"O "Sequestrador" de Quatro Anos Que Chantageou o Chefe da Máfia" Capítulo 2 — O Filho Que Invadiu Seu Império
O alarme do galpão começou a tocar às 6h17.
Gael olhou para o relógio e suspirou como um executivo diante de funcionários atrasados.
“Seus homens demoraram nove minutos mais do que eu calculei.”
Do lado de fora, motores cercavam o prédio. Pontos vermelhos de mira atravessaram as janelas altas. Dante identificou o padrão de entrada da própria equipe: dois grupos pelas laterais, um pelo teto e Rafael Moura comandando a porta principal.
“Acabou a brincadeira”, disse Dante.
“Ainda nem começou.”
Gael abriu a mochila e tirou uma marmita com morangos cortados em formato de estrela.
“Você vai comer agora?”
“Mamãe diz que decisões ruins acontecem quando a glicose cai.”
A porta explodiu para dentro.
Rafael entrou com seis homens armados. Alto, negro e largo como a própria porta, ele apontou a pistola para todos os cantos até encontrar Dante sem uma das abraçadeiras e Gael mastigando um morango.
“Chefe?”
“Abaixe a arma.”
“O sequestrador…”
“Tem quatro anos”, concluiu Dante.
Gael ergueu quatro dedos.
“Quatro anos, três meses e onze dias. Precisão importa.”
Rafael não baixou a arma.
O robô Atlas girou uma pequena torre em sua direção. Dante reconheceu o brilho de um sensor infravermelho.
“Eu disse para abaixar.”
Rafael obedeceu, confuso.
Gael apertou o relógio. Os celulares de todos os seguranças tocaram ao mesmo tempo. Nas telas surgiram vídeos deles chegando ao galpão, acompanhados por nomes completos, endereços e fotografias de familiares.
“Se alguém apontar uma arma para mim outra vez”, explicou o menino, “as provas de dezenove operações ilegais dos Montenegro serão enviadas às autoridades.”
Um dos homens deu um passo.
Dante o conteve com o olhar.
“Como entrou nos nossos servidores?”, perguntou Rafael.
“A senha do senhor era o nome da sua mãe mais o ano de nascimento.”
Rafael pareceu pessoalmente ofendido.
“Não era.”
“Era sim, senhor Rafael. Troquei para uma mais segura. Depois eu mando.”
Dante estendeu a mão livre.
“Corte o resto.”
Rafael se aproximou. Antes que tocasse na abraçadeira, Pixel projetou uma contagem regressiva de dez segundos.
“Não recomendo”, disse Gael.
“O que acontece no zero?”
“Ainda estou escolhendo.”
Dante soltou uma risada curta. Rafael e os homens ficaram imóveis. Ninguém na organização ouvia aquele som havia anos.
“Você invadiu minha sede, derrubou minha segurança e me trouxe para cá”, disse Dante. “Para cobrar pensão?”
“Não é pensão. É reparação histórica.”
“Cinquenta bilhões?”
“Arredondei para facilitar.”
Gael abriu uma apresentação colorida. Cada slide mostrava uma despesa da infância: leite, fraldas, escola, vacinas. Depois vinham itens menos convencionais: treinamento de programação, componentes eletrônicos, segurança residencial e “compensação materna por noites sem dormir”.
“Sua mãe escreveu isso?”
“Eu fiz as contas. Ela disse que cinquenta bilhões era exagero.”
“Finalmente algo sensato.”
“Ela sugeriu cinquenta e dois.”
Rafael virou o rosto para esconder o sorriso.
Dante o fulminou com os olhos.
“Quero falar com Nina.”
Gael tocou o fone.
“Ainda não.”
“Por quê?”
“Porque você precisa cumprir a etapa dois.”
Uma porta lateral se abriu. No cômodo seguinte havia uma mesa infantil, duas cadeiras pequenas, folhas de papel e lápis de cor.
“Não vou sentar ali.”
“Então não vai sair.”
Dante olhou para Rafael.
“Desative o sistema.”
“Ele bloqueou nossa rede e assumiu os drones”, respondeu o chefe de segurança. “Também enviou uma mensagem dizendo que meu corte de cabelo me deixa com aparência de vilão secundário.”
“Foi uma observação construtiva”, disse Gael.
Dante entrou no cômodo. Sentou-se na cadeira minúscula, com os joelhos quase na altura do peito. Seus homens ficaram do lado de fora, esforçando-se para não encarar.
Gael colocou uma folha diante dele.
“Desenhe sua família.”
“Isto é ridículo.”
“Resistência emocional anotada.”
Dante pegou o lápis preto. Desenhou três círculos: ele, a irmã Bianca e a mãe falecida. Após alguns segundos, acrescentou Rafael a uma distância maior.
Gael estudou a folha.
“Todo mundo está longe de você.”
“É só um desenho.”
“Você também não desenhou mãos.”
“Porque não sei desenhar.”
“Porque não sabe segurar ninguém.”
A frase atingiu Dante com força inesperada.
Gael pegou um lápis amarelo e desenhou Nina com um sorriso enorme. Depois, a si mesmo segurando a mão dela. Acrescentou duas casas, um sol e os robôs.
“Você não está aqui”, disse Dante.
“Porque minha família já está completa.”
“Então por que veio me procurar?”
O menino parou de colorir.
“Porque alguém tentou invadir nossa casa três vezes neste mês. Mamãe não dorme mais. Ela diz que resolve tudo, mas começou a colocar uma cadeira contra a porta.”
Dante endireitou o corpo.
“Quem?”
“Não sei. Por isso peguei você.”
“Você me sequestrou para pedir proteção.”
“Não. Se pedisse, você pensaria que estava salvando a gente. Eu precisava mostrar que também podemos destruir você.”
Dante examinou o rosto do filho. A insolência era uma armadura. Debaixo dela havia uma criança que vira a mãe com medo e decidira enfrentar o homem mais perigoso que conhecia.
“Onde vocês moram?”
“Informação confidencial.”
“Se há uma ameaça, preciso saber.”
“Primeiro o DNA.”
Gael abriu um estojo lacrado com dois cotonetes. Rafael verificou o material e confirmou que parecia legítimo. Dante permitiu que o menino coletasse a amostra de sua boca. Gael fez o mesmo.
Pixel analisou os tubos em um módulo portátil.
“Isso não substitui um laboratório”, disse Dante.
“Eu construí o laboratório.”
“Com quatro anos?”
“Três e meio. Aos quatro eu melhorei.”
Enquanto o resultado processava, Dante pediu seu telefone. Gael devolveu, mas a tela mostrava apenas um aplicativo com rosto sorridente e a frase MODO PAPAI SUPERVISIONADO.
“Você bloqueou meu aparelho.”
“Controle parental.”
Dante tentou acessar mensagens. Um aviso apareceu: TEMPO DE TELA ESGOTADO.
Rafael tossiu para disfarçar outra risada.
“Vou demitir você.”
“Antes ou depois de pedir ajuda ao seu filho?”
O módulo apitou.
Gael correu até a tela, mas parou antes de tocar. Por um instante, ele pareceu exatamente o que era: uma criança esperando saber se pertencia a alguém.
Dante se aproximou.
O resultado apareceu.
Probabilidade de paternidade: 99,9998%.
Rafael prendeu a respiração.
Gael leu duas vezes. Seus olhos brilharam, mas ele ergueu o queixo.
“Parabéns. Sua genética passou no teste.”
Dante não respondeu. A realidade reorganizou quatro anos de sua vida. Nina não roubara apenas sangue. Criara uma criança. Seu filho. E alguém agora caçava os dois.
“Você vem comigo”, decidiu.
“Não.”
“Não foi uma pergunta.”
Gael apertou um botão e as portas do galpão se abriram. Do lado de fora, todos os carros de Dante ligaram sozinhos. Os rádios repetiram a mesma voz feminina sintetizada:
PROTOCOLO MÃE ATIVADO.
O rosto de Nina surgiu em todos os monitores.
Ela usava um uniforme de garçonete e segurava uma bandeja, como se aquela conversa ocorresse durante uma pausa comum no trabalho.
“Dante”, disse ela, serena. “Se tentar levar meu filho, em oito minutos o mundo inteiro descobrirá o que existe no seu depósito número dezenove.”
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