"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Bônus 02 — O colo continuava ali
Lara pediu que Estela permanecesse na recepção com um funcionário conhecido até a chegada do pai. Rafael já saía da reunião quando Lucas lhe mostrou a mensagem. Desceu sem levar a visitante ao escritório, encontrou a filha sentada com a mochila no colo e se ajoelhou diante dela.
"Oi, estrelinha. Você está bem?"
Estela abriu os braços. Ele a abraçou antes de se levantar e perguntar a Patrícia o motivo da visita.
"Achei que o senhor gostaria de uma surpresa. Ela estava com tanta saudade."
Rafael manteve a menina junto ao corpo. "Quem autorizou a saída da escola?"
"Eu conversei com a equipe. Sou a professora dela."
"Eu perguntei pela autorização dos responsáveis."
O sorriso da mulher diminuiu. Ela começou a explicar que tinha entendido o vínculo da família com a escola como uma abertura para aquele tipo de carinho. Rafael não se aproximou nem lhe ofereceu uma conversa reservada. Pediu que Lucas chamasse a coordenação e aguardou Lara numa sala próxima, com a porta aberta.
Estela mexia no botão de sua camisa. "A professora disse que ia fazer você feliz."
Ele beijou sua cabeça. "Eu fico feliz de te ver. Mas eu e a mamãe precisamos saber onde você está. Não foi combinado você sair da escola desse jeito."
"Eu fiz errado?"
"O adulto precisava ter pedido. Você vai me contar como foi, e a gente vai cuidar disso."
Quando Lara chegou, Estela estendeu os braços para ela também, como se a troca de colo pudesse confirmar uma coisa sobre a qual começara a ter dúvidas. Lara a recebeu, sentindo o cheiro do cabelo misturado ao do sabonete da escola.
"Você veio rápido", observou a filha.
"Eu queria te ver."
A menina encostou o rosto em seu pescoço. Patrícia tentou comentar que o resultado da surpresa não precisava ser tratado de maneira tão séria. Lara ergueu os olhos.
"Nossa filha foi retirada da escola sem que concordássemos. Vamos conversar com quem precisa responder por isso."
A conversa com a instituição aconteceu separada de Estela. Rafael ficou com a filha enquanto Lara ouviu a coordenadora admitir uma falha de confirmação e explicar as providências imediatas. Patrícia não continuaria atendendo a menina durante a apuração. A escola teria de esclarecer também os relatos sobre presentes individuais, segredos e comentários a respeito da mãe.
Ninguém pediu à criança que provasse sozinha o que um adulto fizera. Os registros e as conversas seriam verificados. Lara e Rafael contaram o que tinham ouvido, conservaram as mensagens e exigiram uma resposta clara sobre a segurança da turma.
Quando saíram, Patrícia já não estava na mesma sala. Estela perguntou se ela ficara brava.
"Os adultos estão resolvendo uma situação", explicou Lara. "Você pode falar a verdade para a gente mesmo se achar que alguém não vai gostar."
A filha apertou sua mão. "Eu prometi guardar."
Rafael se abaixou do outro lado. "Surpresa de aniversário tem hora para acabar. Segredo que te deixa preocupada pode ser contado. Principalmente quando é sobre onde você vai ou sobre alguém pedir para esconder de nós."
Estela pareceu pensar no assunto durante todo o caminho até o carro. Pediu água, abriu a lancheira e depois perguntou se chocolate ainda existiria em casa. Lara precisou sorrir antes de responder que sim. O problema não estava no chocolate.
Em casa, os irmãos esperavam perto da sala. Leo abriu a boca para perguntar alguma coisa, mas Theo o puxou discretamente pela manga. Os pais contaram apenas o necessário: Estela estava bem, a escola organizaria outra professora e ninguém deveria provocá-la sobre o que acontecera.
"A gente pode ficar com ela?", perguntou Theo.
"Podem brincar, se ela quiser", respondeu Lara. "Mais tarde vamos conversar todos juntos."
A menina escolheu ficar com o pai por um tempo. Rafael se sentou no tapete, e ela levou uma boneca até seu colo. Quando pediu que ele procurasse um sapato, encontrou a peça imediatamente, mas a deixou onde estava.
"Você consegue alcançar."
Estela o olhou, desconfiada. "Você sempre pega."
"Eu pego muita coisa antes de você tentar. Acho que vou aprender a esperar um pouquinho."
Ela resmungou, esticou o braço e alcançou o sapato. Depois ficou sentada perto dele, trabalhando para encaixá-lo no pé de plástico. Rafael ajudou apenas quando a filha pediu, mostrando como segurar sem arrancar da mão dela.
Mais tarde, Lara sentou-se com os três filhos diante das peças quebradas. Theo mostrou qual parte de seu modelo precisava de conserto. Leo explicou que o controle tinha voltado a funcionar, mas que o susto de vê-lo no chão não desaparecera por isso.
Estela começou a dizer que só queria brincar. Lara lhe respondeu que acreditava. Querer alguma coisa, porém, não mudava o limite que os irmãos tinham colocado.
"Mas eles são meus irmãos."
"E continuam podendo dizer que não querem emprestar um objeto. Você também pode dizer não quando alguém pede uma coisa sua."
A menina olhou para a boneca que apertava junto ao peito. Aquela parte pareceu fazer sentido de uma maneira que as anteriores não tinham conseguido.
Rafael se sentou ao lado de Lara. "Eu também preciso pedir desculpas. Muitas vezes, quando vocês diziam que alguma coisa estava errada, eu resolvia comprando outra ou pedindo para deixar a irmã brincar. Não foi justo com vocês."
Theo ergueu o rosto, surpreendido. Leo cruzou os braços por alguns segundos antes de perguntar se aquilo significava que poderia guardar o controle onde Estela não alcançasse.
"Significa que a gente vai combinar um lugar seguro", respondeu o pai. "Sem você precisar ficar protegendo tudo o dia inteiro."
A conversa não terminou com uma transformação imediata. Estela ficou brava ao saber que não poderia usar o jogo naquela tarde. Chorou, pediu colo e recebeu colo sem receber de volta o jogo. Depois ajudou Theo a separar as peças, ainda fungando de vez em quando.
Lara observou os três por um instante. Não era uma cena bonita o tempo todo. Havia impaciência, uma peça que não encaixava e um menino que precisava se afastar antes de responder irritado. Era, ainda assim, uma maneira de começarem a cuidar do que tinham ferido.
Quando Estela foi tomar banho, Rafael encontrou a esposa no corredor.
"Eu devia ter ouvido você antes."
Lara se encostou à parede. O cansaço que segurara durante todo o dia chegou de repente.
"Eu também fiquei tentando decidir se estava exagerando. Aí ela falou aquilo na escola e eu..."
A frase parou. Rafael abriu os braços. Lara entrou no abraço, escondendo o rosto por um momento.
"Eu sei que ela tem quatro anos. Mas doeu."
Ele a segurou sem tentar diminuir a dor para que combinasse com a idade de quem pronunciara a frase.
"Você pode saber e ainda assim se machucar. Eu não vou deixar isso virar só uma questão sua com ela."
Lara respirou fundo contra seu peito. Depois ficaram juntos na porta do banheiro, ouvindo Estela negociar com Célia a ordem de lavar o cabelo. A vida tinha aquela capacidade desconcertante de continuar mesmo quando os adultos ainda organizavam o próprio coração.
À noite, a menina voltou ao assunto enquanto vestia o pijama.
"Se eu falar uma coisa ruim, você vai deixar de ser minha mamãe?"
Lara largou a escova e se sentou diante dela. "Não. Eu sou sua mãe quando você está feliz, quando fica brava e quando faz alguma coisa errada. A gente pode ter de consertar coisas. Isso não faz você sair da família."
Estela tocou a manga de sua blusa. "A professora disse que podia ter outra."
Rafael se aproximou e sentou do outro lado. "Ninguém vai ocupar o lugar da mamãe para te dar doces ou deixar fazer tudo. E eu não quero outra pessoa no lugar dela. Eu amo a sua mãe."
A menina olhou para os dois com atenção, como se conferisse uma informação importante sobre o mundo. Lara acrescentou que Estela podia gostar de professores, avós e amigos sem precisar escolher uma única pessoa para amar.
"Tem colo para mais de um amor", disse, abrindo os braços.
A filha se atirou neles com a pressa que segurara durante o dia inteiro.
A visita aos avós, marcada antes daquele problema, precisava ser explicada também. Lara teria um compromisso cedo; Rafael, uma reunião longa. Teresa e Antônio esperavam os três netos para jantar e dormir. Estela arregalou os olhos ao ouvir a palavra dormir.
"Vocês vão buscar?"
"Amanhã, depois do almoço", respondeu Rafael. "Eu e a mamãe. Se precisar conversar, a gente atende."
"Não é porque eu fiz coisa ruim?"
"Não", disse Lara, segurando suas mãos. "É a noite que já tínhamos combinado com a vovó. Você não está sendo mandada embora."
Fizeram uma pequena mala juntas. Estela escolheu o pijama, a boneca e um livro. Na porta, recebeu beijos e conferiu outra vez o horário da volta. Theo prometeu mostrar como ler o relógio da cozinha dos avós, e Leo avisou que primeiro precisariam conferir a sobremesa.
Quando o carro saiu, Lara ficou de pé ao lado de Rafael por alguns segundos. Ele passou o braço por seus ombros.
"Vamos comer alguma coisa?"
Ela encostou a cabeça nele. "Vamos. Depois eu quero ficar um pouco quieta com você."
Rafael beijou seus cabelos. Naquela casa, os adultos também podiam pedir cuidado.
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