"O Chefe da Máfia Que Virou Babá do “Filho” de Sua Maior Inimiga" Capítulo 3 — A Dona da Casa Que Ainda Não Morava Ali
No quarto dia, Valentina recebeu uma fotografia que fez seu pincel parar no ar.
Dante estava dormindo no sofá do escritório, de camisa preta e mangas dobradas. Theo dormia sobre seu peito, abraçado ao urso velho. Uma das mãos grandes de Dante protegia as costas do menino; a outra segurava, ainda aberto, o livro do dragão.
Rosa escrevera: “Os dois resistiram à soneca. Os dois perderam.”
Valentina ampliou a imagem.
Durante a gravidez, imaginara Dante como pai muitas vezes. Em algumas versões, ele era distante. Em outras, tentava controlar tudo. Nunca o imaginara com uma meia infantil presa ao ombro e um adesivo de estrela colado na testa.
Ela salvou a fotografia antes de responder: “Não conte que achei bonito.”
Em São Paulo, Dante acordou com Theo puxando seu nariz.
— Papá. Fome.
— Você comeu há duas horas.
— Fome.
Dante verificou o relógio. O menino tinha razão. Ele passou a reconhecer o horário das refeições sem consultar o manual, fato que lhe produzia um orgulho ridículo.
Na cozinha, Theo apontou para uma fotografia presa à geladeira. Valentina aparecia grávida, segurando uma caixa de tinta diante do antigo apartamento.
— Mamãe.
— Sua mãe colocou isso aqui?
Rosa respondeu:
— O senhor colocou ontem.
Dante não gostou do tom divertido da governanta.
Preparou mingau de aveia com banana. Theo comeu sentado na bancada, balançando os pés. Quando uma gota caiu em sua camiseta, Dante limpou antes que o menino percebesse.
— Hoje vamos ao mercado — anunciou.
O manual dizia que Theo precisava de fraldas, creme e frutas. Dante poderia mandar alguém comprar, mas a conversa com Valentina ainda ecoava. Dinheiro não acordava às três da manhã. Dinheiro também não sabia qual fruta o filho escolhia.
Rafael organizou quatro carros e oito seguranças.
— Cancele — ordenou Dante.
— A saída?
— O exército. Um carro. Você dirige.
No supermercado dos Jardins, Dante empurrou o carrinho enquanto Theo ocupava o assento infantil. O menino apontava para tudo.
— Esse.
— Não.
— Esse.
— Também não.
— Esse!
— Você não precisa de três caixas de biscoito em formato de dinossauro.
Theo fez beicinho.
Dante colocou quatro caixas no carrinho.
Na seção de fraldas, encontrou uma parede inteira de tamanhos e marcas. Ligou para Valentina por vídeo.
Ela atendeu usando uma camiseta larga, cabelos presos e uma mancha azul no rosto.
— Aconteceu alguma coisa?
— Existem vinte e sete tipos de fralda.
Valentina ficou em silêncio.
— Você me ligou durante uma reunião editorial para perguntar sobre fraldas?
— Qual ele usa?
— Está escrito no manual.
— O manual ficou no carro.
— Então escolha pelo peso.
Dante leu as embalagens.
— Há sobreposição de categorias. Esse sistema é incompetente.
Valentina começou a rir. Theo viu a mãe na tela e gritou.
— Mamãe!
Dante entregou o telefone ao filho. Enquanto os dois conversavam, ele colocou uma embalagem de cada marca no carrinho.
— Você não vai comprar todas — disse Valentina.
— Vou testar.
— Dante, são fraldas, não carros blindados.
— Exatamente. Carros blindados têm padrões claros.
Uma senhora que passava reconheceu Dante, observou o carrinho cheio e sorriu.
— Primeiro filho?
— É tão óbvio?
— Só pais de primeira viagem compram doze cremes para assadura.
Ela recomendou um. Dante retirou os outros onze.
— Obrigado.
Rafael quase deixou cair as chaves. Nunca o ouvira agradecer a um desconhecido.
Na saída, Theo viu um carrinho infantil em formato de carro e recusou-se a ir embora sem entrar. Dante, que tinha uma reunião marcada, passou vinte minutos empurrando o brinquedo pelo estacionamento.
Uma adolescente fotografou os dois. Naquela tarde, a imagem circulou nas redes: “Dante Montenegro trocou o comboio blindado por um carrinho vermelho.”
Valentina viu a publicação e ligou.
— Você virou notícia.
— Processarei quem publicou.
— Não processe. Theo está feliz.
Dante olhou para o filho, que espalhava blocos no tapete.
— Ele escolheu tomates.
— Theo odeia tomate.
— Hoje comeu dois.
— Porque você comeu com ele.
A simplicidade da explicação o atingiu. Theo não precisava somente de comida, brinquedos ou proteção. Precisava observar alguém ficar.
— Quando você volta? — perguntou Dante.
— Daqui a vinte e seis dias.
— Eu sei contar.
— Então por que perguntou?
Ele desviou.
— Theo sente sua falta.
— Só ele?
Dante encerrou a ligação.
Naquela noite, uma tempestade caiu sobre São Paulo. Theo acordou com o primeiro trovão e correu para o corredor, chorando. Dante o encontrou abraçado ao urso.
— Mamãe!
— Ela não está aqui.
O menino chorou mais alto.
Dante se ajoelhou e abriu os braços.
— Mas eu estou.
Theo hesitou, depois se lançou contra ele.
Dante o levou para o escritório. Os relâmpagos iluminavam as janelas. Theo tremia a cada trovão.
— Sua mãe também tinha medo de tempestade — contou Dante. — Quando éramos crianças, ela entrava pela janela do meu quarto e dizia que estava ali para me proteger.
— Mamãe forte.
— Sempre foi. Uma vez quebrou meu nariz com uma bola.
Theo riu entre as lágrimas.
Dante mostrou fotografias antigas: Valentina com tranças; Valentina coberta de lama; os dois brigando por um troféu escolar; Valentina sentada sobre o capô pintado com a tartaruga.
— Papá bravo.
— Eu era.
— Mamãe bonita.
— Também era. Continua sendo.
Quando a tempestade diminuiu, Theo adormeceu. Dante gravou uma mensagem de voz para Valentina, mas apagou. Gravou outra.
“Ele sentiu sua falta durante a tempestade.”
Apagou novamente.
Por fim, escreveu: “Está tudo bem.”
Valentina respondeu imediatamente: “Você ficou com ele?”
“A noite inteira.”
“Obrigada.”
Dante permaneceu olhando para a palavra. Valentina raramente lhe agradecia porque ele raramente fazia algo que não pudesse ser pago.
Na manhã seguinte, Theo acordou cedo e encontrou uma mala pequena no closet. Começou a colocar dentro dela o urso, duas camisetas e um sapato.
— O que está fazendo? — perguntou Dante.
— Mamãe.
— Quer ir atrás dela?
Theo assentiu.
Dante sentou-se no chão.
— Eu também.
O menino ofereceu a ele o outro sapato.
Dante segurou o objeto minúsculo e tomou uma decisão pouco racional.
Duas horas depois, Valentina saiu do estúdio em Recife e encontrou um carro preto parado na calçada. Dante estava encostado na porta, com Theo no colo, uma mochila infantil no ombro e o urso preso debaixo do braço.
— O que vocês estão fazendo aqui?
Theo estendeu os braços.
— Mamãe!
Dante entregou o menino a ela.
— Ele fez a mala.
— Você trouxe uma criança de avião porque ela colocou um sapato numa mala?
— Havia dois sapatos. O plano estava avançado.
Valentina apertou Theo contra o peito, rindo e chorando ao mesmo tempo.
Dante observou os dois. A resposta para a pergunta que evitara durante anos tornou-se simples: ele não queria apenas visitar aquela família.
Queria pertencer a ela.
No carro, a caminho do hotel, Theo segurou uma mão de cada um. Valentina tentou soltá-la para ajeitar a bolsa, mas o menino protestou.
— Junto.
Dante olhou pela janela para esconder o sorriso. Valentina percebeu.
— Não se acostume.
— Tarde demais.
Theo encostou a cabeça no braço da mãe, ainda segurando o pai. Pela primeira vez, nenhum dos dois discutiu durante um trajeto inteiro.
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