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"Sem Nada, Sustento Meus Dois Irmãos no Mundo das Feras" Capítulo 2

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De volta para casa

A estação do frio naquele mundo era longa e terrível.

Havia poucos meios de se aquecer, e os animais de caça se tornavam ainda mais escassos durante o inverno.

Todos os anos, metamorfos morriam de fome ou de frio.

A comerciante não estava mentindo.

Mesmo assim, Ana não conseguiria empurrar outra pessoa para uma vida de sofrimento apenas para garantir a própria sobrevivência.

"Isso eu resolvo. De qualquer jeito, não vou mais vendê-lo."

Segurou o braço daquele rapaz assustadoramente magro e se virou para ir embora.

"Vou ficar aqui mais dois dias! Se mudar de ideia, pode voltar! Depois disso, sigo para outra tribo!"

A mulher gritou atrás deles.

O mercado ficava perto da Tribo dos Leopardos.

Os metamorfos eram extremamente rigorosos em relação aos próprios territórios. Por isso, aquele grupo de comerciantes itinerantes negociava apenas nos arredores, sem se aproximar demais das terras da tribo.

Além disso, os membros de uma mesma tribo costumavam ser unidos.

Mesmo sendo Ana uma garota que ainda não atingira a maioridade, a comerciante não ousaria tomar o rapaz à força.

Ana detestava quem continuava insistindo depois de ouvir uma recusa.

Não demorou a desaparecer com Luan pelo caminho.

Quanto mais tempo passava naquele corpo, mais as lembranças se encaixavam. Logo encontrou o trajeto de casa.

Um ano antes, a antiga Ana não morava na Tribo dos Leopardos, mas na Cidade das Cem Feras, que ficava a certa distância dali.

A classificação dos povoados era simples.

Uma comunidade que reunisse mais de dez espécies diferentes podia receber o nome de Cidade das Cem Feras. Acima dela, havia as Cidades das Mil Feras e das Dez Mil Feras.

Quanto maior a variedade de espécies, mais próspero costumava ser o lugar.

Por coincidência, a antiga dona daquele corpo também se chamava Ana.

Talvez o nome fosse escrito de outra maneira, se é que existia alguma escrita correspondente. Naquele mundo não havia sobrenomes, mas a pronúncia era igual à sua.

A mãe da garota era irmã do antigo governante da Cidade das Cem Feras.

Depois de dar à luz a filha, nunca mais engravidara.

Naquela sociedade, quando uma mulher não conseguia ter outro filho, a culpa recaía sobre a capacidade reprodutiva de seus companheiros.

Por isso, a mãe de Ana continuara procurando novos parceiros, até conhecer Úlian, um metamorfo serpente que chegara ali fugindo com Dante e Luan.

Úlian era bonito, estava sem companheira e precisava desesperadamente da proteção de uma mulher.

Os dois logo se uniram.

Assim, Dante e Luan passaram a ser os irmãos de criação de Ana.

Cinco anos antes, porém, sua mãe adoecera de repente.

Nem os cristais de fera, ricos em energia, nem as ervas medicinais haviam conseguido curá-la.

O tratamento consumira os recursos de toda a família.

Um ano atrás, ela morrera.

Seus companheiros haviam tirado a própria vida em seguida, e o irmão dela perdera a posição de governante num desafio pela liderança.

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A antiga Ana vendera os bens que restavam, inclusive a casa na Cidade das Cem Feras, e se mudara para a Tribo dos Leopardos.

Os três mal haviam conseguido sobreviver ao último inverno.

Dante parecia ter ainda mais talento que Luan.

Aos vinte e um anos, já possuía duas marcas e era uma das principais forças da equipe de caça da tribo.

Mas os irmãos não eram leopardos.

Por mais que Dante contribuísse durante as caçadas, nunca recebia as melhores partes da carne.

Ana, por outro lado, ganhava uma porção melhor justamente por ser uma jovem fêmea que ainda não atingira a maioridade.

Sobreviver fora da proteção de uma tribo era difícil para qualquer um.

Para dois homens como Dante e Luan, mais ainda.

Eles só podiam continuar vivendo ali por causa de Ana.

E agora outro inverno se aproximava.

O território dos leopardos era extenso.

Ana caminhava enquanto organizava as lembranças, segurando um braço tão magro que parecia um punhado de ossos.

Nem tivera tempo de pensar em como fora parar ali e já precisava enfrentar uma crise de sobrevivência.

Passou a mão pela barriga vazia e soltou um longo suspiro.

O pulso gelado em seus dedos tremeu de leve.

"O que foi?"

Ana olhou para trás.

Luan mantinha a cabeça baixa, e seu corpo tremia.

Só então ela percebeu que a estação equivalia ao outono do mundo de onde vinha. O vento já era cortante o bastante para exigir roupas mais grossas.

Ela usava várias peças finas sobrepostas e não sentia muito frio.

Luan, porém, tinha apenas uma pele enrolada na cintura.

Até aquele momento, Ana estivera ocupada demais pensando para examiná-lo com atenção.

Agora via os ferimentos espalhados por seu corpo.

Uma cicatriz grosseira descia do ombro até o peito. A crosta escura sobre a pele clara lembrava uma centopeia horrível.

A antiga dona daquele corpo não era particularmente manhosa, mas não suportara a ruína da família.

Passara a acreditar que a chegada dos metamorfos serpente havia causado a doença da mãe.

Depois de perder tudo, descontara a raiva em Dante e Luan.

Além das agressões físicas, vinham as acusações e os insultos constantes.

Nada daquilo melhorara a situação.

Só tornara a vida ainda pior.

Os dois irmãos já carregavam uma culpa enorme. Acabavam acreditando no que ela dizia e nunca reagiam.

Como Luan não respondeu, Ana suspirou outra vez.

Desatou uma das peles que vestia e a colocou sobre os ombros dele.

Era preciso reconhecer que sabiam tratar peles naquele lugar.

Apesar de toda a rusticidade, a peça era fina, limpa e não tinha nenhum resíduo gorduroso ao toque.

Luan estremeceu violentamente.

Levou a mão à pele sobre seus ombros, mas logo a afastou, como se aquele gesto não lhe fosse permitido.

Ainda havia calor no tecido.

O calor de Ana.

Como um homem poderia simplesmente vestir a roupa de uma mulher?

Além disso, quando saíra com ele, Ana havia amarrado uma corda em seu pescoço. Todos sabiam que ele seria vendido.

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Agora estava voltando com uma peça dela sobre o corpo.

Luan fechou os olhos, envergonhado.

"Não temos outra roupa aqui. Use essa por enquanto. Quando chegarmos, você veste a sua."

A antiga Ana pretendia vendê-lo, então não se preocupara em lhe dar roupas extras.

A garota observou o rapaz trêmulo.

Cada movimento seu parecia fazê-lo esperar alguma coisa terrível.

E a antiga dona daquele corpo realmente lhe havia causado coisas terríveis.

Luan mantinha a cabeça baixa.

Sob a sombra das árvores, Ana não conseguia distinguir sua expressão. Só vira a mão tocar a roupa por um instante e se afastar depressa, como se tivesse se queimado.

Sentia a rigidez do corpo sob seus dedos.

Não parecia alguém que recebera uma peça de roupa para se aquecer.

Parecia alguém obrigado a permanecer debaixo dela.

Ana não imaginava encontrar regras tão sufocantes num mundo tão antigo.

Inclinou-se um pouco para tentar enxergar o rosto dele.

Luan recuou por reflexo, mas conteve o movimento à força.

Ela só costumava dizer que ele era nojento e merecia morrer.

Por que estaria falando com tanta suavidade agora?

Ele não entendia o que Ana pretendia.

Só podia esperar, apavorado, e suportar o que viesse a seguir, fossem palavras cruéis ou golpes.

"Você está preocupado com alguém vendo? Não tem problema. Nossa casa já fica afastada. Podemos dar uma volta por outro caminho. Ninguém vai ver. Além disso, está todo mundo no mercado."

Ao perceber os cílios trêmulos e os lábios pálidos apertados, Ana se afastou um pouco.

Uma ponta de confusão passou pelos olhos de Luan.

Era mesmo Ana quem acabara de falar com ele?

Ela nunca usava uma voz tão gentil.

Mas não havia outra pessoa por perto.

Ele quis olhar ao redor, procurar alguém entre as árvores.

Sob o olhar dela, porém, não se atreveu nem a virar a cabeça.

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