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"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 71

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O começo que ela ainda não conhecia

Lara descobriu que havia um limite para a quantidade de vezes em que Rafael podia responder que uma roupa estava linda sem realmente olhar os detalhes. A quinta resposta veio enquanto ele procurava um lugar para apoiar as sacolas. Ela cruzou os braços diante do espelho.

"Você nem olhou a manga."

Ele ergueu o rosto imediatamente. "Eu olhei você."

"A manga está em mim."

Rafael se aproximou, examinou a costura e tentou fazer um comentário específico. O esforço foi tão visível que Lara começou a rir antes de ouvir o fim da frase. A vendedora sorriu discretamente e ofereceu outro tamanho, deixando os dois por alguns minutos.

Desde a volta da ilha, o corpo de Lara mudava mais depressa. Algumas roupas deixavam de servir entre uma semana e outra. Às vezes, gostava de observar a barriga. Em outras, queria vestir alguma coisa sem precisar pensar em tudo que ainda cresceria.

Rafael podia oferecer companhia. Não podia resolver aquela sensação comprando todos os tamanhos.

"Hoje eu estou mais sensível", admitiu ela, sentando-se. "Não precisa descobrir uma resposta perfeita. Só não responde no automático."

Ele colocou as sacolas no chão e se sentou ao lado. "Está bem. A manga está incomodando de verdade ou você não gostou do jeito que ficou?"

A pergunta simples ajudou mais que os elogios anteriores. Lara explicou o que queria, escolheu outra peça e saiu sem comprar a primeira. Na loja seguinte, encontraram um conjunto de bebê tão pequeno que Rafael o segurou por muito tempo.

"É difícil imaginar alguém cabendo nisso."

"Os meninos também foram minúsculos."

Ele olhou para ela. Lara lhe contou como Theo fechava a mão em seu dedo e como Leo acordava antes que ela terminasse de deitar. Rafael ouviu sem pedir que as lembranças fossem diferentes. Depois perguntou o que ela gostaria de ter por perto nas primeiras semanas, e os dois começaram uma lista mais útil que qualquer cesta de presentes.

Alguns dias depois, numa tarde de descanso, Lara acordou com a casa silenciosa demais. Encontrou Célia na cozinha e soube que Rafael estava com os meninos na sala de trabalho do andar de baixo. Desceu devagar, seguindo uma discussão que reconheceria mesmo através de uma parede.

"Eu disse que esse caminho estava aberto", argumentava Leo.

"Porque você apagou a condição", respondeu Theo.

"Eu queria testar."

"Num ambiente de teste, tudo bem", disse Rafael. "Mas explica por que mudou antes de executar outra vez."

Lara parou junto à porta. Na tela havia linhas de código que não sabia interpretar. Em outra janela, dois nomes chamaram sua atenção: Musa e Noite.

"Eu conheço essa expressão de vocês", disse.

Os três se viraram ao mesmo tempo.

Leo fechou a boca. Theo endireitou as costas. Rafael ficou com a mão sobre o mouse, sem clicar em nada.

"Que expressão?", tentou o mais novo.

Lara entrou e puxou uma cadeira. "A de quando eu pergunto quem comeu a cobertura antes do bolo ficar pronto."

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Rafael afastou o computador o suficiente para que todos pudessem se olhar. A tentativa de sorriso morreu quando percebeu que ela não estava apenas brincando.

"Eu preciso te contar uma coisa que adiei demais."

Lara pousou as mãos no colo. "Então conta inteira."

Ele começou pelos nomes. Musa era o nome que os meninos usavam juntos em desafios de programação. Noite era o seu. Já tinham se encontrado naquele ambiente antes de compreenderem quem estava do outro lado. Rafael descobrira a identidade dos filhos antes da viagem a Milão e passara a supervisionar o que faziam.

"Você sabia desde antes de Milão?"

"Sabia. E devia ter conversado com você naquela época."

Theo se aproximou um pouco da mesa. "O papai colocou regras."

"Eu quero conhecer as regras", respondeu Lara. "Mas ter regras com um adulto não significa que outro adulto da família precisa ficar sem saber."

Rafael assentiu. Não tentou usar a inteligência dos filhos como justificativa para a própria escolha.

Os meninos mostraram o que tinham construído, o que estudavam e como reconheciam problemas em ambientes preparados para desafios. Lara fez perguntas simples, pedindo que explicassem outra vez quando as respostas se tornavam rápidas demais. O orgulho chegou misturado a uma preocupação que aumentava a cada lembrança de portas fechadas e telas viradas.

"E o aeroporto?", perguntou de repente.

Theo olhou para Leo. Rafael permaneceu quieto, deixando que respondessem pelo que sabiam.

"A gente achava que ele podia ser nosso pai", disse Theo.

Lara sentiu o estômago se apertar. "Antes de voltar para o Brasil?"

O menino assentiu. Leo começou a explicar, desta vez sem seu jeito habitual de transformar tudo numa apresentação divertida. Tinham procurado informações públicas, comparado fotografias e encontrado referências à passagem de Rafael pelo aeroporto. Não tinham uma prova de parentesco. Tinham uma suspeita e uma vontade enorme de que estivesse certa.

A viagem antecipada, feita com a assistência que Lara conhecia, tivera um objetivo que ela não conhecera. Os dois queriam encontrá-lo antes que ela chegasse. Haviam organizado a aproximação como se bastasse oferecer a todos o início de uma conversa para que o resto pudesse acontecer.

"Vocês me deixaram achar que tinha sido por acaso."

Leo baixou a cabeça. "Sim."

"E se ele não fosse? E se vocês se aproximassem de alguém que não era seguro?"

Theo apertou as mãos. Pela primeira vez desde que começara a explicar, pareceu pequeno demais dentro da cadeira.

"A gente não pensou direito nessa parte."

Lara ficou alguns segundos olhando os filhos. Queria abraçá-los e queria que entendessem o tamanho do risco. Uma vontade não precisava cancelar a outra.

"Por que vocês acharam que precisavam resolver isso sozinhos?"

A pergunta fez Leo erguer os olhos, já cheios de lágrimas.

"Eu queria que você tivesse alguém. Você sempre falava que estava tudo bem, mas às vezes ficava muito cansada."

O peito de Lara doeu de um jeito diferente. Aproximou a cadeira e segurou suas mãos.

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"Meu cansaço nunca foi uma tarefa que vocês precisavam consertar. Eu queria encontrar amor, sim. Mas ser a mãe de vocês não era uma coisa da qual eu precisava ser salva."

Theo respirou fundo, como se estivesse soltando um peso que carregara sem saber nomear. Lara o chamou para perto também. Ficaram os três abraçados até que os meninos conseguissem ouvi-la sem tentar responder depressa.

"Eu amo o que aconteceu com a nossa família. E fiquei assustada com o que vocês fizeram. As duas coisas são verdade."

Rafael se aproximou quando ela o olhou. "E eu deixei uma conversa importante esperando porque era mais confortável continuar recebendo a confiança deles sem enfrentar sua reação. Sinto muito."

Não pediu que ela agradecesse o resultado. Lara precisava daquela diferença para continuar.

Conversaram por bastante tempo. Combinaram atividades supervisionadas, horários que não atravessassem o sono, contas e contatos conhecidos pelos pais e uma regra clara: não entrariam em sistemas de outras pessoas nem usariam talento como permissão. Se alguém de fora pedisse segredo, contariam. Se cometessem um erro, poderiam contar antes de tentar escondê-lo.

Lara também perguntou sobre os brincos. Rafael explicou que os meninos tinham sugerido o aviso discreto e ajudado em testes simples, enquanto a montagem e as verificações haviam ficado com adultos responsáveis. Ela escutou e deixou claro que conheceria dali em diante tanto as possibilidades quanto os limites dos projetos da família.

Ao fim, Theo lhe mostrou um pequeno jogo que fizera. Leo insistiu em apresentar o personagem que pulava mais alto que os outros. Lara perdeu duas vezes, riu na terceira e percebeu que ainda podia se encantar depois de estabelecer um limite.

Mais adiante na gestação, já com a barriga ocupando boa parte do espaço entre ela e a mesa, acompanhou Rafael a uma confraternização da empresa. Escolhera o vestido no ateliê e estava satisfeita por conseguir se sentar sem precisar organizar metros de tecido.

Depois dos prêmios destinados aos funcionários, o apresentador anunciou uma brincadeira separada para os acompanhantes. Lara foi chamada para tirar um envelope. Desconfiou quando o homem olhou para Rafael antes de abri-lo. Teve certeza quando viu a mão trocar um cartão discretamente demais para alguém que estava em cima de um palco.

A surpresa era uma chave simbólica de um apartamento que Rafael pretendia lhe dar. Ela agradeceu, recebeu os aplausos e guardou a conversa para o carro.

"Da próxima vez, contrata alguém que não esconda o cartão na manga."

Rafael ficou em silêncio por dois segundos. "Você viu?"

"Eu trabalho com mangas."

Ele começou a rir, rendido. Explicou que o imóvel era um presente pessoal, fora de todos os prêmios da equipe. Lara disse que poderiam conversar sobre o presente, mas que ele não precisava inventar sorte para lhe oferecer alguma coisa.

"Pode só dizer que pensou em mim."

Rafael beijou sua mão. "Pensei em você. E fui péssimo em disfarçar."

Em casa, encontraram os meninos dormindo e um desenho novo sobre a mesa. Havia um sol, uma lua e uma estrela ainda sem rosto. Lara passou a mão pela barriga, sentindo um movimento sob a palma.

"Estamos esperando você", murmurou.

Dessa vez, não havia ninguém do lado de fora do segredo.

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