"O "Sequestrador" de Quatro Anos Que Chantageou o Chefe da Máfia" Capítulo 3 — A Conta de Cinquenta Bilhões
Dante reconheceu a voz antes de reconhecer o ódio.
Quatro anos atrás, Nina Carvalho falava com leveza, mesmo quando corrigia homens que recebiam cem vezes o salário dela. Agora, cada palavra vinha polida e fria.
“Você está viva”, disse ele.
“Sua capacidade de observação continua decepcionante.”
Gael sentou-se sobre uma caixa, satisfeito com o reencontro.
“Eu disse que ele era lento, mãe.”
“Seja educado.”
“Desculpa. Senhor lento.”
Dante ignorou a provocação.
“Onde você está?”
“Trabalhando.”
Ao fundo, pratos batiam e alguém pedia duas feijoadas. Nina realmente atendia mesas enquanto mantinha o maior chefe criminoso do país preso em um galpão.
“Venha buscar seu filho.”
“Ele foi sem minha autorização.”
Gael desviou o olhar.
“Mas não sem meu treinamento”, continuou ela. “Por isso você ainda respira.”
Dante aproximou o rosto da câmera.
“Você usou meu material genético.”
“Usei uma amostra que seria descartada.”
“Sem consentimento.”
“Quer discutir ética, Dante? Posso abrir o inventário do depósito dezenove.”
Rafael fez um gesto discreto: estavam rastreando a chamada. Gael percebeu e tocou o relógio. O tablet de Rafael apagou.
“Não trapaceia”, advertiu o menino.
Dante cruzou os braços.
“Por que eu?”
Nina ficou alguns segundos em silêncio.
“Porque eu precisava salvar uma vida.”
Ela contou apenas o necessário. Aos vinte e quatro anos, trabalhava como auxiliar de limpeza em uma clínica de reprodução humana pertencente ao grupo Valença. À noite, concluía pesquisas abandonadas sobre uma mutação mitocondrial que matara sua irmã mais nova.
Um embrião compatível poderia permitir o desenvolvimento de uma terapia. O banco genético da clínica continha amostras colhidas ilegalmente de homens influentes. A de Dante apresentava o único marcador capaz de neutralizar a mutação.
“Então meu filho nasceu como experimento?” perguntou Dante.
Gael ficou imóvel.
Nina largou a bandeja fora da imagem.
“Ele nasceu porque eu o quis. A pesquisa me mostrou uma possibilidade. Eu escolhi ser mãe. Não confunda a origem com o amor.”
“Você decidiu por mim.”
“Sim.”
Ela não pediu desculpas. Isso o enfureceu mais do que qualquer justificativa.
“E o que curou?”
“A doença que ele poderia herdar. Depois usei os dados para ajudar outras onze crianças, gratuitamente.”
“Com dinheiro de quem?”
“Meu.”
“Você serve mesas.”
“E desenvolvo sistemas à noite. Nem todo mundo precisa roubar portos para pagar boletos.”
Rafael baixou a cabeça.
Dante encarou o número da cobrança projetado na parede.
“Você quer cinquenta bilhões?”
“Quero que olhe para a conta.”
Ele percebeu então que cada valor continha casas decimais específicas. Juntos, formavam blocos de números. Coordenadas, datas e senhas.
Gael sorriu.
“É um mapa.”
Dante aproximou-se da projeção. As despesas falsas apontavam para remessas realizadas por empresas de César Valença. Cinquenta bilhões de reais haviam circulado por fundações médicas, clínicas e contratos militares nos últimos quatro anos.
“Valença”, murmurou.
Nina assentiu.
“Ele soube que eu levei os dados da clínica. Há um mês, descobriu Gael.”
“Por que não veio antes?”
“Porque homens como vocês chamam posse de proteção.”
Dante olhou para o menino.
“Ele é meu filho.”
“Ele é uma pessoa. Não uma extensão do seu nome.”
O telefone de Rafael vibrou novamente. Desta vez, a mensagem vinha de Bianca Montenegro: homens armados haviam sido vistos perto da casa dela. Era uma distração óbvia, mas indicava que Valença sabia que Dante desaparecera.
Dante deu uma ordem rápida para reforçar todos os pontos.
Nina ouviu.
“Você continua tentando resolver tudo com soldados.”
“Soldados funcionam.”
“Até alguém pagar mais.”
Uma explosão sacudiu o galpão.
As janelas estouraram. Rafael jogou Dante contra a parede enquanto seus homens formavam um escudo. Gael caiu atrás de uma caixa. Atlas rolou sobre ele, abrindo uma placa protetora.
“Gael!” gritou Nina pelo monitor.
Dante atravessou a fumaça antes de qualquer segurança. Encontrou o menino inteiro, mas atordoado. Pegou-o no colo.
Gael reagiu imediatamente.
“Me põe no chão!”
“Fique quieto.”
“Eu tenho um plano.”
“Você tem quinze quilos.”
Tiros atingiram a porta. Os homens de Rafael responderam. Nina apareceu nos monitores de emergência e transmitiu a planta do galpão.
“Saída oeste”, ordenou. “Há um túnel de drenagem atrás da parede azul.”
Dante correu levando Gael. O garoto se agarrou ao seu pescoço contra a vontade. Pixel seguiu, enquanto Atlas cobria a retaguarda com fumaça.
Na parede azul, Dante encontrou uma chapa soldada.
“Não abre.”
“À direita”, disse Nina. “Três centímetros acima do chão.”
Ele pressionou um ponto oculto. A chapa se soltou.
“Como conhece este galpão?”
“Eu o escolhi.”
“Para seu filho me sequestrar?”
“Para ele brincar de sequestrar você em segurança.”
Gael protestou:
“Não era brincadeira.”
Outra explosão abafou a resposta.
O grupo entrou no túnel. A água chegava aos tornozelos. Dante colocou Gael sobre os ombros e avançou no escuro.
“Seu cabelo é duro”, reclamou o menino.
“Minha cabeça acabou de salvar a sua.”
“Mamãe teria usado capacete.”
Mesmo sob ataque, Dante sentiu vontade de rir.
Quando chegaram à saída, um carro blindado os esperava. Nina controlava o veículo remotamente. As portas abriram sozinhas.
Dante colocou Gael no banco e entrou.
“Destino?” perguntou o sistema.
“Minha mansão.”
“Negado”, respondeu a voz de Nina.
“Hospital particular.”
“Negado.”
Gael ergueu a mão.
“Minha casa.”
“Destino aceito.”
O carro acelerou.
Dante tentou assumir os controles, sem sucesso. Viu pelo retrovisor os homens de Valença surgindo na estrada.
“Nina, libere a direção.”
“Diga por favor.”
“Não.”
Um utilitário se aproximou e bateu na traseira.
“Diga”, insistiu Gael.
“Nunca.”
Outro impacto.
Dante cerrou os dentes.
“Por favor.”
O painel se iluminou. Ele assumiu o volante, girou o carro e forçou o perseguidor contra uma barreira sem atingir motoristas civis. Gael vibrou no banco.
“De novo!”
“Não é brinquedo.”
“Foi melhor que parque.”
Nina orientou a fuga por ruas secundárias até os perseguidores desaparecerem. Por fim, o carro parou diante de um pequeno restaurante na Vila Mariana.
Nina surgiu na porta ainda usando avental. Era mais bonita do que Dante lembrava e muito mais perigosa.
Gael saltou do carro e correu para ela.
“Mãe!”
Nina o abraçou, verificou sua cabeça, braços e pernas. Depois ergueu os olhos para Dante.
Ele saiu do veículo cercado por Rafael e seus homens.
“Você colocou meu filho em risco”, acusou.
“Nosso filho colocou você em risco”, corrigiu ela. “Valença colocou todos nós.”
Dante avançou.
Nina não recuou.
“A partir de agora, vocês ficam sob minha proteção.”
“Não.”
“Não estou negociando.”
Ela sorriu, iluminada e insolente.
“Nem eu.”
Então entregou a ele um tablet. Na tela, uma transmissão mostrava o depósito dezenove cercado por viaturas federais.
“Enquanto você brincava de pai”, disse Nina, “eu acabei de tomar seu arsenal.”
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