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"Sem Nada, Sustento Meus Dois Irmãos no Mundo das Feras" Capítulo 3

正文开头

Só restaram as paredes

Luan não entendia por que Ana havia mudado de ideia.

No dia anterior, ela o olhara com ódio e dissera que chegara a hora de ele pagar pelos próprios pecados.

Se o vendesse, ela e Dante conseguiriam passar o inverno.

A casa de Ana não era a casa dele.

Mesmo assim, era o único lugar onde sempre vivera.

O medo de ser vendido não o deixara dormir.

Durante a noite, chegara a esperar que Ana acordasse arrependida.

Preparara o café da manhã com antecedência e a observara comer, ansioso e cauteloso.

Talvez, se ainda fosse útil, pudesse ficar.

Já possuía uma marca.

Quem sabe na próxima expedição pudesse acompanhar a equipe de caça?

Também conseguiria trazer carne para casa, como Dante.

Mas Ana pegara a corda mesmo assim.

E a amarrara em seu pescoço com as próprias mãos.

Ele não tinha um lar.

E nunca mais teria.

Os metamorfos atrás da comerciante estavam sem roupas, amontoados para aproveitar o calor uns dos outros.

Nenhum deles erguera a cabeça para olhá-lo.

Luan sabia que logo estaria ali, espremido entre eles, tentando roubar um pouco de calor antes de ser levado para algum lugar desconhecido.

Não havia lugar para ele em parte alguma.

Mas Ana dissera, de repente, que não o venderia mais.

E o puxara de volta para casa.

Como continuava em silêncio, ela voltou a conduzi-lo pelo braço.

Dessa vez, Luan a acompanhou sem hesitar, embora permanecesse rígido sob a pele emprestada.

Estava mesmo muito mais quente.

Ana escolheu um caminho alternativo.

Por sorte, não havia outras casas atrás da deles. Assim que saíram da mata, entraram depressa.

A maioria das famílias de metamorfos seguia um sistema de múltiplos companheiros para uma mesma mulher. Por isso, até aquela pequena casa de pedra tinha três cômodos menores.

Ana ocupava o maior.

Dante e Luan dividiam outro.

O terceiro servia de depósito.

No centro da sala principal havia um suporte para a fogueira e um fogão rudimentar.

Ana examinou tudo.

Pelo menos, naquele lugar tão antigo, as casas eram bens da comunidade e recebiam manutenção regular. O espaço para a fogueira e o fogão já faziam parte da construção.

Não havia um único pedaço de carne.

Existia, porém, um alimento chamado fruto-de-farinha. Bastava abri-lo e cozinhar seu interior até virar uma papa para encher a barriga.

O gosto deixava bastante a desejar.

E os três eram metamorfos de espécies carnívoras.

Viver daquilo era uma tortura.

Restavam apenas alguns frutos num canto.

Na tribo, tanto a coleta quanto a caça eram realizadas em grupos. Aventurar-se sozinho fora do território era muito perigoso, mesmo para um metamorfo.

Já o que fosse obtido dentro das terras da tribo pertencia à comunidade. Até uma presa capturada por conta própria precisava ser entregue à chefe para distribuição.

Portanto, Ana também não podia simplesmente conseguir comida nos arredores.

Foi até o próprio quarto.

A cama de pedra estava coberta por uma camada grossa de capim seco, com uma pele por cima.

正文1

A estação do frio se aproximava, e o cobertor ainda era uma pele fina.

Abriu o baú.

As peles boas e grossas que podiam ser vendidas já haviam sido trocadas por comida.

E a comida também acabara.

No depósito havia um pouco de lenha seca.

Até um ano antes, a antiga Ana ainda era uma filha cercada pelos cuidados da mãe e dos pais de criação. Depois de uma mudança tão brusca, não aprendera a trabalhar de uma hora para outra.

Todas as tarefas da casa ficavam por conta de Luan e Dante.

Os homens só podiam acompanhar as expedições de coleta na companhia de uma mulher.

Como Ana nunca participava, não havia possibilidade de aceitarem Luan no grupo.

Faltava lenha.

Faltavam peles.

Nenhum deles tinha roupa grossa.

Como sobreviveriam àquela estação do frio?

Os metamorfos normalmente faziam duas refeições por dia. Comiam bastante de uma vez e passavam um longo período digerindo.

Ana não havia comido muito naquela manhã.

Depois de toda a caminhada, sua barriga já roncava.

Além dos poucos frutos e de um restinho de sal no recipiente, a casa parecia realmente vazia.

Dante saíra com a equipe de caça.

Em geral, só voltavam depois de conseguir alimento suficiente para sustentar a tribo por três a cinco dias. Se fossem caçar longe, a viagem podia durar pelo menos três ou quatro dias.

Aquele era o segundo dia desde a partida dele.

Ainda precisariam esperar um ou dois dias pela distribuição da carne.

Até lá, só tinham os frutos-de-farinha.

E depois?

Durante o inverno, quase ninguém saía.

Pretendiam sobreviver com aquilo?

Ou simplesmente não pretendiam sobreviver?

Não era de admirar que a antiga Ana tivesse decidido vender Luan.

Já haviam vendido tudo que podia ser vendido.

Só restavam as pessoas.

Sem vender alguém, parecia impossível continuar.

Talvez os três acabassem congelados dentro de casa.

Ana soltou um suspiro pesado no meio da sala.

Enquanto pensava, sua cauda balançava de um lado para o outro.

Luan já vestira as próprias roupas, mas não ousava ficar no quarto sem fazer nada.

Cada suspiro dela o fazia estremecer por dentro.

Tinha medo de que Ana se irritasse e encontrasse outra forma de atormentá-lo.

Ele apertou as mãos.

"Se... se quiser, ainda pode me vender. Assim vai poder comprar as coisas para casa."

Manteve a cabeça abaixada, esperando ouvir a voz furiosa dela.

Estava acostumado.

Sentiu o olhar de Ana pousar nele.

Depois de tanto tempo sofrendo agressões, preferia se esconder. Estar sob a atenção de alguém o fazia encolher por reflexo.

Ela suspirou de novo.

Foi um som quase imperceptível, mas caiu sobre seu peito como uma martelada.

Ana não queria ficar tentando adivinhar o que Luan pensava.

Uma coisa, porém, era certa: não venderia uma pessoa.

Já que passariam a viver sob o mesmo teto, achou melhor esclarecer algumas coisas.

"Luan, olhe para mim."

Ele estremeceu.

Não se atrevia a encará-la, mas também não ousava desobedecer.

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Ergueu a cabeça por um instante, timidamente.

Foi tão rápido que nem conseguiu distinguir direito o rosto dela.

Na verdade, nunca soubera muito bem como era o rosto de Ana.

"Depois que minha mãe morreu, eu fiquei perdida. Fui trocando tudo que tínhamos para tentar continuar vivendo, mas não dá para seguir assim. Só vai piorar."

Ana fez uma pausa.

"Você não tem o mesmo sangue que eu, mas é da família do pai Úlian. Agora só restamos nós três. Se a gente não cuidar disso, não vai sobrar nem esta casa... Podemos tentar viver bem daqui para a frente, juntos?"

Luan ficou atônito.

Aquela casa?

Embora Ana nunca tivesse sido muito boa com ele e Dante, antes não chegava a maltratá-los daquela forma.

Só mudara depois da morte da mãe.

Mas, antes dela, quem os maltratava era Úlian.

O irmão mais novo da mãe deles.

Alguém que os detestava profundamente.

Era compreensível.

A existência dos dois deixava Úlian numa posição desconfortável.

E também tornava incerto o lugar deles na casa de Ana.

Não podiam chamar a mãe dela de mãe. Tampouco eram realmente irmãos de Ana.

O único elo entre eles era Úlian.

Ana viu que ele continuava imóvel, sem responder.

Sabia que uma pessoa submetida a maus-tratos por muito tempo não pensava nem reagia como alguém que nunca passara por aquilo.

Um discurso não provaria nada.

Só queria que, vivendo sob o mesmo teto, ele não precisasse ficar sempre encolhido e aterrorizado, como se ela fosse agredi-lo a qualquer momento.

Olhou para as roupas finas que Luan vestira.

Agora estava de calças compridas, mas a pele não tinha pelo algum. Não oferecia quase nenhuma proteção contra o frio.

Suspirou.

Precisavam providenciar tudo de novo.

"Vamos fazer o possível para nós três vivermos bem. Não temos mais nada aqui, nem roupa grossa. Amanhã vou acompanhar o grupo de coleta. Quem sabe consigo alguma coisa para trocar por peles mais quentes."

Na outra vida, os pais de Ana viviam para o trabalho.

Desde pequena, ela praticamente se virava sozinha.

Um dia, a avó fora visitá-los e encontrara a neta em cima de um banquinho, preparando a própria comida.

Depois daquilo, levara Ana para morar com ela.

Mas seus pais haviam se casado tarde, e a avó já era idosa.

Ela morrera antes de Ana terminar o ensino médio.

Com o tempo, Ana se acostumara a viver sozinha.

Por maior que fosse o problema, aprendera a suportá-lo sem fazer alarde.

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