"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Bônus 04 — A bicicleta e o presente que sobrou
Aos vinte anos, Theo ainda esquecia o caderno em cima da mesa quando saía pensando no horário do estágio. Lara o chamou antes que chegasse ao portão. Ele voltou segurando a bicicleta pelo guidão e recebeu o objeto com um beijo no rosto.
"Obrigado, mãe."
"Você também pretende levar o almoço ou vai deixar para eu correr atrás?"
Ele olhou para a mochila, conferiu a bolsa menor e sorriu. Estava mais alto que ela havia tempo, tinha os ombros do pai e a mesma expressão concentrada de quando organizava trilhos no tapete. Lara continuava reconhecendo o menino em detalhes que não precisava comentar toda manhã.
Theo gostava do trajeto de bicicleta até a estação e de ter uma rotina que não começasse com alguém abrindo a porta de um carro para ele. Cursava o terceiro ano de finanças e fazia estágio numa empresa sem ligação direta com a família. Queria aprender a responder pelas próprias decisões antes que o sobrenome chegasse ao assunto.
Não mentia sobre quem era. Também não oferecia um histórico financeiro dos pais durante conversas sobre provas, prazos e o melhor lugar para almoçar perto do campus. A maior parte das pessoas sabia apenas que morava com a família e que trabalhava à tarde.
Ana Paula achara aquilo interessante no começo. Gostava de vê-lo chegando de bicicleta, de guardar a mochila no banco ao lado dele e de receber os resumos que fazia sem reclamar. Nos últimos meses, porém, passara a comparar os passeios que faziam com fotografias de outras pessoas.
Naquela manhã, telefonou quando ele chegava à faculdade.
"Você vai mesmo trabalhar no sábado?"
"Até o começo da tarde. Eu te falei do fechamento. Depois posso encontrar você."
"O Guilherme levou a namorada para viajar no aniversário dela."
Theo prendeu a bicicleta antes de responder. "Você queria viajar? Podia ter conversado comigo."
"Eu queria não precisar explicar tudo."
Ele ficou olhando a corrente por alguns segundos. Tinham combinado um jantar. Ana Paula escolhera o restaurante e dissera que estava feliz. Agora ele tentava descobrir quando aquela conversa tinha mudado sem que participasse dela.
"Se você quiser outro programa, a gente conversa. Não vou faltar ao estágio porque você está comparando o meu sábado com uma fotografia."
O silêncio do outro lado ficou frio. Ana Paula disse que precisava entrar na aula e desligou.
Theo guardou o aparelho, mas a conversa continuou com ele durante a manhã. Não estava convencido de que tudo se resumia a dinheiro. Havia uma distância crescente, uma dificuldade de dizer o que queriam e a sensação de que qualquer coisa oferecida chegava depois de uma expectativa que desconhecia.
No sábado, um atraso no trabalho o impediu de entregar o presente antes do almoço. Pediu a Leo, que passaria perto, que deixasse o pacote com Ana Paula. O irmão fez uma brincadeira sobre serviços de entrega entre gêmeos, mas aceitou.
O presente era um colar discreto, escolhido porque ela comentara gostar daquele desenho. Theo tinha guardado a caixa, o cartão e uma reserva para o jantar. Queria conversar pessoalmente, sem o telefone transformando cada pausa numa intenção impossível de conferir.
Leo encontrou Ana Paula perto da entrada de um hotel onde havia um restaurante. Não a chamou imediatamente. Ela estava junto de outro rapaz, de camisa clara, rindo de algo enquanto ele ajeitava uma mecha de seu cabelo. O beijo que veio depois não deixou muito espaço para uma explicação sobre colegas.
Ana Paula o viu quando se afastou. Seu rosto mudou.
"Theo? Você não estava trabalhando?"
Leo parou com o pacote na mão. A confusão entre os dois ainda acontecia quando alguém olhava depressa. Naquela situação, não teve a menor vontade de brincar.
"Estou trabalhando por ele, pelo jeito. Sou o Leo."
O outro rapaz olhou de um para o outro, entendendo apenas parte. Ana Paula levou a mão à bolsa e perguntou se podia conversar em particular. Leo deu um passo para o lado, mantendo a distância.
"Você precisa conversar com o meu irmão. Eu vim entregar isso."
Ela não pegou o pacote. Disse que as coisas já não estavam bem e que Theo deveria ter percebido. Leo respirou fundo antes de responder. A irritação lhe trouxe algumas frases fáceis, mas nenhuma ajudaria o irmão que ainda não sabia do ocorrido.
"Ele pode perceber que um namoro está ruim. Não pode adivinhar o que você escolheu esconder."
Ana Paula abaixou os olhos. O rapaz ao lado perguntou se ela estava namorando. Leo não esperou a resposta. Guardou o pacote e se afastou, parando um pouco adiante para telefonar.
Theo atendeu na segunda chamada, com o barulho do escritório ao fundo.
"Você entregou?"
Leo fechou os olhos por um instante. "Não. Eu encontrei a Ana Paula com outra pessoa. Eles estavam se beijando. Ela achou que eu era você."
O silêncio durou o suficiente para que ele perguntasse se o irmão tinha ouvido.
"Ouvi."
"Quer que eu vá te buscar?"
"Ainda preciso terminar aqui. Depois falo com você. Obrigado por contar."
Theo encerrou a chamada e ficou olhando o arquivo aberto. Havia números, colunas e uma tarefa simples que conhecia bem. Demorou alguns minutos para conseguir lê-los outra vez. Avisou que precisava de uma pausa curta, foi beber água e esperou que o rosto deixasse de parecer tão quente.
Não queria descobrir aquilo pela boca do irmão. Não queria ter de imaginar a expressão de Ana Paula ao confundi-los. O fato de suspeitar que estavam se afastando não lhe dava uma proteção automática contra o que agora sabia.
Quando ela telefonou, pediu que conversassem no fim da tarde, num café perto da faculdade. Theo chegou antes, escolheu uma mesa aberta e deixou o telefone guardado. Não levou o presente.
Ana Paula começou dizendo que ele sempre estava ocupado. Theo a ouviu até perceber que a frase seguinte repetiria a mesma explicação.
"Você ficou com ele enquanto ainda estava comigo?"
Ela apertou o copo. "Sim. Não foi só hoje."
A resposta doeu mais por ser clara. Theo assentiu lentamente, procurando alguma coisa sobre a mesa em que pudesse manter os olhos por um instante.
"Você podia ter terminado antes."
"Eu estava confusa."
"Eu entendo que você podia não querer continuar. Não entendo você me deixar fazendo planos enquanto escondia isso."
Ana Paula começou a chorar. Ele lhe ofereceu um guardanapo, mas não retirou a frase. Não perguntou quanto o outro rapaz ganhava, que carro dirigia ou o que poderia comprar. Nada disso mudaria o que precisava decidir.
"Então acabou?", perguntou ela.
Theo encontrou seu olhar. "Acabou."
Separaram o que ainda tinham a devolver. Ele não tentou convencê-la de que escolhera mal por uma informação que desconhecia. Saiu do café com uma tristeza concreta, sem transformá-la num projeto de demonstração.
Antes de voltar, Theo abriu a agenda para retirar o horário do jantar. Encontrou, na página seguinte, uma lista de lugares que Ana Paula comentara querer conhecer. Ficou olhando aqueles nomes por um tempo. Não eram todos os lugares que ele escolheria, mas tinha procurado caminhos, preços e dias possíveis porque gostava de fazê-la feliz. Apagou apenas o compromisso daquela noite. Não precisava transformar o cuidado que tivera em vergonha para aceitar que a pessoa a quem o oferecera tinha feito outra escolha. Guardou a agenda e procurou o caminho de casa, desejando ouvir uma voz conhecida sem precisar responder a nenhuma comparação.
Em casa, Leo estava na cozinha. Deixou o pacote junto à fruteira e perguntou se o irmão queria comer. Theo assentiu, embora não tivesse muita fome. Os dois montaram sanduíches em silêncio, até Leo começar a contar uma confusão que tivera com um trabalho da faculdade.
Theo percebeu o esforço e agradeceu sem interrompê-lo. Mais tarde, Lara os encontrou sentados à mesa. O filho lhe contou o necessário, usando poucas palavras. Ela não respondeu com uma lista de coisas que Ana Paula perdera ao sair da família.
Aproximou-se e beijou sua cabeça. "Sinto muito, meu filho."
Ele encostou a testa nela por alguns segundos. Rafael entrou depois, ouviu o relato e lhe tocou o ombro. Nenhum dos dois pareceu achar que o ajudaria melhor fingindo que não doía.
Nos dias seguintes, Theo continuou indo às aulas e ao estágio. Aceitou sair para comer com Caio, seu amigo da faculdade, mas recusou uma noite inteira dedicada a falar mal da ex-namorada. Não queria precisar odiá-la para manter o fim.
Uma semana depois, encontrou o presente ainda guardado na gaveta. Abriu a caixa, fechou outra vez e decidiu devolver a peça à loja. O gesto foi menos dramático do que imaginara. Quando saiu, tinha um comprovante no bolso e uma tarde ainda disponível.
Na segunda-feira, o campus estava cheio de alunos novos tentando localizar prédios. Theo seguia com Caio em direção à biblioteca quando viu uma jovem parada junto a duas malas. Ela consultava um papel, olhava uma placa e apoiava menos peso num dos pés.
Caio perguntou se precisava de ajuda. A jovem ergueu o rosto, começou a responder e ficou olhando para Theo por tempo suficiente para esquecer a própria frase.
Ele se aproximou de uma das malas.
"Para onde você está tentando ir?"
Ela sorriu de repente. "Agora essa pergunta ficou mais difícil."
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