"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Bônus 07 — A voz que atravessou a mesa
Theo passou a primeira hora de sábado entre crianças que exigiam explicações muito mais difíceis que as de seus colegas de finanças. Um menino queria saber se um dragão podia morar num apartamento. Outra criança considerava injusto que os castelos tivessem tantas escadas. Marina lhes entregava papel e fazia perguntas que transformavam cada problema numa história.
Ele ficou responsável por uma mesa pequena, ajudando a organizar sequências de desenhos. Ao fim da atividade, tinha tinta num dedo, uma criatura parecida com um cachorro alado na folha e uma admiração crescente pela maneira como Marina escutava.
Ela não fingia que toda ideia era perfeita. Perguntava o que a criança queria contar e encontrava um jeito de continuar dali. Quando um menino rasgou uma folha por ter errado, ficou perto, esperou a irritação diminuir e lhe ofereceu outra sem transformar o papel numa tragédia.
Theo reconheceu alguma coisa familiar naquele cuidado. Não disse imediatamente. Ajudou a recolher as mesas e guardou os materiais, enquanto Caio conversava com Júlia perto da porta como se as caixas exigissem uma investigação conjunta.
"Você desenha melhor que o seu pai?", perguntou Marina, espiando a criatura de Theo.
"O nível de comparação não é muito alto."
"Isso é um dragão?"
"É uma hipótese."
Ela começou a rir, e ele percebeu que estava esperando aquele som desde que chegara. Quando saíram, dividiram um lanche e combinaram de se falar no dia seguinte. Theo foi para casa com a fotografia do cachorro alado no telefone e uma disposição que Leo identificou antes mesmo de perguntar como tinha sido a tarde.
No domingo, a família se reuniu para almoçar. A mesa tinha crescido com os anos, mas algumas discussões continuavam surpreendentemente parecidas. Antônio ainda achava possível acrescentar convidados depois que todos já estavam servidos. Teresa mantinha uma opinião firme sobre pessoas que diziam não querer sobremesa e depois pegavam uma colher.
Estela, agora adolescente, reclamava que os irmãos continuavam tratando suas ideias como se tivesse quatro anos. Leo lembrava que ela ainda gostava de pedir ajuda para abrir potes. A menina respondeu que estratégia não era uma questão de idade.
Theo ouviu a conversa enquanto ajudava a colocar água na mesa. Lara passou por ele carregando uma travessa, e Rafael a recebeu antes que precisasse pedir. Trocaram uma frase baixa, um sorriso e um beijo rápido que levou Estela a olhar para o teto.
"Vocês ainda fazem isso na passagem."
"Podemos ocupar mais espaço, se preferir", respondeu o pai.
Leo começou a rir. Lara passou a mão pela nuca do marido ao se afastar, e Theo sentiu uma satisfação tranquila em vê-los assim. Durante a infância, imaginara que o amor dos adultos era uma coisa que precisava ajudar a acontecer. Agora podia observar que os dois continuavam fazendo escolhas próprias, mesmo quando ninguém os organizava.
Depois do almoço, abriu o telefone para mostrar uma fotografia da atividade. Estela quis ver o desenho e pediu que ampliasse a imagem da criatura. Leo ofereceu uma interpretação ofensiva sobre a anatomia das asas. Theo se distraiu respondendo quando uma chamada apareceu na tela.
Atendeu e tocou no viva-voz sem perceber, ainda com o aparelho deitado no centro da mesa.
"Theo! Então o meu parceiro de dragões sobreviveu ao almoço?"
A voz de Marina atravessou o silêncio que se formou imediatamente. Theo pegou o telefone e desativou o som alto tão depressa que quase o deixou cair.
"Sobrevivi. Espera um instante."
Leo cobriu a boca com a mão. Estela arregalou os olhos e apontou para o irmão sem produzir som. Lara se concentrou num guardanapo com uma atenção excessiva. Rafael bebeu água.
Theo se levantou e foi para a varanda antes de continuar. Marina percebeu a mudança em sua voz.
"Eu liguei numa hora ruim?"
"Não. Só estava com a minha família. Atendi errado e eles ouviram a primeira frase."
Ela ficou em silêncio por um segundo. Depois começou a rir.
"Podia ter sido pior. Eu podia ter começado pelo futuro namorado."
Theo passou a mão pelo rosto, mas também estava sorrindo. "Isso teria consequências."
Marina contou que uma das crianças encontrara outra solução para o dragão e pedira que lhe mostrasse. Enviou a fotografia de um prédio com uma garagem enorme. Theo analisou o desenho, fez um comentário e ouviu a satisfação dela do outro lado.
A ligação durou poucos minutos. Quando voltou à mesa, encontrou a família tentando parecer ocupada com assuntos independentes.
"Não precisam fazer isso", disse.
Leo foi o primeiro a abandonar o disfarce. "Ótimo. Quem é a parceira dos dragões?"
"Uma amiga da faculdade. Marina."
Estela inclinou a cabeça. "Amiga com voz de quem está sorrindo?"
"Você também sorri quando fala com amigos."
"Sim. Mas você não fica dessa cor quando conversa com o Caio."
Lara soltou uma risada baixa antes de conseguir impedir. Theo olhou para a mãe, traído. Ela se aproximou e lhe apertou o braço.
"Está bem. A gente vai parar de te interrogar. Se quiser contar, eu escuto."
Ele assentiu, agradecido. Estela ainda parecia querer perguntar alguma coisa, mas recolheu os copos e foi até a cozinha. Leo voltou a comentar o desenho em vez de tentar ler a tela do irmão. Theo percebeu o esforço dos dois. Era bom saber que podia gostar de alguém sem ter de apresentar imediatamente uma resposta para cada curiosidade da casa. Mais tarde, contaria mais porque queria.
Rafael esperou que os outros se dispersassem antes de lhe perguntar se estava gostando da companhia dela.
Theo olhou para a varanda onde falara ao telefone.
"Estou."
O pai sorriu de um jeito tranquilo. "Então vale a pena não fazer a menina adivinhar tudo sozinha."
A frase ficou com ele até a noite.
Marina enviou uma mensagem quando saía de uma atividade do curso, mais tarde do que tinha previsto. O grupo estava perto da residência, mas ela ainda precisaria caminhar alguns minutos. Theo perguntou se gostaria de conversar no trajeto. Ela aceitou, avisando que não seria uma ótima narradora porque estava cansada.
"Eu posso falar também", respondeu ele.
"Isso é uma novidade muito promissora."
Conversaram sobre o dia, sobre um texto que Marina precisava revisar e sobre o estágio dele. Os ruídos da rua chegavam baixos, intercalados com suas respostas. Ela se despediu de uma colega pelo caminho, pediu que Theo esperasse um instante e voltou à ligação para contar que Júlia estava combinando outro encontro com Caio.
"Eles falam de livros com uma dedicação suspeita", comentou.
"Eu conheço o Caio. Ele nunca teve tanto interesse em catálogo."
Marina riu. Depois ficou alguns segundos quieta.
"Obrigada por ficar conversando. Eu gostava de fazer isso com a minha mãe quando voltava do treino."
Theo sentiu a importância da confiança sem precisar lhe dar um nome maior que ela.
"Você pode me chamar outras vezes. Se eu não puder, aviso."
"Está bem. Você também pode me ligar sem um dragão como justificativa."
Ele olhou para a janela do próprio quarto. Na cozinha, alguém fechou uma gaveta. A casa estava perto e ela ainda estava do outro lado da cidade, mas Theo teve a impressão estranha de que a conversa diminuía uma distância que não tinha a ver apenas com ruas.
Quando Marina chegou, avisou que já estava na portaria. Continuaram falando até que ela entrasse no quarto e lembrasse, com um bocejo, que ainda precisava tomar banho.
"Boa noite, Theo."
"Boa noite."
Ele ficou olhando o telefone depois que a chamada terminou. Só percebeu a presença da mãe quando Lara bateu de leve na porta entreaberta, trazendo a caneca que ele deixara na sala.
"Você parece feliz."
Theo aceitou a caneca. "Eu acho que estou."
Lara sorriu, sem transformar aquela resposta numa previsão. Beijou seu rosto e o deixou sozinho com uma alegria que ele ainda estava aprendendo a demonstrar.
Na manhã seguinte, Theo saiu mais cedo. Comprou o café de Marina e esperou perto do caminho que ela usava. A mudança do tempo tinha trazido vento frio. Quando a viu se aproximar, percebeu que ela apertava os braços sobre a própria blusa.
"Você está me esperando?", perguntou, surpresa.
Ele lhe entregou o copo. "Estou."
Marina recebeu o café com as duas mãos. Theo tirou a jaqueta e a ofereceu. Ela começou a dizer que faltava pouco para chegar ao prédio, mas parou quando ele apenas manteve a peça estendida, deixando a decisão com ela.
"Obrigada."
Vestiu a jaqueta, que ficou larga nos ombros, e guardou uma das mãos no bolso. Encontrou um recibo e um pequeno papel dobrado. Não abriu nenhum dos dois. Entregou-os a Theo, que reconheceu o guardanapo do primeiro café.
Marina ficou olhando para ele.
"Você guardou?"
Theo pegou o papel, sentindo a inutilidade de qualquer explicação que fingisse acaso.
"Guardei."
O sorriso dela mudou. Ficou menos brincalhão, mais demorado. Caminharam lado a lado até o banco, levando os cafés e uma conversa que já não parecia depender de iniciativa de uma única pessoa.
Quando sentaram, Theo estendeu a mão sobre a mesa de madeira. Marina olhou para os dedos dele, depois para seu rosto, esperando ter entendido direito.
Ele não retirou a mão.
Ela colocou a sua por cima, e o café esfriou um pouco antes que qualquer um lembrasse de beber.
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