.
"Coma mais um pouco. Ainda tem."
Ele olhou para o fundo da panela.
Restava o equivalente a mais ou menos uma tigela.
As mulheres comiam mais que os homens. Tinha medo de que ela ainda estivesse com fome.
"Não sei a que horas volto à noite. Se ficar com fome à tarde, coma o que sobrou."
Ali não havia mesas nem cadeiras.
Todos se sentavam no chão.
Ana se levantou, bateu a mão nas roupas de pele para limpá-las e foi até a porta.
Antes de sair, olhou outra vez para Luan, ainda sentado perto da fogueira.
Sua estrutura óssea não era pequena.
Os ombros eram relativamente largos.
Mas estava tão magro que parecia apenas pele e ossos.
A roupa fina pendia sobre ele. Quando se movimentava, sobrava espaço dos dois lados da cintura.
Não era difícil imaginar o vento entrando.
***
Por sorte, a antiga Ana ainda costumava sair de casa.
As lembranças levaram a garota sem dificuldade até a clareira onde a tribo se reunia.
Não havia muitos leopardos.
Naquele momento, algumas dezenas de pessoas estavam espalhadas pelo local.
Os participantes das caçadas se revezavam. As mulheres presentes eram, em sua maioria, as que descansavam depois da expedição anterior, acompanhadas de seus companheiros.
Todas demonstraram surpresa ao vê-la.
Ana examinou o grupo.
Carregavam cestos trançados com fibras e cipós.
Só ela chegara de mãos vazias.
"Ana, você veio para...?"
Quem comandava a coleta era a curandeira da tribo.
Havia duas figuras especialmente importantes naquela comunidade.
A chefe liderava as caçadas.
A curandeira ficava responsável pela coleta.
As curandeiras tinham uma sensibilidade natural para as plantas. Pareciam nascer sabendo o que podia ou não ser comido.
Era uma espécie de conhecimento herdado.
Naquele momento, Helena, a curandeira dos leopardos, observava Ana com uma leve dúvida no olhar.
"Helena, eu gostaria de acompanhar o grupo de coleta hoje. Posso ir com vocês?"
A antiga dona daquele corpo desprezava aquela pequena tribo.
Quase não se relacionava com os moradores.
A curandeira e a chefe haviam tentado procurá-la antes, mas sua frieza as afastara.
Por isso, Ana não se preocupava tanto em esconder a mudança de comportamento.
A outra também não era de sair gritando e criando confusão pela tribo.
Limitava-se a afastar os outros com o desespero de quem perdera a família.
Helena a examinou de cima a baixo com um olhar afetuoso.
"Claro, claro. Que bom, minha filha. Fico feliz que esteja conseguindo seguir em frente."
Deu um tapinha no ombro de Ana.
Ter mais uma integrante da própria espécie participando era bom para a tribo.
Podia significar um aumento na força de todo o grupo.
Além disso, Ana viera da Cidade das Cem Feras. Seu potencial ainda era desconhecido.
Helena acreditava que a garota simplesmente estivera triste demais para saber o que fazer.
Era bom vê-la reagir.
"Todo mundo leva um cesto para a coleta. Use um dos meus por enquanto. Pode devolver quando voltarmos à noite."
Helena estava com três companheiros.
Os quatro carregavam cestos. Não havia problema em ceder um a Ana.
"Obrigada, Helena."
Ana não fez cerimônia.
Precisava mesmo daquilo.
A tribo inteira sofria com a falta de roupas e alimento.
O inverno estava prestes a chegar, e a comida era uma preocupação de todos.
Sem muita conversa, o grupo partiu.
Ana caminhava entre eles.
Todas as mulheres tinham características animais visíveis.
Orelhas e caudas balançavam à sua frente.
Na outra vida, ela nunca fora particularmente apaixonada por animais.
Ainda assim, não conseguia evitar achar aquelas orelhas fofas.
"Por que está olhando para a minha cauda?"
Talvez estivesse encarando demais.
A mulher à sua frente logo se virou e tocou a base da própria cauda, desconfortável.
Antes que Ana respondesse, diminuiu o passo até ficar ao lado dela.
"Seus músculos parecem bem firmes. A vida na Cidade das Cem Feras é mesmo melhor que aqui."
O homem que a acompanhava precisou passar para o outro lado, já que ela se aproximara de outra mulher.
Os metamorfos eram combativos, mas não costumavam complicar as coisas.
Especialmente as mulheres.
Pareciam considerar natural tratar umas às outras com amizade.
Ana apertou o próprio braço e sorriu.
O vento já estava cortante.
Quando deixaram a área das casas, ficou ainda mais forte.
Bastava abrir a boca para o ar gelado entrar pela garganta.
Logo a mulher parou de conversar e abaixou um pouco a cabeça para se proteger.
O grupo saiu do território da tribo.
Árvores altas cobriam o céu.
A folhagem densa não mostrava nenhum sinal de que o inverno se aproximava.
Ana observava os arredores enquanto tentava memorizar o caminho.
A maioria dos metamorfos não participava da coleta coletiva todos os dias.
Sair em grupo garantia segurança e uma quantidade básica de alimento.
Por outro lado, quem coletava sozinho também podia aproveitar para capturar pequenas presas, obtendo um retorno melhor.
Depois que conhecesse um pouco a região, Ana pretendia tentar caçar por conta própria.
Entre as árvores, o vento diminuiu bastante.
Ela calculou que caminharam mais meia hora antes de Helena mandar parar.
"Encontramos as árvores de fruto-de-farinha. Vamos ficar aqui. Trabalhem depressa. A estação do frio está chegando, e precisamos voltar mais cedo para evitar os animais grandes..."
A voz tranquila e as instruções claras transmitiam segurança.
Helena escolheu algumas mulheres que pareciam fortes e as mandou um pouco mais longe.
Elas ficariam atentas a predadores que estivessem preparando suas reservas para o frio.
Todos começaram a trabalhar.
As árvores de fruto-de-farinha eram fáceis de reconhecer.
Diferiam muito das demais.
Em vez de troncos retos e uniformes, tinham uma base um pouco mais estreita, que se tornava arredondada à medida que subia.
Mediam cerca de sete ou oito metros.
Os galhos só começavam perto da copa, carregados de frutos redondos, de casca verde-escura.
Ana vira árvores parecidas pelo caminho.
Mas aquelas estavam quase vazias.
Provavelmente já tinham sido colhidas.
Era esse o problema de uma sociedade sem agricultura.
A comida não era garantida.
Precisavam esperar pelo que a natureza oferecia.
Ana ergueu a cabeça para observar a altura das árvores.
Mesmo tendo passado parte da vida no interior, nunca vira nada daquele tamanho.
Seria porque aquele mundo ainda não sofrera com a poluição humana?
Com água e solo intactos, as plantas cresciam como bem entendiam?
Não era de admirar que houvesse tão poucos metamorfos.
Até enfrentar a vegetação parecia difícil.
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