"O Chefe da Máfia Que Virou Babá do “Filho” de Sua Maior Inimiga" Capítulo 4 — Um Mafioso na Hora do Banho
Valentina levou menos de um minuto para beijar Theo, conferir se ele estava bem e começar a discutir com Dante no meio da calçada.
— Você perdeu o juízo?
— Nunca tive o suficiente para perder.
— Ele tem um ano e meio. Não se compra uma passagem porque ele colocou sapatos numa mala.
— Você teria preferido que ele chorasse por vinte e seis dias?
— Eu teria preferido que você me ligasse.
— Liguei ontem. Você perguntou se só ele sentia sua falta.
Valentina ficou vermelha.
Theo, preso entre os dois, segurou o rosto da mãe com uma mão e o do pai com a outra.
— Não.
— Está vendo? — disse Dante. — Ele também considera essa discussão improdutiva.
A editora permitiu que Valentina terminasse parte do trabalho de São Paulo. Ela precisava permanecer apenas mais dois dias em Recife para reuniões presenciais. Dante reservou uma suíte no mesmo hotel e anunciou que cuidaria de Theo enquanto ela trabalhava.
— Você tem reuniões em São Paulo.
— Foram transferidas.
— Para onde?
— Para cá.
No início da tarde, três executivos chegaram ao hotel e encontraram Dante no salão privativo, com Theo amarrado ao peito num carregador infantil. O menino dormia com a bochecha contra a camisa preta do pai.
— Comecem — ordenou Dante.
Um dos homens abriu a apresentação e tentou não olhar para o pé pequeno apoiado sobre o coldre vazio na cintura do chefe. Dante havia deixado qualquer arma com Rafael, cumprindo uma regra que Valentina estabelecera: nada perigoso ao alcance de Theo.
A reunião avançou em sussurros. Quando um executivo elevou a voz para contestar uma cláusula, Theo se mexeu.
Dante levantou um dedo.
— Mais baixo.
— Senhor, estamos discutindo um contrato de sessenta milhões.
— E meu filho está dormindo.
O contrato foi discutido em tom de biblioteca.
Às quatro, Valentina voltou ao hotel e encontrou Dante sentado no chão, cercado por brinquedos. Theo colocara um chapéu de papel na cabeça dele. Rafael estava perto da janela, segurando um dinossauro de plástico e parecendo questionar todas as escolhas da própria vida.
— O que aconteceu aqui?
— Seu filho promoveu uma mudança de liderança — explicou Dante.
Theo apontou para o pai.
— Rei.
Depois apontou para Rafael.
— Cavalo.
Valentina riu tanto que precisou apoiar-se na porta.
— Não incentive — disse Rafael.
Naquela noite, Theo derrubou suco no único vestido limpo de Valentina. Dante mandou buscar roupas novas. Ela recusou.
— Posso lavar isso.
— O jantar é em uma hora.
— Não vou ao jantar.
— É com seus editores. Você trabalhou seis meses para esta coleção.
— E quem ficará com Theo?
Dante ergueu uma sobrancelha.
— A babá em tempo integral.
Valentina olhou para ele. Havia ironia em sua voz, mas não resistência.
— Você sabe dar banho nele?
— Sei administrar uma frota internacional.
— Isso não responde.
— Vá ao jantar.
Quando ela saiu, Dante levou Theo ao banheiro. Colocou água demais na banheira, despejou metade do sabonete e produziu uma montanha de espuma.
Theo bateu as mãos, encantado.
— Pouco — disse Dante, retirando um pouco da espuma.
O menino jogou água no rosto dele.
Dante limpou os olhos.
— Primeira advertência.
Theo jogou novamente.
— Segunda advertência.
Na terceira, Dante respondeu. Em poucos minutos, os dois estavam encharcados. Theo gargalhava enquanto o pai usava um patinho de borracha como embarcação militar.
Rafael bateu à porta.
— Tudo bem?
— Sob controle.
Theo lançou o patinho. O brinquedo atingiu a porta.
— Ouvi um impacto.
— Continue do lado de fora.
O problema começou na hora de lavar o cabelo. Theo odiava água no rosto. Assim que Dante ergueu a pequena ducha, o menino tentou sair da banheira.
— Fique parado.
— Não!
— Precisamos tirar o sabonete.
— Não!
Dante tentou protegê-lo com a mão. A água escorreu sobre os olhos de Theo. O choro começou.
Em vez de insistir, Dante desligou a ducha e pegou uma toalha. Envolveu o filho, sentou-se no chão molhado e esperou.
— Tudo bem — disse, mais baixo. — Eu errei.
Theo soluçou.
— Papá ruim.
A acusação doeu mais do que deveria.
— Neste momento, sim. Mas posso tentar de novo?
Theo pensou. Depois tocou o rosto dele.
— Devagar.
Dante usou uma pequena caneca, protegendo os olhos do filho a cada vez. Theo permaneceu quieto. Quando terminaram, o menino bateu palmas.
— Papá bom.
Dante respirou como se tivesse vencido uma guerra.
Valentina voltou pouco antes das dez. Encontrou o banheiro inundado, quatro toalhas no chão e Dante sentado na cama, lendo uma história. Theo usava um pijama de leão e estava encostado nele.
— Não quero saber o que aconteceu com o banheiro — disse ela.
— Estratégia experimental.
— Funcionou?
Theo respondeu:
— Papá bom.
Valentina ficou imóvel.
Dante também.
O menino ergueu os braços para a mãe. Ela o pegou e beijou sua cabeça.
— Você cheira bem.
— Papá banho.
— Eu estou impressionada.
— Não precisa parecer tão surpresa.
Theo adormeceu entre os dois enquanto Valentina contava sobre o jantar. Quando terminou, percebeu que Dante a observava.
— O quê?
— Você está feliz.
— Minha coleção foi aprovada.
— Eu sabia que seria.
— Desde quando você acredita no meu trabalho?
— Desde que você desenhou uma tartaruga perfeita no meu carro.
Ela sorriu. Dante afastou uma mecha de cabelo de seu rosto. O gesto foi lento, íntimo e perigoso.
Valentina não recuou.
Theo espirrou no meio dos dois.
Ambos se afastaram.
— Seu filho tem um senso de oportunidade terrível — murmurou Dante.
— Nosso filho.
Foi a primeira vez que ela disse aquelas palavras sem raiva.
Na manhã seguinte, Valentina encontrou Dante tentando pentear os cabelos de Theo. Ele segurava o pente como se fosse uma ferramenta desconhecida, e o menino fugia a cada tentativa.
— Fique parado — ordenou Dante.
— Não.
— São três movimentos.
— Não!
Valentina encostou-se à porta.
— Quer ajuda?
— Não.
— Vocês combinam.
Dante conseguiu passar o pente, mas os cachos voltaram imediatamente ao lugar. Tentou água. Depois creme. O resultado foi uma mecha rígida apontando para cima.
Theo correu até o espelho e arregalou os olhos.
— Feio.
— Está apresentável — afirmou Dante.
— Parece uma antena — disse Valentina.
Ela sentou Theo sobre a bancada, molhou os dedos e arrumou os cachos com facilidade. Dante observou cada movimento.
— Você poderia ter explicado antes.
— Você poderia ter pedido.
— Pedi ajuda no banho.
— Depois de inundar o banheiro.
Theo apontou para os cabelos do pai.
— Papá também.
Valentina passou creme numa mecha de Dante e levantou-a. Theo gargalhou. Dante olhou o próprio reflexo, depois os dois rostos felizes ao lado do seu.
— Esta fotografia não sai deste quarto.
Valentina já estava com o telefone na mão.
À tarde, Dante levou Theo a um parque perto do hotel. Dispensou os seguranças para o outro lado do portão e sentou-se na areia, ainda usando camisa social. Theo lhe entregou um balde.
— Castelo.
— Não sei construir castelos.
— Papá faz.
Dante tentou. A primeira torre desmoronou. A segunda ficou torta. Na terceira, usou o cartão de crédito para alisar as paredes.
Valentina chegou do trabalho e o encontrou ajoelhado na areia, discutindo com uma criança de um ano sobre engenharia.
— A base precisa ser maior — dizia ele.
Theo esmagou a construção com o pé.
— Quebrou.
— Isso foi intencional.
— Ele é o cliente — lembrou Valentina. — Pode reprovar o projeto.
Dante puxou-a pela mão. Ela caiu sentada na areia.
— Agora você participa.
Os três construíram uma quarta torre. Theo também a destruiu, mas, dessa vez, Dante riu antes de começar de novo.
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