"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 70
A caminho dele
O mar apareceu pela janela antes que Lara conseguisse identificar a ilha. Era uma faixa de luz entre o céu aberto e os morros verdes, tão diferente da cidade que ela ficou alguns segundos sem falar. Rafael percebeu o silêncio e procurou sua mão no banco.
"Está cansada?"
"Estou olhando."
Ele acompanhou seu olhar e deixou a pergunta ali. Lara apertou seus dedos, agradecida. A viagem tinha sido organizada com intervalos, assentos confortáveis e uma margem generosa para o ritmo das crianças. Não precisava ser tratada como uma travessia heroica para que fosse especial.
Theo queria saber onde ficaria a sala em que guardariam as alianças. Leo procurava a praia. A chegada trouxe tantas novidades que os dois fizeram as mesmas perguntas mais de uma vez, recebendo respostas de pessoas diferentes e comparando a confiabilidade das informações.
Na véspera da cerimônia, Lara caminhou um pouco pela faixa de areia com Rafael. A barriga já se desenhava sob o vestido leve. Ele diminuiu o passo sem segurá-la a cada irregularidade, e os dois pararam num ponto de onde podiam ver as cadeiras sendo preparadas.
"Você imaginou assim?", perguntou.
Lara olhou para o espaço ainda incompleto. "Eu não imaginava quem estaria aqui. Acho que essa parte é maior que o lugar."
Na varanda mais adiante, Teresa e Helena conversavam sobre horários. Antônio tentava explicar alguma coisa a Eduardo usando uma concha. Marcelo vinha atrás dos meninos carregando dois baldes que não eram seus. Isabela, recuperando os movimentos com cuidado, ria de algo que Tiago acabara de dizer.
Rafael seguiu o olhar da esposa. "Eu gosto de quem está aqui."
Ela encostou a cabeça em seu ombro por um instante. O vento tinha cheiro de sal e o som dos filhos chegava inteiro, levado da praia até os dois.
Na manhã do casamento, Mirela entrou no quarto com uma bandeja de café e encontrou Bianca protegendo o vestido de uma janela aberta. Isabela estava sentada perto da penteadeira, segurando a caixa dos sapatos. Helena olhava para a filha com a expressão de quem ainda precisava se acostumar ao direito de participar.
Lara terminou de comer antes que qualquer maquiagem começasse. Bianca aprovou a ordem. Mirela declarou que aquele casamento já estava à frente de muitos outros.
O vestido escolhido na loja recebera ajustes para acompanhar o corpo de Lara. A cintura tinha espaço. O tecido se movia quando ela respirava. Ao se olhar no espelho, reconheceu a mulher que desenhara tantas roupas para outras pessoas e que agora podia escolher como gostaria de ser vista.
Isabela abriu a caixa dos sapatos baixos.
"A parte mais sensata de todas as nossas decisões."
Lara riu, estendendo o pé. "Eu participei de algumas outras."
"Mas nenhuma vai agradecer tanto depois da festa."
Helena ajudou com o fecho do colar. Antes de terminar, pediu licença e mostrou uma pequena fotografia de Beatriz, colocada num envelope que cabia na bolsa de Lara.
"Não sabia se você gostaria de levar. Posso guardar se preferir."
Lara recebeu a imagem e ficou olhando o rosto da mãe por alguns segundos. Era a cópia que tinham combinado depois daquele primeiro almoço. Não estava sendo oferecida como uma presença que substituísse outra. Podia existir ali, junto de tudo que ela se tornara.
"Quero levar. Obrigada, mãe."
Helena beijou sua cabeça, e as duas permaneceram próximas até Bianca avisar, com delicadeza prática, que lágrimas precisavam de um intervalo para o retoque.
No quarto ao lado, Rafael enfrentava uma crise relacionada às flores. Leo tinha descoberto que algumas pétalas grudavam quando seguradas com muita força. Theo queria recomeçar o ensaio. Antônio sugeria que ninguém perceberia a diferença. O mais velho considerou aquela previsão impossível de comprovar.
Quando Lara soube da discussão, já estava pronta. Escutou as vozes pelo corredor e começou a rir antes de os filhos aparecerem. Os dois pararam à porta ao vê-la.
Theo ficou em silêncio. Leo disse apenas:
"Nossa."
Lara abriu os braços, tomando cuidado com o vestido. Eles vieram devagar, como se a roupa tivesse tornado a mãe frágil de repente.
"Ainda sou eu", avisou.
Leo encostou a bochecha em seu braço. "Eu sei. Só está muito bonita."
Theo assentiu, com os olhos brilhantes. Ela beijou os dois e conferiu se tinham comido, se os sapatos estavam confortáveis e se sabiam que poderiam pedir ajuda. As respostas vieram apressadas. Naquele momento, os meninos tinham responsabilidades importantes demais para ficar pensando em um lanche.
Eduardo esperava perto da passagem para o jardim. Quando viu Lara se aproximar, endireitou os ombros e depois pareceu esquecer o que faria com as mãos.
"Posso?", perguntou, oferecendo o braço.
Ela o segurou. "Pode."
Antes de começarem, ele olhou para a filha com uma emoção que não tentou esconder.
"Eu queria ter estado em tantos outros caminhos."
Lara apertou seu braço. "Está neste."
Eduardo assentiu, aceitando o presente sem acrescentar uma cobrança ao passado.
A música começou. Theo e Leo entraram primeiro. O mais velho espalhava pétalas em intervalos calculados. O mais novo esqueceu a própria regra no meio do percurso e despejou uma quantidade generosa demais de uma só vez. Parou, olhou o fundo do cesto e buscou o irmão com os olhos.
Theo voltou dois passos e dividiu as flores que restavam. O gesto levou uma risada baixa pela primeira fila. Rafael cobriu a boca para disfarçar o sorriso e recebeu dos filhos um olhar que exigia respeito pelo trabalho em execução.
Depois Lara apareceu.
Viu o marido antes de conseguir distinguir qualquer outro rosto. Rafael estava de pé, as mãos juntas, e o modo como respirou ao encontrá-la fez a distância entre os dois parecer maior por um instante. Ela caminhou sem pressa, apoiada no braço do pai, sentindo o vestido acompanhar seus passos.
Quando chegaram, Eduardo beijou sua testa. Não a entregou como se transferisse uma responsabilidade. Soltou seu braço quando ela deu o passo seguinte por vontade própria.
Rafael segurou suas mãos.
"Oi", disse, num sussurro.
Lara sorriu. "Oi."
A cerimônia começou com palavras sobre os compromissos que eles já viviam. O casamento civil existia, a família existia, mas aquele encontro lhes permitia olhar tudo de frente com as pessoas que amavam ao redor.
Na hora dos votos, Rafael tirou um papel do bolso. Olhou a primeira linha e pareceu decidir que podia falar sem ele.
"Eu aprendi a ser pai depois de vocês já terem atravessado muita coisa sem mim", começou. "Aprendi com dois meninos que me mostraram o lugar que eu queria ocupar. E com você, que não me deixou confundir querer com ter direito."
Lara sentiu os olhos se encherem.
"Eu prometo continuar perguntando. Continuar aprendendo. Ficar do seu lado quando você quiser companhia e respeitar quando precisar de espaço. E lembrar, nos dias difíceis, que nós somos duas pessoas escolhendo a mesma vida."
Ela passou o polegar pela mão dele antes de responder.
"Eu passei muito tempo achando que pedir ajuda custava alguma coisa que eu não podia pagar. Com você, fui aprendendo a pedir sem me perder. Quero continuar fazendo isso. Quero rir dos nossos filhos com você, brigar pelo que importa, trabalhar, voltar para casa e te encontrar. Quero que a gente continue se escolhendo mesmo quando o dia não tiver nada de bonito para mostrar."
Leo fungou perto de Teresa. Quando ela lhe ofereceu um lenço, ele alegou que era o vento. Theo aceitou outro sem apresentar justificativa.
As alianças chegaram nas mãos dos dois, depois de uma breve conferência sobre qual irmão carregava qual caixa. Rafael beijou Lara ao fim dos votos, e o aplauso veio misturado ao som do mar.
Na festa, ninguém conseguiu manter os meninos afastados do bolo por muito tempo. Antônio posou para uma fotografia com os netos e pediu uma segunda porque Leo tinha saído olhando a mesa. Cecília segurou a mão de Lara durante um cumprimento, sem tentar fazer um discurso. Artur permaneceu perto, emocionado com a facilidade com que a neta o chamou para outra foto.
Bianca aceitou dançar com Diego. Quando ele perguntou se estava incomodando, respondeu que ele poderia continuar descobrindo pelo fato de ela permanecer ali. Mirela e Daniel dançaram com Davi entre os dois. Gabriel enviou uma mensagem de felicitações que Lara leu com um sorriso tranquilo, sem uma conversa pendente escondida nas palavras.
Mais tarde, Rafael a levou até uma parte menos movimentada da varanda. Ela tirou um fiapo de pétala do bolso dele e o mostrou.
"Você recebeu uma reserva."
"O Leo disse que podia faltar no final."
Lara riu e se aproximou para beijá-lo. Rafael apoiou a mão em sua barriga, esperando o olhar que lhe permitisse continuar. A lembrança do que ela viveria de novo, do esforço e do corpo que sustentava aquela criança, lhe deixou a voz baixa.
"Eu queria poder dividir mais essa parte."
Ela cobriu a mão dele com a sua. "Pode dividir o que vem junto. Eu vou precisar dormir, comer, reclamar e ter alguém que escute."
"Eu vou estar."
Lara encostou a testa na dele. Ao fundo, os filhos os chamaram para uma fotografia. Quando voltaram juntos, encontraram dois cestos vazios, uma família esperando e espaço suficiente para o bebê que ainda chegaria.
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