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"Quatro Menininhas Apavoradas Me Imploraram para Fingir Ser o Pai Delas." Capítulo 5

正文开头

A letra de Lívia

Sofia contou as irmãs antes que o carro saísse.

Apontou para cada uma, mexendo os lábios, e só então puxou o cinto. Quando percebeu que eu observava, endireitou as costas.

"Eu sei colocar sozinha."

"Eu vi."

Carolina conferiu as travas, ajeitou o casaco no colo de Amélia e respondeu ao policial que seguia no banco da frente. A casa ficava a pouco mais de quinze minutos dali, dependendo da chuva.

Helena permanecera no café para coordenar as equipes. Raul dirigia. Eu estava na fileira de trás, com Isabel ao meu lado e o telefone na mão.

Abri a conversa com Gabriel.

A última mensagem dele era da manhã.

Não precisa mandar o motorista. Eu me viro.

Minha resposta: Não comece.

Fiquei olhando aquelas duas palavras até as letras perderem o sentido.

Isabel encostou o sapato no meu, sem querer. Recolheu o pé depressa.

"Desculpa."

"Não tem problema."

"É que eu não alcanço o chão."

Ajeitei minha perna para deixar espaço. Ela balançou os pés duas vezes e parou.

"Você pode ligar pra ele de novo. Às vezes a mamãe não escuta."

"Já tentei."

"Depois tenta mais uma."

Assenti. Não havia nada naquela sugestão que pudesse resolver a situação, mas o cuidado com que foi feita me obrigou a respirar mais devagar.

Carolina olhou para nós pelo espaço entre os bancos.

"Elas estavam numa apresentação da escola", disse. "Por isso os vestidos. Eu ia levar todas para tomar chocolate. Marcelo apareceu antes de a gente pedir."

Olhei as barras amarelas, um laço amassado, a meia de Amélia puxada acima da outra.

Uma tarde que deveria terminar com quatro bigodes de chocolate.

"Elas têm a mesma idade?"

Carolina demorou um instante a responder.

"Seis anos. São quadrigêmeas."

Clara se virou no banco.

"A Sofia nasceu primeiro. Ela fala isso quando quer escolher o filme."

"Porque vocês nunca escolhem", retrucou Sofia.

"A gente escolhe. Você que não gosta."

Carolina passou a mão no cabelo de Clara.

"Hoje ninguém precisa escolher nada."

As meninas se calaram, obedientes demais. Eu quis ouvir a discussão continuar. Quis que brigassem por um filme, por uma janela, pelo último pão de queijo. Qualquer coisa que coubesse em seis anos de vida.

Meu telefone tocou.

Helena havia localizado o motorista designado para Gabriel. Encontraram o carro abandonado e estavam verificando as câmeras da rua onde ele fora visto pela última vez.

"Algum sinal dele?"

"Ainda não. Estou cruzando isso com os aparelhos recolhidos. Não ligue para os números que mandarem mensagem. Me encaminhe tudo."

"Ele estava ferido."

"Eu vi, Alexandre. Estamos trabalhando."

Não era a promessa que eu queria. Era a única que ela podia fazer.

Desliguei quando entramos na rua de Carolina.

A casa era estreita, com uma pequena varanda e vasos protegidos da chuva sob o beiral. Havia quatro desenhos colados por dentro de uma janela. Um deles estava torto, preso por uma única ponta de fita.

正文1

O policial pediu que aguardássemos enquanto verificava a entrada com Raul.

Carolina ficou com as chaves entre os dedos.

"Depois que Samuel morreu, eu mudei a fechadura. Marcelo ficou ofendido. Disse que eu estava tratando como inimigo quem pagava as contas que faltavam."

"Você pediu esse dinheiro?"

"Pedi prazo. Ele pagou sem me avisar. Depois passou a cobrar outras coisas."

O portão abriu. Entramos juntos.

O cheiro de roupa limpa me atingiu antes de qualquer imagem. Um par de tênis pequeno estava secando sobre jornal. Na parede da sala, Samuel sorria numa fotografia de aniversário.

Ele segurava uma vela apagada. As quatro meninas, menores, riam em torno do bolo.

Carolina viu onde eu olhava.

"Elas assopraram antes de terminar a música. Ele acendeu de novo três vezes."

Sofia passou pela fotografia sem erguer os olhos.

Segui-a pelo corredor até um quarto com duas beliches. Havia livros num caixote pintado, um coelho de pano sem uma orelha e quatro nomes escritos em etiquetas sobre gavetas.

A caixinha de música estava numa prateleira baixa.

Madeira branca. Estrelas douradas. Um risco comprido perto da dobradiça.

Reconheci o risco.

Parei na porta.

Lívia derrubara aquela caixa no chão do nosso quarto, anos antes. Estava tentando esconder um presente de Gabriel enquanto segurava uma pilha de roupas. Eu sugerira comprar outra. Ela dissera que um arranhão não estragava uma coisa que ainda sabia cantar.

Sofia abriu a tampa.

A melodia saiu baixa, um pouco mais lenta do que na minha lembrança.

Sentei na beirada de uma cama porque meus joelhos cederam antes que eu aceitasse o que via.

"De onde veio isso?"

Carolina ficou no corredor.

"Samuel trouxe para as meninas. Disse que uma amiga tinha dado."

Estendi a mão. Sofia me entregou a caixa com cuidado.

O veludo azul no fundo estava gasto na mesma ponta. Havia uma pequena mancha que eu deixara cair ali, café, numa manhã em que Lívia me fizera prometer chegar cedo.

Eu não chegara.

Passei o polegar pela borda e senti uma resistência sob o tecido.

"Posso olhar por baixo?", perguntei a Sofia.

Ela olhou para a mãe, que assentiu.

O policial se aproximou quando levantei a primeira ponta do forro. Pedi que acompanhasse. Já não queria ser o único homem afirmando o que encontrava.

Sob uma placa fina de madeira havia um compartimento. Dentro, um pequeno dispositivo de memória, protegido por um saquinho, e um envelope dobrado.

Meu nome estava escrito na frente.

Alexandre.

O A começava com uma curva que Lívia nunca conseguira explicar. Eu brincava que parecia uma pessoa tentando fugir da palavra.

Ninguém naquele quarto precisou me dizer de quem era a letra.

O policial fotografou o compartimento antes que retirássemos qualquer coisa. Depois separou o dispositivo para encaminhar à equipe de Helena.

Pedi o envelope.

Carolina levou as meninas para a cozinha, prometendo leite morno. Sofia hesitou na porta.

"A gente quebrou?"

Levantei os olhos.

正文2

"Não. Vocês guardaram muito bem."

Ela assentiu, aliviada, e foi atrás das irmãs.

Abri o papel.

"Alexandre, se esta carta chegou até você, Samuel conseguiu fazer o que eu não tive tempo de terminar."

A primeira linha já me obrigou a parar.

Continuei com a folha apoiada nos joelhos.

"Há dinheiro passando pela clínica, usando atendimentos e entidades que não existem. Eu reconheci o nome de uma das empresas. Pedi explicações a Vítor. Foi um erro. Ele sabe que eu vi documentos e agora quer descobrir quanto eu guardei."

Minha mão apertou a folha. Afrouxei os dedos para não rasgar.

"Quis contar pessoalmente. Preciso saber que estou falando com você, sem ninguém escolhendo o que chega aos seus ouvidos. Se eu não conseguir, procure Samuel Azevedo. Ele tem os registros originais e sabe por que eu estava na clínica."

Havia uma marca junto à assinatura, como se a caneta tivesse parado tempo demais no papel.

"Não deixe Gabriel acreditar que eu fui embora porque quis. E não transforme o amor que sente por nós numa casa onde ninguém consegue respirar. Eu quero nossos filhos perto de você, Alexandre. Perto de verdade."

Li aquela frase duas vezes.

Nossos filhos.

Talvez estivesse falando do futuro que planejáramos. Dos tratamentos. Do quarto que nunca chegamos a preparar.

Na última linha, a letra parecia mais apressada.

"Existe uma surpresa que ainda quero te contar olhando nos seus olhos. Samuel vai explicar se eu não puder. Por favor, escute até o fim."

Baixei a carta.

Carolina estava de volta à porta. Tinha o rosto molhado.

"Você sabia que ela escreveu para mim?"

"Não sabia onde estava a carta."

"Mas sabia da surpresa."

Ela segurou o batente.

Meu telefone tocou antes que respondesse.

Helena.

Atendi de pé.

"Encontramos um endereço ligado a um dos contatos de Vítor. Uma antiga unidade médica perto do rio. As imagens do carro coincidem com o caminho. A equipe está indo."

Olhei para a carta, depois para Carolina.

Da cozinha, Isabel chamou pela mãe. Perguntou se eu também queria leite.

"Estou indo", disse a Helena.

Guardei a folha sem dobrar sobre a assinatura.

Primeiro eu traria meu filho de volta.

Depois Carolina me contaria por que minha esposa morta havia escrito nossos filhos, no plural, numa carta escondida entre os brinquedos de quatro meninas.

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