"O Chefe da Máfia Que Virou Babá do “Filho” de Sua Maior Inimiga" Capítulo 1 — Trinta Dias com o Pequeno Montenegro
O silêncio da sala de reuniões terminou quando as portas se abriram e um carrinho de bebê atravessou o mármore como se estivesse invadindo território inimigo.
Dante Montenegro interrompeu a frase no meio.
Doze homens de terno olharam para a entrada. Nenhum deles costumava chegar atrasado, respirar alto ou mover uma cadeira sem autorização. Naquela manhã, porém, Valentina Rocha entrou usando jeans, tênis brancos e a expressão determinada que Dante conhecia desde os seis anos de idade.
Ela empurrava uma mala azul com uma mão e o carrinho com a outra.
Theo, de um ano e meio, estava sentado ali dentro, segurando uma banana amassada. Tinha os mesmos cabelos negros e ondulados de Dante, os mesmos olhos verdes e a mesma maneira desconfiada de observar uma sala inteira antes de decidir quem merecia atenção.
— Esta reunião é particular — disse Dante.
— Ótimo. O assunto também é.
Valentina soltou o cinto do carrinho, pegou Theo e o colocou nos braços do pai.
Dante recebeu o menino por puro reflexo. Theo o encarou por dois segundos e apertou a banana contra o peito da camisa italiana de oito mil reais.
Ninguém respirou.
Dante baixou os olhos para a mancha amarela.
Theo sorriu.
— Papá.
O chefe de segurança virou o rosto para esconder uma reação. Dante ergueu os olhos lentamente.
— Todos para fora.
As cadeiras se moveram ao mesmo tempo. Em menos de dez segundos, a sala ficou vazia.
Valentina abriu a mala sobre a mesa. Retirou fraldas, mamadeiras, roupas pequenas, remédios, um urso de pelúcia sem uma orelha e um caderno grosso com a inscrição MANUAL DO THEO.
— Vou para Recife durante trinta dias. Fui contratada para ilustrar uma coleção infantil e preciso trabalhar no estúdio da editora.
— Leve-o.
— Não posso. Serão doze horas por dia e o apartamento oferecido não aceita crianças.
— Contrate uma babá.
— Ele já tem um pai.
Dante ajeitou Theo, pouco acostumado ao peso quente apoiado em seu antebraço.
— Tenho oitenta funcionários nesta propriedade.
— Theo não precisa de oitenta funcionários. Precisa de um pai.
Valentina colocou o manual diante dele.
— Café às sete. Fruta às nove. Almoço às onze e meia. Soneca depois do almoço. Banho às seis. Ele dorme com o urso, não gosta de ervilha e fica agitado se passar muito tempo sem ver alguém conhecido.
— Eu administro empresas em quatro países.
— Parabéns. Agora tente administrar uma colher de papinha.
Dante estreitou os olhos. Durante trinta anos, Valentina fora a única pessoa capaz de transformar uma conversa simples numa declaração de guerra. Aos oito, ela o empurrara dentro de uma piscina porque ele escondera sua bicicleta. Aos dezessete, pintara uma tartaruga no capô do primeiro carro dele. Aos vinte e nove, entrara numa reunião da família Montenegro para anunciar que estava grávida.
O teste positivo ainda parecia uma imagem gravada na memória.
— Seu maior erro está grávido — ela dissera, atirando o objeto sobre os documentos.
Dante respondera que erros podiam ser resolvidos.
Valentina nunca o perdoara por aquelas palavras, embora ele tivesse querido dizer que resolveria tudo para protegê-la. Ela recusara a cobertura, o motorista, a conta bancária e até o berço importado. Aceitara somente que Dante reconhecesse Theo legalmente e o visitasse duas vezes por semana.
Visitas, no entanto, não eram paternidade. Os dois sabiam disso.
— Você planejou isso — Dante acusou.
— Planejei trabalhar. A parte em que você cuida do próprio filho chama-se responsabilidade.
Theo agarrou a gravata do pai e puxou com força.
— Não — disse Dante, soltando os dedos pequenos.
Theo puxou novamente.
— Eu disse não.
O menino franziu o rosto. Os olhos se encheram de lágrimas.
Valentina cruzou os braços.
— Não ouse rir — advertiu Dante.
— Eu não disse nada.
O choro começou baixo e cresceu com impressionante velocidade. Dante tentou devolver Theo à mãe, mas Valentina recuou.
— Resolva.
— Ele quer sua gravata.
— Então talvez sua primeira lição seja decidir se prefere uma gravata ou cinco minutos de paz.
Dante encarou o filho. Theo abriu a boca para aumentar o volume. O pai retirou a gravata e entregou a ele.
O choro cessou imediatamente.
Theo abraçou o tecido como um troféu.
— Manipulador — murmurou Dante.
— Montenegro — corrigiu Valentina.
Ela beijou a testa do menino. Theo percebeu a despedida e estendeu os braços.
— Mamãe.
Valentina hesitou. Por um instante, a firmeza desapareceu. Dante viu culpa em seus olhos e sentiu algo desconfortável apertar seu peito.
— São só trinta dias — ela prometeu ao filho. — E vou ligar todas as noites.
Theo tentou alcançá-la. Dante o segurou com mais firmeza.
— Valentina.
Ela parou na porta.
— Se alguma coisa acontecer...
— Você tem meu número.
— Eu ia dizer que mato você.
Dante quase sorriu.
— Essa ameaça perdeu força quando você me entregou a vítima.
Ela mostrou o dedo médio discretamente, para que Theo não visse, e saiu.
O menino ficou imóvel por três segundos.
Depois começou a berrar.
Dante apertou o botão do interfone.
— Rosa, envie a equipe de babás.
— A senhora Valentina dispensou todas ontem, senhor.
— Então contrate outras.
— Ela deixou uma observação no manual.
Dante abriu o caderno. Na primeira página, em letras grandes, estava escrito: “SEM BABÁS. VOCÊ PROMETEU TENTAR.”
Ele não se lembrava de ter prometido. Lembrava-se de Valentina ter perguntado se ele era capaz de passar um único dia sozinho com o filho, e de ter respondido que poderia passar um mês.
Maldita arrogância.
Theo se contorceu, desceu de seus braços e correu com passos inseguros ao redor da mesa. Dante o seguiu. O menino passou por baixo de uma cadeira. Dante contornou-a. Theo riu pela primeira vez.
— Pare agora.
Theo acelerou.
Dante, que comandava centenas de homens, levou sete minutos para capturar uma criança de pernas curtas.
Quando finalmente o ergueu, sentiu um cheiro suspeito.
Abriu o manual.
“Se ele ficar quieto de repente, verifique a fralda.”
Theo sorriu novamente.
Quinze minutos depois, Dante estava diante de uma fralda aberta sobre a mesa de reuniões. Usava luvas de couro pretas e observava o problema como se fosse um artefato explosivo.
Chamou Rafael, seu chefe de segurança.
O homem entrou e parou a três metros.
— O que houve?
— Descubra qual é a frente.
Rafael analisou a fralda.
— O senhor quer que eu interrogue o fabricante?
— Quero que me diga como se coloca isso.
Rafael ficou em silêncio.
— O senhor matou a única pessoa que podia responder?
Dante lançou-lhe um olhar mortal.
Meia hora, três fraldas e uma camisa arruinada depois, Theo estava limpo. Dante também precisou trocar de roupa.
Ao meio-dia, o cozinheiro serviu risoto de cogumelos. Theo jogou a colher no chão.
— Ele não gosta de cogumelos — informou Dante após consultar o caderno.
O cozinheiro preparou purê de batata. Theo recusou.
Preparou frango. Theo fechou a boca.
Dante sentou-se diante dele.
— Você vai comer.
Theo cruzou os braços.
— Não.
— Esta palavra é usada com frequência excessiva nesta família.
— Não.
Depois de vinte minutos, Dante experimentou a papinha, fez uma careta e dispensou o cozinheiro.
— Está sem gosto — declarou.
— Crianças não podem comer sal demais — explicou Rosa.
— Nem por isso precisam perder a vontade de viver.
Ele foi para a cozinha. Preparou ovos mexidos macios, cortou tomate em pedaços pequenos e consultou o manual seis vezes. Theo comeu metade e ofereceu a última colher ao pai.
Dante aceitou.
Às duas, o menino adormeceu em seu peito no sofá do escritório. Dante tentou transferi-lo para o berço. Theo acordou. Tentou novamente. Theo chorou.
Na terceira tentativa, desistiu.
Rafael apareceu à porta com documentos urgentes.
— Fale baixo — ordenou Dante.
— Os representantes de Santos estão esperando.
— Que esperem.
— Há quarenta minutos.
Dante olhou para a cabeça pequena encostada em seu coração.
— Eles podem esperar mais uma hora.
Naquela noite, Valentina ligou por vídeo. Dante apareceu com os cabelos desalinhados, a camisa aberta no pescoço e uma mancha de leite no ombro.
— Como foi? — perguntou ela, contendo o sorriso.
— Perfeitamente controlado.
Atrás dele, Theo atravessou o quarto usando somente uma meia, carregando o telefone particular do pai e gritando:
— Meu!
Valentina começou a rir.
Dante fechou os olhos.
Ainda faltavam vinte e nove dias.
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