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"O "Sequestrador" de Quatro Anos Que Chantageou o Chefe da Máfia" Capítulo 1 — Você Foi Sequestrado, Papai

正文开头

Dante Montenegro acordou com o gosto de sangue na boca e uma voz infantil contando até três.

“Um… dois… dois e meio…”

Ele abriu os olhos.

Uma lâmpada industrial balançava sobre sua cabeça. O galpão cheirava a ferrugem, poeira e chuva antiga. Seus pulsos estavam presos aos braços de uma cadeira de metal por abraçadeiras plásticas.

Aquilo, por si só, já seria suficiente para condenar alguém à morte.

Mas o que estava diante dele era tão absurdo que Dante permaneceu em silêncio.

Um menino de aproximadamente quatro anos usava uma jaqueta amarela, tênis vermelhos e óculos de proteção grandes demais para o rosto. Na mão direita, segurava um minúsculo aparelho de choque. À sua esquerda, um robô sobre rodas apontava uma câmera para Dante. À direita, outro carregava uma prancheta.

“Três”, concluiu o menino. “Acordou. Pixel, registra que o alvo não morreu.”

O robô emitiu um bipe.

Dante testou as amarras sem alterar a expressão.

“Quem mandou você?”

“Ninguém manda em mim.”

“Todo mundo responde a alguém.”

O menino inclinou a cabeça, imitando com perfeição o gesto que Dante usava antes de dar uma ordem.

“Você responde à mamãe. Só ainda não sabe.”

Dante observou as saídas. Porta de aço à frente. Janela alta à esquerda. Nenhum adulto visível. Seu relógio, telefone e arma haviam desaparecido. A lembrança mais recente era a garagem subterrânea do edifício Montenegro, um ruído agudo no sistema de som e uma fumaça branca saindo das saídas de ventilação.

“Tire essas abraçadeiras”, ordenou.

O garoto ergueu o aparelho.

“Não tente bancar o assustador. Eu li seu relatório psicológico. Você usa silêncio, contato visual e frases curtas para controlar pessoas inseguras.”

“E funcionou?”

“Não. Minha autoestima é excelente.”

Dante quase sorriu. Quase.

O robô da prancheta avançou e projetou uma tela sobre uma caixa de madeira. No alto aparecia o logotipo das empresas Montenegro. Abaixo, uma sequência de valores absurdos.

Alimentação: R$ 6,4 milhões.

Educação, saúde, segurança e danos emocionais: R$ 18,6 bilhões.

Juros por abandono involuntário: R$ 31,4 bilhões.

Total: R$ 50 bilhões.

“O que é isso?”

O menino puxou uma folha impressa de dentro da mochila e a bateu contra o peito de Dante.

“Sua conta.”

“Por quê?”

Ele guardou o aparelho de choque no bolso, colocou as duas mãos na cintura e anunciou com voz doce:

“Você foi sequestrado, papai.”

O silêncio no galpão pareceu engolir até o barulho da chuva.

Dante não piscou.

“Repita.”

“Papai. Pai biológico. Doador genético. A parte menos importante do projeto.”

“Qual é o seu nome?”

“Gael Carvalho Montenegro. Mas você ainda não ganhou o direito de usar meu último sobrenome.”

Dante sentiu algo raro: dúvida.

O menino tinha cabelos pretos e ondulados, uma pequena cicatriz na sobrancelha direita e olhos verde-escuros. Os Montenegro costumavam nascer com aquela cor impossível, herdada da avó portuguesa. Dante também tinha uma cicatriz na mesma sobrancelha, resultado de uma queda aos cinco anos.

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Coincidência podia explicar os olhos.

Não explicava a maneira como Gael escondia o polegar quando fechava o punho. Dante fazia o mesmo desde criança.

“Quem é sua mãe?”

“Pergunta número um do questionário paterno.”

O menino pegou a prancheta do robô.

“Você gosta de dinossauros?”

“Não.”

Gael marcou uma opção com expressão decepcionada.

“Sabe fazer panqueca?”

“Tenho cozinheiros.”

“Resposta ruim.”

“Onde estão meus homens?”

“Dormindo em três elevadores diferentes. Sem ferimentos permanentes.”

Dante puxou as abraçadeiras outra vez. A cadeira gemeu.

“Uma criança não invadiu sozinha o prédio mais protegido de São Paulo.”

“Concordo. Por isso levei Atlas e Pixel.”

Os dois robôs acenderam luzes azuis.

Dante encarou a câmera.

“A pessoa que está ouvindo vai morrer.”

Gael deu de ombros.

“Mamãe disse que você ameaçaria alguém antes de pedir água. Errou por quarenta e três segundos.”

O garoto colocou uma garrafinha sobre uma caixa, longe do alcance dele.

“Você envenenou?”

“Não. Você tem alergia a dipirona, camarão e gente incompetente. Eu sei.”

Pela primeira vez, Dante sentiu frio que não vinha do galpão.

Seu prontuário médico era protegido por servidores isolados. Nem ministros conseguiam acessá-lo. A informação sobre a dipirona não aparecia em documentos empresariais.

“De onde tirou meu DNA?”

Gael abriu um sorriso orgulhoso.

“Agora você fez uma pergunta inteligente.”

O telefone preso ao peito do robô tocou. Gael atendeu com um fone no ouvido e caminhou para longe, como se conduzisse uma reunião importante.

“Oi, mãe. Sim, ele acordou. Não, não chorei. Ele é menos assustador ao vivo.”

Dante ouviu apenas um murmúrio feminino.

“Eu não dei doce ao Atlas. Robôs não comem. Era uma piada.”

Gael olhou para Dante.

“Ela quer saber se você está machucado.”

“Diga que venha verificar pessoalmente.”

O menino repetiu. Escutou a resposta e franziu o nariz.

“Mamãe disse que não recebe ordens de homens amarrados.”

Dante girou o pulso. Uma pequena lâmina oculta sob a manga começou a cortar o plástico.

“E você obedece a ela?”

“Eu respeito pessoas competentes.”

“Então vai aprender a me respeitar.”

A abraçadeira se rompeu.

Dante levantou de uma vez. A cadeira tombou. Gael não gritou. Apenas bateu duas vezes no relógio infantil.

As portas de aço se fecharam. As luzes apagaram. O chão sob os pés de Dante vibrou, e uma rede de cabos caiu do teto. Ele desviou do primeiro feixe, agarrou o segundo e avançou.

Atlas lançou espuma adesiva contra seus sapatos.

Dante arrancou um pé, mas perdeu o equilíbrio por um segundo. Foi o bastante para Pixel projetar na parede imagens de câmeras ao vivo: seu edifício, seu arsenal no porto de Santos, a casa de sua irmã e seis contas bancárias internacionais.

“Pare”, disse Gael.

A voz infantil desaparecera. Havia medo, mas também firmeza.

“Se chegar perto de mim, o sistema envia tudo para a Polícia Federal, a Interpol e três jornalistas que odeiam você.”

Dante parou a dois metros dele.

“Você não faria isso.”

“Faria para proteger minha mãe.”

“De mim?”

“De todo mundo.”

O menino estendeu o aparelho de choque com as duas mãos. Elas tremiam. Mesmo assim, não recuou.

Dante reconheceu aquela coragem. Não era ausência de medo. Era decisão apesar do medo.

Ele soltou o cabo e ergueu as mãos.

“Muito bem. Vamos negociar.”

Gael respirou fundo e apertou um botão. As luzes voltaram.

“Primeira condição: cinquenta bilhões.”

“Não.”

“Segunda: você pede desculpas à mamãe.”

“Pelo quê?”

“Ela explica.”

“Terceira?”

Gael apontou para uma câmera.

“Você faz um teste de DNA ao vivo. Sem seus médicos, sem seus advogados e sem ameaçar ninguém.”

Dante se aproximou devagar e se agachou diante dele.

“E se o teste disser que você é meu filho?”

Gael sustentou seu olhar.

“Então eu decido se você merece ser meu pai.”

O robô emitiu outro bipe. Na parede surgiu uma fotografia de uma mulher sorrindo sob o sol. Cabelos castanhos presos de qualquer jeito, uniforme simples de garçonete, olhos inteligentes e luminosos.

Dante conhecia aquele rosto.

Quatro anos antes, Nina Carvalho entrara em seu escritório como funcionária terceirizada, corrigira em cinco minutos um sistema que quarenta especialistas não haviam compreendido e desaparecera na mesma noite em que alguém roubara uma amostra de seu sangue.

Na fotografia, ela segurava Gael recém-nascido.

Dante olhou para o menino.

“Sua mãe está morta.”

Gael sorriu sem humor.

“Essa foi a primeira mentira que ela mandou eu ensinar você a não acreditar.”

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