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"Quatro Menininhas Apavoradas Me Imploraram para Fingir Ser o Pai Delas." Capítulo 3

正文开头

O homem atrás de mim

Meireles foi o primeiro a se mexer.

Pegou a pasta, ajeitou-a debaixo do braço e olhou para a porta.

"Não vou ficar ouvindo acusações de uma mulher em luto."

"Ela ainda está falando", respondi.

"Você não pode me obrigar a permanecer aqui."

Eu sabia. Ele também. A satisfação voltou ao rosto dele por um instante, como se tivesse encontrado um lugar firme onde pisar.

Meu telefone tocou antes que ele desse o segundo passo.

Era Helena.

"Estou chegando. Meireles continua aí?"

"Na minha frente."

"Passe o telefone."

Ofereci o aparelho. Meireles hesitou, depois atendeu.

Ouvi apenas a parte dele: uma apresentação formal, duas tentativas de interromper, uma explicação sobre um mal-entendido. Por fim, olhou para a recepcionista e para as câmeras no teto.

"Naturalmente. Vou aguardar."

Devolveu o celular sem me encarar.

Raul indicou uma mesa perto da entrada. Meireles sentou-se ali, furioso demais para fingir tranquilidade. A pasta ficou sobre os joelhos.

Voltei para Carolina.

"O que aconteceu com Samuel?"

Ela acompanhou Meireles com os olhos.

"Disseram que foi um assalto. Levaram a carteira e o telefone. O carro ficou."

"Você não acredita."

"Ele estava com medo antes de morrer. Mudou senhas, voltou a olhar pela janela à noite. Quando eu perguntava, dizia que estava tentando consertar uma coisa antiga."

"Que coisa?"

Carolina passou o polegar sobre a marca deixada pela aliança.

"Ele era médico. Trabalhou na Clínica Aurora, na parte de reprodução assistida. Depois passou a revisar prontuários e contratos para uma rede de hospitais. Encontrou registros que não batiam. Procedimentos cobrados de instituições que nunca tinham atendido aquelas pacientes. Transferências usando entidades de fachada."

Conhecia aquele nome.

Aurora.

Havia uma pasta antiga com o logotipo da clínica numa gaveta que eu evitava abrir. Lívia colocara ali recibos, exames e uma fotografia de Gabriel ainda com os dentes da frente separados.

Minha esposa desejara outro filho durante anos.

Eu me obriguei a voltar à mesa.

"Samuel levou isso à polícia?"

"Estava reunindo o que precisava. Não confiava nas cópias que circulavam. Algumas tinham assinaturas falsas. Outras..."

Ela parou.

"Outras o quê?"

Carolina olhou para as meninas.

Bento ajudava Amélia a abrir um sachê de açúcar que ela não pretendia usar. Clara discutia a quantidade de dedos do homem no desenho de Isabel. Sofia, sem participar, observava a mãe.

"Podemos conversar sem elas ouvirem?"

Fiz um sinal para Bento. Ele sugeriu que escolhessem mais lápis no balcão. Não as tirou da nossa vista.

Carolina esperou o ruído das cadeiras.

"Havia documentos sobre sua família."

O salão pareceu perder parte dos sons.

"Minha família fez tratamento lá. Isso não é segredo."

"Eu sei. Samuel conheceu sua esposa."

"Ele era médico dela?"

"Participou do atendimento. Não era o responsável principal."

A raiva chegou antes de qualquer conclusão. Eu passara anos aceitando respostas prontas sobre aquela época. Exames perdidos. Funcionários substituídos. Arquivos destruídos. Não suportara discutir nada disso enquanto meu filho perguntava por que a mãe não ligava.

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"O que meu tratamento tem a ver com Meireles?"

"Talvez menos do que ele teme. Talvez mais. Samuel não me contou tudo de uma vez. Achava que me proteger era me deixar sem informação."

Ela soltou uma respiração amarga.

"Depois ele morreu e eu fiquei sem saber do que precisava fugir."

Raul se aproximou para avisar que o carro estava na frente. Pedi que esperasse Helena. Meireles continuava na cadeira perto da porta, digitando no telefone.

"Ele está mandando mensagens", observei.

Carolina acompanhou meu olhar e apertou os lábios.

"Ele disse que, se eu procurasse você, saberia antes de eu chegar."

"Quem disse?"

"Samuel me avisou que havia alguém perto de você. Uma pessoa que controlava recados, visitas, tudo. Eu achei que Marcelo estava só repetindo a ameaça. Mas hoje..."

Ela olhou por cima do meu ombro.

Vítor estava junto à divisória do salão reservado, onde permanecera desde nossa chegada. Meu chefe de segurança. Onze anos de serviço. A pessoa que escolhera os homens que acompanhavam Gabriel.

"Carolina", falei. "Olhe para mim."

Ela obedeceu.

"Quem?"

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

"Antes de responder, preciso saber se minhas filhas vão continuar comigo."

"Você já pediu ajuda à Helena. Vou garantir que tenha alguém para ouvi-la. Mas não posso prometer o que uma investigação vai decidir."

"Não estou pedindo isso. Estou perguntando se vai entregar as meninas a ele quando ouvir o resto."

Havia uma diferença naquelas palavras que me atingiu sem explicação.

Olhei para as crianças. Isabel ergueu o desenho, orgulhosa. Eu tinha agora um chapéu que nunca usaria e dentes suficientes para duas bocas.

"Não vou entregar nenhuma delas a Meireles."

Carolina assentiu, como se precisasse ouvir exatamente aquilo.

Um garçom se aproximou com a conta. Antes que eu dissesse qualquer coisa, ela afastou o papel para ter espaço e tirou da bolsa uma fotografia pequena.

Samuel aparecia sentado num sofá, com duas meninas de cada lado. Uma segurava sua orelha. Outra dormia sobre seu braço.

"Ele foi um bom pai", disse ela.

"Parece ter sido."

"Preciso que você se lembre disso. Quando souber de tudo."

Eu já não gostava daquela conversa.

"Diga o nome."

Ela baixou a voz.

"Vítor Salles. Samuel encontrou pagamentos ligados a ele. E uma autorização com sua assinatura que Samuel dizia ser falsa."

Senti o tecido do paletó prender nos meus ombros quando me endireitei.

Vítor havia escolhido a roupa que Gabriel usara no enterro da mãe. Eu não conseguira encontrar uma camisa limpa no quarto do meu filho. Ele aparecera com uma, passada, no tamanho certo.

Durante anos, eu guardara aquele gesto como prova de lealdade.

Meu celular vibrou sobre a mesa.

Um número desconhecido.

Abri a mensagem.

Gabriel estava amarrado a uma cadeira, com a cabeça inclinada e sangue na gola da camiseta. Reconheci o tênis que ele comprara na semana anterior. Reconheci a pequena cicatriz perto da sobrancelha.

O texto dizia:

AGORA SEU FILHO TAMBÉM ESTÁ CONOSCO.

Liguei imediatamente para ele.

Ouvi chamar uma vez.

Na fotografia, seus olhos estavam abertos.

Atrás de mim, Vítor se aproximou.

"Algum problema, Alexandre? Deixe que eu resolvo."

A chamada caiu.

Pela primeira vez naquela tarde, não consegui impedir que minha mão tremesse.

O homem em quem eu confiara meu filho estava a dois passos de mim.

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