"O "Sequestrador" de Quatro Anos Que Chantageou o Chefe da Máfia" Capítulo 4 — Gostou da Minha Obra?
O restaurante estava fechado, mas cheirava a café fresco e pão de queijo.
Dante ocupou a mesa central como se presidisse uma reunião de guerra. Rafael posicionou homens nas entradas. Nina colocou Gael sobre o balcão e limpou um corte em seu joelho.
“Eu disse para não sair sozinho”, falou ela.
“Atlas e Pixel estavam comigo.”
“Robôs não substituem adultos.”
Gael apontou para Dante.
“Ele também não.”
Dante apoiou os cotovelos na mesa.
“Explique o depósito.”
Nina beijou o joelho do filho, colocou um curativo de dinossauro e só então respondeu.
“Valença infiltrou um lote no seu arsenal. Componentes rastreados, documentos falsos e armas destinadas a um atentado. Quando a polícia encontrasse tudo, você assumiria a culpa.”
“E você denunciou antes.”
“Redirecionei a operação para um depósito vazio e enviei as provas da adulteração. Sua imagem pública sobreviveu. De nada.”
Rafael recebeu confirmação: a investigação encontrara caixas com selos da empresa Valença e nenhuma arma ilegal dos Montenegro.
Dante observou Nina com atenção renovada.
“Você planejou o sequestro, a denúncia e a fuga.”
“Eu planejei proteger meu filho. O sequestro foi iniciativa criativa dele.”
Gael ergueu o queixo.
“Gostou da minha obra?”
Dante fitou o garoto. A pergunta podia se referir à invasão, aos robôs ou ao próprio menino. Nina compreendeu o duplo sentido e ficou tensa.
“É eficiente”, respondeu Dante.
O sorriso de Gael desapareceu.
“Só isso?”
Dante percebeu tarde demais que havia respondido como chefe, não como pai.
Nina desceu o menino do balcão.
“Vá lavar as mãos.”
Quando ele saiu, ela se aproximou de Dante.
“Você não está avaliando uma arma.”
“Não sei o que ele espera.”
“Quatro palavras que custam menos que cinquenta bilhões: estou feliz que exista.”
“Você não pode me ensinar a falar com um filho que escondeu por quatro anos.”
“Posso, porque fui eu quem falou com ele em todas as noites em que perguntou por que não tinha pai.”
A culpa chegou como raiva. Era mais fácil assim.
“Você roubou uma escolha minha.”
“E eu assumirei essa culpa. Mas não despeje em Gael a conta dos meus erros.”
Dante levantou. Era muito mais alto, mais rico e mais temido. Nina sustentou o olhar como se nada disso tivesse valor dentro daquele restaurante modesto.
“Vou levar vocês para um lugar seguro.”
“Seu império está infiltrado.”
“Meu nome ainda protege.”
“Foi seu nome que trouxe Valença até nós.”
O retorno de Gael interrompeu o confronto. Ele carregava três pratos de brigadeiro e colocou o menor diante de Dante.
“É o de teste. Se você morrer, não comemos os outros.”
Dante comeu um doce.
“Muito açúcar.”
“Reprovado de novo”, declarou Gael.
Um disparo atingiu a janela.
Dante derrubou Nina e Gael atrás do balcão antes que o vidro explodisse. Rafael respondeu ao fogo. Os clientes não estavam ali, mas duas funcionárias escondiam-se na cozinha.
“Saída dos fundos”, disse Nina.
“Já devem estar esperando”, respondeu Dante.
Gael abriu o notebook.
“Tem quatro carros. Dois atrás, dois na frente.”
“Como sabe?”
“Câmeras de trânsito.”
Dante tirou uma arma do tornozelo e a entregou a Nina.
“Sabe usar?”
Ela verificou o carregador com destreza.
“Melhor que você imagina.”
Os olhos dele estreitaram.
“Depois conversamos sobre isso.”
“Se sobrevivermos.”
Nina conduziu as funcionárias por uma passagem até o prédio vizinho. Dante cobriu a saída. Gael recusou-se a abandonar os robôs, então Rafael carregou Atlas debaixo de um braço e o menino do outro.
No corredor dos fundos, um atirador apareceu.
Nina acertou a lâmpada acima dele. A escuridão deu a Dante o segundo necessário para derrubá-lo sem matar. Quando a luz de emergência acendeu, ele percebeu que ela calculara o ângulo para evitar a cozinha.
“Você errou de propósito.”
“Eu não erro.”
Chegaram a uma lavanderia. Gael acessou o painel elétrico e fechou as portas corta-fogo, prendendo os perseguidores.
Do lado de fora, um caminhão de entregas aguardava. Nina pegou a chave escondida sob o para-choque.
“Você tinha uma rota pronta”, disse Dante.
“Tenho sete.”
“Há quanto tempo vive assim?”
“Desde que descobri que Valença ainda caçava as crianças tratadas pela minha pesquisa.”
No caminhão, Gael adormeceu encostado em Atlas. A coragem havia consumido toda a energia que os morangos não repuseram.
Dante sentou-se diante de Nina.
“Conte tudo.”
Ela explicou que César Valença financiara o laboratório não para curar doenças, mas para selecionar características genéticas em herdeiros de famílias poderosas. Quando Nina descobriu, copiou os registros e destruiu as amostras. Sua própria gravidez fora a única experiência concluída fora do controle dele.
“Gael não é apenas seu filho”, disse ela. “É a prova viva de que os dados funcionam.”
“Por isso Valença o quer.”
“Para replicar o processo. Ou apagar a prova.”
Dante olhou para a criança dormindo.
“Ninguém vai tocá-lo.”
“Você promete coisas como se o mundo obedecesse.”
“Meu mundo obedece.”
“Seu depósito acabou de ser invadido.”
Ele se inclinou.
“Então me ajude a reconstruí-lo.”
Nina riu sem alegria.
“Você realmente acredita que pode comprar qualquer solução.”
“Não falei em dinheiro.”
“Falou em controle.”
Gael se mexeu durante o sono e chamou pela mãe. Nina segurou sua mão. Dante observou a intimidade simples entre os dois e sentiu algo próximo de inveja.
O caminhão parou em uma oficina abandonada. Ali havia servidores, ferramentas e um quarto infantil improvisado.
Nina abriu um cofre no chão e retirou um disco rígido.
“Aqui estão os nomes dos investidores do Projeto Herdeiro.”
Dante conectou o disco. Uma lista apareceu: empresários, políticos, médicos e comandantes de organizações criminosas.
No topo estava César Valença.
Logo abaixo, porém, havia outro nome.
Augusto Montenegro.
O tio que criara Dante depois da morte de seu pai. O homem que lhe ensinara a atirar, negociar e jamais confiar completamente em ninguém.
“Isso é falso”, disse Dante.
“Eu desejaria que fosse.”
Nina abriu um vídeo datado de cinco anos antes. Augusto aparecia entregando a César uma caixa refrigerada.
“O que há ali?”
“Sua amostra genética original.”
Dante viu o tio apertar a mão de Valença.
Então ouviu a frase captada pelo microfone:
“Quando o menino nascer, será propriedade dos Montenegro.”
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