"Sem Nada, Sustento Meus Dois Irmãos no Mundo das Feras" Capítulo 7
Sombras
Dormir cedo era mesmo bom demais.
Ana acordou logo pela manhã, sentindo a cabeça leve e descansada.
Nada daquele peso que costumava ter ao despertar depois de passar horas diante de telas e dormir tarde.
Ao levantar a pele que a cobria, o ar gelado a fez estremecer.
Ficou ainda mais desperta.
Vestiu-se e afastou a cortina de folhas.
A sala também estava escura.
A arquitetura pouco prática daquele mundo fazia com que, sem fogo, o interior das casas permanecesse quase sempre sem luz.
Por sorte, seus olhos de animal não eram afetados.
Ana foi até a janela e afastou as folhas.
O dia ainda não havia clareado por completo.
Ela não conhecia a geografia daquele mundo. Nem sabia se estava numa região mais ao norte ou mais ao sul.
Tentou lembrar se, no inverno, amanheceria mais cedo ao sul.
Mas nem sabia se ainda estava na Terra.
Talvez aquele tipo de referência já não servisse para nada.
Também não fazia ideia de quando o grupo de coleta sairia.
Quase metade da tribo participara daquela expedição de caça. Não tinham restado muitos adultos jovens.
Ana ergueu a porta, que abria para cima, e a apoiou.
Ficou observando o lado de fora.
A casa estava na miséria, e o quintal não tinha nem um tufo de capim.
Nos lugares por onde os metamorfos passavam constantemente, a terra ficava compactada demais para que muita coisa crescesse.
Além disso, Luan era tão trabalhador que mantinha até os cantos limpos.
Ana examinou o terreno vazio dos dois lados.
A terra escura parecia fértil e estava bem nivelada.
Em que estágio aquela sociedade estaria?
Alguém já teria tentado plantar?
Esticou o pescoço para olhar o quintal vizinho.
Talvez porque os metamorfos precisassem de bastante espaço para se movimentar, as casas não ficavam muito próximas.
Mas sua visão era boa o suficiente para enxergar tudo.
Lenha empilhada com cuidado.
Alguns objetos.
E umas plantas que pareciam ter sido transplantadas.
Ana não conseguiu identificar quais eram.
Pelo menos havia quem tentasse cultivar alguma coisa.
Viver principalmente da caça era instável demais. Comiam bem quando conseguiam uma presa e passavam fome quando não conseguiam.
Se também plantassem, teriam uma forma de garantir alimento.
Ana decidiu observar, durante a coleta daquele dia, se encontrava alguma coisa fácil de cultivar.
A ideia lhe trouxe um pouco de tranquilidade.
Quando ergueu os olhos, encontrou um olhar perplexo.
Era um dos companheiros da vizinha.
"Ah... é você, Ana."
Bento parecia sem jeito.
Desde que ela chegara à tribo, havia meio ano, nunca a vira acordada tão cedo.
Além disso, tinha um pouco de medo dela.
Ana batia nos outros com frequência. Era assustadora.
Pelo menos não costumava puxar conversa com homens como ele, que já tinham uma senhora.
Mas por que acordara tão cedo naquele dia e estava olhando para o quintal dele?
Sua senhora também saíra para caçar.
Em casa, só tinham ficado alguns homens sem utilidade...
Bento sentiu uma pontada de medo.
Ele carregava um balde de madeira.
Provavelmente estava indo buscar água.
"Bento."
Ana abriu um sorriso discreto.
Naquele mundo, não havia um sistema elaborado de tratamentos. Jovens e velhos eram chamados pelo nome. O que mudava era o tom.
"A que horas o pessoal costuma sair para a coleta? Você vai hoje?"
"Ah... normalmente todo mundo se reúne quando toca a trompa. Minha senhora não está, e levou a filha também... Hoje não posso acompanhar."
Bento respondeu quase sem pensar.
Depois olhou para Ana com estranheza.
Antes, quando encontrava homens como ele, ela agia como se não os visse.
Se o encontro fosse inevitável, demonstrava desprezo.
Naquele dia, porém, puxara conversa.
E de maneira tão educada.
Será que só tratava Luan e Dante daquela forma?
Pensando bem, nunca a vira bater em outros metamorfos.
Os dois irmãos nem eram leopardos.
E que mulher não batia nos homens de sua casa?
Além disso, Ana geralmente não abordava os que já tinham uma senhora.
Havia muitas mulheres que importunavam até os homens comprometidos.
Vendo por esse lado, talvez ela nem fosse tão ruim.
Bento imediatamente adotou uma expressão mais amigável.
O calor fizera Luan dormir um pouco além do habitual.
Ainda sonolento, ouviu vozes.
Uma delas parecia ser a de Ana.
Assim que reconheceu o som, despertou de vez.
Sentou-se num impulso e ergueu a folha que cobria a janela.
Já estava claro.
Ana realmente havia acordado.
Luan afastou a coberta depressa.
Quando os dedos tocaram a pele grossa e macia, lembrou-se da noite anterior.
Ela lhe dera uma pele tão boa para usar.
Não conseguia afastar a sensação de que tanta bondade só podia significar que algo pior o aguardava.
A comerciante dissera que poderia vendê-lo por mais se ele engordasse...
Luan sacudiu a cabeça, tentando expulsar o pensamento.
Levantou-se e vestiu as peles remendadas.
Ao afastar as folhas da entrada do quarto, viu Ana junto à porta, aparentemente conversando com alguém.
Acordara depois dela.
Ainda não buscara água.
Ainda não preparara a comida.
No inverno anterior, Luan adoecera e não conseguira se levantar.
A febre o deixara com a cabeça confusa.
Dante cuidara dele por um tempo antes de sair para fazer as tarefas.
Quando Ana descobrira, não lhe permitira descansar nem por meio dia.
Entrara no quarto e o chicoteara.
Depois o arrastara até o abrigo de lenha.
O telhado ainda não tinha sido consertado. O espaço estava aberto, com neve acumulada dentro.
Luan, ardendo em febre, fora jogado sobre ela.
O sangue dos ferimentos manchara a neve sob seu corpo.
Ana apenas dissera, com frieza, que não queria ficar doente por causa dele.
Se Dante não tivesse se ajoelhado para implorar e voltado naquela noite gelada com um coelho-das-neves de pelos espessos, talvez Luan tivesse morrido.
As lembranças dolorosas voltaram de uma vez.
Suas pernas enfraqueceram.
A certeza de que apanharia se não trabalhasse estava gravada em seus ossos.
Procurou o balde de madeira e caminhou até a porta, tremendo.
O medo fazia seus ouvidos zumbirem.
Sua cabeça girava.
Só ao chegar à entrada percebeu que Ana conversava com Bento.
O vizinho era extremamente conservador.
Acreditava que um homem agredido pela própria senhora não podia ser um bom homem.
Certamente fizera alguma coisa errada.
Também rejeitava os de fora e nunca demonstrava simpatia por Luan.
"Luan, você acordou."
Ao vê-lo com o balde, Ana lhe deu um pequeno sorriso.
Ele parou por um instante ao ouvir a mesma voz gentil do dia anterior.
Mas a curiosidade não bastava para lhe dar coragem.
Manteve a cabeça baixa e murmurou uma resposta.
Bento viu tudo.
O amanhecer avançava depressa. Pouco antes, ainda estava escuro; agora, uma luz tênue cobria a terra.
Sua visão não era tão boa quanto a das mulheres que comandavam as casas, mas, à luz do dia, enxergava bem.
Ficou surpreso.
Durante todo aquele ano, nunca vira Ana tratar Luan com gentileza.
"Eu... vou buscar água."
Luan apertou a alça do balde.
Normalmente, já tinha terminado aquela tarefa antes de Ana acordar.
Ela não gostava de vê-lo se expondo na frente dos outros.
Mas deixar de trabalhar lhe causava ainda mais medo.
"Está bem. Não precisa ficar tão nervoso para falar comigo. Quer que eu vá junto? Ainda não sei onde vocês buscam água."
Ana abriu espaço na porta.
Ao vê-lo continuar tão retraído, suspirou por dentro.
Sabia que aquilo não mudaria de uma hora para outra.
Ele parecia tão desamparado.
Como Luan poderia deixá-la trabalhar?
"Não precisa... Isso é trabalho de homem."
Ele nunca vira nem uma menina ir buscar água.
"Só quero conhecer o lugar. E me dê o balde também. Eu tenho mais força."
Ana estendeu a mão e o pegou.
Luan não tinha como competir com a força dela.
O balde saiu de seus dedos com facilidade.
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