"O Chefe da Máfia Que Virou Babá do “Filho” de Sua Maior Inimiga" Capítulo 5 — O Pai Que Comprou o Supermercado Errado
De volta a São Paulo, Valentina instalou-se temporariamente na mansão. A justificativa era prática: precisava trabalhar durante o dia, e Theo não deveria enfrentar outra despedida logo após a viagem.
Dante fingiu aceitar a explicação.
Na primeira manhã, ela encontrou um quarto transformado em estúdio. Havia uma mesa grande, iluminação profissional, prateleiras para tintas e uma cafeteira igual à de seu apartamento.
— O que é isso?
— Um lugar para trabalhar.
— Eu não pedi.
— Você reclama quando não ajudo e reclama quando ajudo.
— Você comprou metade de uma papelaria.
— A outra metade chega à tarde.
Valentina virou-se para ele.
— Dante, pessoas normais perguntam antes.
— Pessoas normais não conseguem entrega às seis da manhã.
— Isso não é uma qualidade.
Theo entrou carregando um pote de tinta verde aberto. Tropeçou no tapete e lançou o conteúdo sobre a calça preta do pai.
Dante fechou os olhos.
Valentina prendeu a respiração.
Theo apontou para a mancha.
— Bonito.
Dante olhou para o filho.
— Sua mãe fez pior quando tinha sua idade.
— Eu tinha nove anos quando pintei seu carro.
— O nível de maturidade era semelhante.
Valentina esperou que ele chamasse um funcionário. Em vez disso, Dante pegou um pano, limpou as mãos de Theo e deixou a própria calça para depois.
— Café — anunciou.
Na cozinha, ele preparou panquecas pequenas. Uma saiu redonda; as outras pareciam mapas de países inexistentes.
Theo comeu todas.
— Você colocou açúcar? — perguntou Valentina.
— Banana.
— Farinha integral?
— Metade.
— Leite?
— Sem lactose. Está no manual.
Ela provou um pedaço.
— Está bom.
Dante a encarou.
— Pode repetir. Rosa talvez queira gravar.
— Não exagere. Eu disse “bom”, não “milagre”.
Depois do café, Valentina voltou ao estúdio. Dante levou Theo para o escritório, onde deveria analisar relatórios. O menino recebeu papel e lápis de cera.
Durante quarenta minutos, tudo permaneceu calmo.
Então Theo desapareceu.
Dante levantou-se imediatamente. Encontrou a porta aberta, um lápis no corredor e pequenas marcas azuis na parede. Seguiu o rastro até a sala de jantar.
Theo estava debaixo da mesa, desenhando no couro de uma pasta histórica pertencente ao avô de Dante.
— Theo.
O menino congelou.
— Isso não é papel.
— Bonito.
— Não use essa palavra como defesa.
Theo escondeu o lápis atrás das costas.
Dante ajoelhou-se.
— Venha aqui.
O menino saiu devagar, esperando uma bronca. Dante mostrou a pasta.
— Algumas coisas não podem ser pintadas. Mas você pode desenhar aqui.
Entregou-lhe um caderno novo.
— Desculpa — disse Theo, quase inaudível.
Dante sentiu a irritação desaparecer.
— Aceito.
Valentina observava da porta. Ele percebeu apenas quando se levantou.
— Você não gritou.
— Eu nunca grito.
— Ontem você gritou com três homens porque uma planilha tinha uma coluna errada.
— Eles têm diplomas. Theo ainda come papel.
Naquela tarde, os três foram ao supermercado. Dante insistiu que sabia exatamente o que comprar. Valentina permitiu que ele conduzisse o carrinho.
Quinze minutos depois, havia seis brinquedos, três tipos de cereal, duas bicicletas e uma pequena barraca infantil dentro dele.
— Viemos comprar leite e frutas — lembrou ela.
— Estamos comprando.
— Você também colocou um escorregador no pedido de entrega.
— Ele gostou.
— Ele gosta de qualquer coisa colorida.
Theo apontou para um expositor de balas.
— Esse.
Dante pegou um pacote.
Valentina retirou.
— Não.
Dante colocou novamente.
— Um.
Ela retirou.
— Tem açúcar demais.
Theo observava os dois como se assistisse a uma partida.
— Um pequeno — negociou Dante.
— Não compre o carinho dele.
A frase mudou seu rosto.
— Não estou comprando.
— Você compra tudo o que ele aponta.
— Porque posso.
— E quando não puder resolver alguma coisa com dinheiro?
Dante segurou o carrinho.
— Então aprenderei outra maneira.
Valentina percebeu que ele não estava discutindo apenas sobre balas. Por anos, Dante oferecera dinheiro porque não sabia oferecer presença. Agora tentava aprender, mesmo errando.
Ela devolveu o pacote à prateleira e colocou uma fruta cortada nas mãos de Theo.
— Esta é a outra maneira.
Dante aceitou.
No caixa, descobriram que Theo havia escondido um pequeno pato amarelo debaixo da blusa. A funcionária sorriu.
— Parece que ele escolheu sozinho.
Dante tirou o brinquedo e colocou sobre a esteira.
— Não. Ele tentou levar sem pagar.
Theo abraçou o pato.
— Meu.
— Ainda não.
Dante agachou-se diante dele.
— Primeiro pagamos. Depois é seu.
Theo entregou o brinquedo à funcionária, sério. Quando ela devolveu, ele mostrou o pato ao pai.
— Agora meu.
— Agora seu.
Valentina registrou a cena com o telefone.
Na volta, Theo adormeceu no carro. Dante o carregou para o quarto. Valentina começou a guardar as compras, mas ele tirou as sacolas de suas mãos.
— Vá trabalhar.
— Eu posso ajudar.
— Você tem prazo amanhã.
— E você tem uma empresa.
— Hoje sou babá.
— Em tempo integral?
— O contrato ainda tem vinte e quatro dias.
Ela se aproximou.
— E depois?
Dante sustentou seu olhar.
— Depois renegociamos.
Antes que Valentina respondesse, a campainha tocou. Um caminhão descarregou o escorregador comprado no supermercado, acompanhado de uma casinha, uma piscina de bolinhas e um cavalo de balanço que Dante jurava não ter escolhido.
— Você comprou um parque infantil inteiro — disse ela.
— Houve um erro no pedido.
— Todos os itens têm seu nome na nota.
Theo correu até as caixas, maravilhado.
Dante observou o rosto do filho.
— Não podemos devolver agora.
— Claro que podemos.
Theo abraçou a caixa do escorregador.
— Meu.
Valentina fechou os olhos.
— Você ensinou essa palavra cedo demais.
Em vez de chamar os funcionários, Dante decidiu montar o brinquedo. Espalhou peças e parafusos pelo jardim, abriu o manual e recusou ajuda de todos.
Duas horas depois, o escorregador estava montado ao contrário.
Valentina saiu do estúdio com uma limonada.
— A escada está do lado errado.
— Não está.
— Então por que a parte para subir termina no chão?
Dante analisou a estrutura.
— O desenho do manual é ambíguo.
— Quer que eu fotografe para os homens que trabalham com você?
— Se tocar no telefone, durmo no seu quarto esta noite.
— Isso deveria ser ameaça?
Os dois se encararam. Dante voltou ao parafuso antes que o rosto dela denunciasse o efeito da frase.
Theo tentou subir pela rampa. Dante largou a ferramenta e o segurou pela cintura.
— Espere terminar.
— Agora.
— Segurança primeiro.
— Agora!
— Ele herdou sua paciência — disse Dante.
— Você ameaça pessoas que deixam você esperando três minutos.
— Isso é eficiência.
Quando finalmente inverteram a escada, Theo subiu. Dante ficou com as mãos erguidas dos dois lados, pronto para segurá-lo. O menino desceu, caiu sentado na grama e riu.
Depois exigiu repetir vinte e três vezes.
Na décima, Dante retirou o relógio. Na décima quinta, tirou os sapatos. Na vigésima, sentou-se na grama e deixou Theo escalar suas costas em vez do brinquedo.
Valentina levou a limonada até ele.
— O império sobreviveu sem você por uma tarde.
— Ainda não verifiquei.
— Não verifique.
Dante guardou o telefone sem olhar.
Theo se jogou sobre os dois, e Valentina derramou metade da bebida na camisa de Dante.
— Desculpe.
Ele passou um braço ao redor de sua cintura.
— Estou começando a suspeitar que vocês planejam destruir todas as minhas roupas.
— Podemos incluir isso no contrato dos próximos trinta dias.
— Então você admite que haverá outro contrato?
Valentina levantou-se antes de responder. Dante ficou sorrindo na grama.
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