"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 66
Algumas horas para respirar
Rafael estava escolhendo uma frase quando Lara entrou no escritório. Ela reconheceu o processo pelo cuidado excessivo com que ele colocou a caneta sobre a mesa. Tinha aprendido que seu marido, capaz de enfrentar negociações difíceis sem alterar a voz, podia se atrapalhar inteiramente diante da possibilidade de ela atravessar uma rua enjoada.
"Pode falar", disse, sentando-se.
"A Bianca comentou a saída."
"Eu sei. Eu vou com ela."
Ele assentiu devagar. "Você não prefere que eu leve vocês?"
Lara inclinou a cabeça. "Você vai ficar esperando?"
A pausa respondeu antes dele.
Ela não ficou zangada imediatamente. Olhou para aquele homem que tinha perdido os primeiros anos dos filhos e agora parecia querer impedir que o tempo lhe escondesse qualquer outra coisa. Entendia o medo. Não podia, porém, aceitar que ele se tornasse o responsável por cada decisão de seu dia.
"Rafael, eu fui à consulta. Combinei o acompanhamento. Se eu passar mal, vou mudar o programa. Mas eu preciso poder sair com minhas amigas sem montar uma operação em torno disso."
Ele passou a mão pelo rosto.
"Eu fico imaginando tudo que pode acontecer."
"Eu também tenho imaginação. Não posso viver só dentro dela."
Rafael se recostou na cadeira e a ouviu até o fim. Lara explicou o que aceitava: Mauro faria o trajeto combinado, teriam telefones carregados, escolheriam um lugar onde fosse possível sentar e comer sem pressa. O que não aceitava era uma sucessão de ligações para conferir se continuava bem ou a transformação de qualquer cansaço numa ordem de voltar.
"Você pode perguntar como foi quando eu chegar", disse. "Pode me mandar uma mensagem porque está com saudade. Eu gosto disso. Só não quero precisar apresentar prova de que consigo passar uma tarde fora."
Ele ficou em silêncio por mais um momento. Depois estendeu a mão sobre a mesa.
"Está bem. Eu estou tentando cuidar e acabo tentando controlar o cenário inteiro."
Lara colocou seus dedos nos dele. "Você pode cuidar de mim enquanto eu continuo escolhendo."
Rafael levou sua mão aos lábios. "Então me conta o que vocês vão fazer porque eu quero saber da sua tarde."
Ela sorriu. A diferença estava naquela pergunta, no jeito como ele finalmente lhe devolvia a possibilidade de responder sem se defender.
O plano envolvia um almoço, uma visita a uma loja de tecidos de decoração e uma olhada em sapatos confortáveis. Mirela tinha convocado a última etapa por iniciativa própria. Bianca alegava precisar de uma opinião sobre um presente. Isabela fora convidada e perguntara duas vezes se não estava atrapalhando, até Lara responder que ninguém precisava de quatro pessoas para olhar sapatos por obrigação.
Enquanto ela se arrumava, os meninos apareceram com um pequeno envelope. Dentro havia um desenho em que Lara tinha uma barriga redonda e o bebê surgia dentro de um círculo, acenando.
"É para ele saber que a gente está aqui", explicou Leo.
"Ou ela", corrigiu Theo.
"Eu falei ele porque bebê é ele na frase."
A discussão gramatical obrigou Lara a se sentar na cama para rir. Guardou o desenho numa pasta que começava a reunir as primeiras lembranças da gestação e chamou os dois para um abraço.
"Eu vou voltar depois da saída com as meninas. Vocês vão ficar com o papai."
Leo considerou o programa. "Ele vai cozinhar?"
"Vou pedir uma segunda opinião antes do sal", respondeu Rafael da porta.
Theo pareceu achar a resposta aceitável. Os dois saíram para preparar uma atividade, deixando os pais sozinhos por um instante.
Lara escolheu os brincos pequenos. Conferiu a bateria do módulo da bolsa e fez um teste curto, avisado, antes de sair. O telefone de Rafael recebeu a confirmação. Ele mostrou a tela e encerrou o teste sem aproveitar o momento para acrescentar novas exigências.
"Não depende de você usar para eu respeitar o combinado", disse.
Ela lhe deu um beijo demorado. "Boa resposta."
Naquela mesma manhã, Sérgio recebeu a confirmação de que não haveria outro pagamento. A mensagem vinha por um canal formal e remetia ao acordo já cumprido. Nenhum membro da família atendera às ligações em que ele tentara acrescentar uma urgência diferente a cada dia.
Ele releu o texto até as palavras perderem qualquer significado além da recusa. Tinha imaginado que, ao descobrir Isabela, encontraria uma fonte permanente de dinheiro. Em vez disso, vira pessoas estabelecerem limites que Lara já não tinha medo de repetir.
Durante algum tempo, telefonou para conhecidos procurando favores que ninguém se apressou a oferecer. As portas que antes abriam por interesse agora permaneciam fechadas. Havia consequências de suas próprias escolhas espalhadas por toda parte, mas Sérgio preferia organizá-las como ofensas cometidas contra ele.
Abriu no telefone a imagem do aniversário. Depois procurou uma fotografia mais recente, publicada por outra pessoa, em que Lara aparecia ao lado de Bianca e Mirela. Ficou olhando os rostos com uma atenção fria. A ideia que começara como ressentimento já não lhe parecia apenas uma maneira de assustar.
No almoço, Lara não sabia de nada disso. Estava ocupada tentando convencer as amigas de que uma gestação recente não a transformara numa pessoa incapaz de escolher o próprio prato.
"Eu só perguntei se o molho estava te incomodando", defendeu-se Mirela.
"Você afastou o prato inteiro enquanto perguntava."
Bianca puxou a travessa de volta para o centro. "Pronto. Devolvida a soberania do almoço."
Isabela, que acabara de chegar depois de resolver um compromisso, riu e ofereceu uma caixinha pequena. Dentro havia um par de meias de bebê, de cor neutra.
"Eu sei que é cedo. E sei que todo mundo já deve ter comprado coisas demais. Mas passei pela vitrine e..."
Lara tocou o tecido com a ponta dos dedos.
"Obrigada. É lindo."
Isabela pareceu aliviada. Guardou o assunto ali, sem pedir uma reação maior. Aos poucos, estava aprendendo que uma gentileza não precisava terminar com uma confirmação sobre o lugar que ocupava.
O almoço se prolongou. Bianca contou que Diego tinha finalmente conseguido passar uma conversa inteira sem mencionar a própria intenção de mudar. Mirela considerou aquilo um progresso mensurável. Lara perguntou se ela tinha gostado da companhia, e Bianca demorou a responder o suficiente para entregar a resposta.
Depois foram à loja de tecidos. Lara observou texturas que poderiam funcionar no quarto do bebê, mas não fechou uma decoração inteira. Queria conversar com Rafael, ouvir os meninos e esperar algumas semanas antes de transformar a casa num depósito de caixas.
Isabela lhe mostrou um tecido claro com pequenos desenhos de céu. Theo certamente discutiria a precisão das estrelas; Leo tentaria encontrar uma lua com expressão engraçada. Lara guardou uma amostra, sorrindo sozinha.
O telefone vibrou com uma fotografia enviada por Rafael. Os meninos estavam diante de uma panela, longe do fogo, segurando a receita plastificada. A legenda dizia apenas que o sal estava sob supervisão.
Ela respondeu com uma gargalhada gravada e guardou o aparelho. Não houve uma pergunta sobre a hora de voltar. A ausência daquela cobrança lhe deu vontade de chegar em casa e abraçá-lo com ainda mais força.
Na última loja, experimentou sapatos baixos. Mirela a fez andar pelo corredor e conferir se os dedos tinham espaço. Bianca sugeriu que levasse os mais confortáveis para a cerimônia, independentemente de qualquer tradição. Isabela disse que, se alguém reparasse nos pés da noiva durante a entrada, precisaria trocar os próprios óculos.
Lara acabou comprando um par simples para usar desde já. O gesto lhe trouxe uma satisfação pequena e completa. Tinha passado uma tarde comum, conversado sobre coisas importantes e bobas, sentido um pouco de enjoo e esperado que passasse sentada, sem que aquilo encerrasse seu dia.
Ao saírem, o tempo tinha mudado. Uma chuva rápida começava a escurecer a calçada. Mauro enviou uma mensagem informando que aguardava no ponto combinado e que o trânsito na entrada estava lento. Lara confirmou que se encontrariam na área coberta.
As quatro seguiram juntas por um corredor de acesso, parando antes da porta para abrir as bolsas e guardar o que não deveria molhar. Mirela procurava o próprio telefone. Bianca segurou a sacola de Lara enquanto ela ajustava a alça no ombro. Isabela comentou que Tiago perguntara se ela teria fome depois de um almoço de três horas.
"Com ele, essa pergunta tem histórico", respondeu Lara.
A risada foi interrompida por uma voz conhecida.
"Vocês demoraram."
Sérgio estava perto da passagem, molhado nos ombros, com uma expressão que Lara não via desde os piores dias na antiga casa. Não se aproximou sorrindo. Também não fingiu surpresa por encontrá-las.
Isabela perdeu a cor. Bianca deu um passo para ficar ao lado de Lara, e Mirela ergueu o telefone que acabara de encontrar.
"Nós não vamos conversar aqui", disse Lara.
A própria voz lhe pareceu firme, embora o corpo tivesse reconhecido o perigo antes das palavras. Olhou rapidamente para a área aberta, procurando o funcionário que vira minutos antes. Sérgio acompanhou o movimento de seus olhos.
"Dessa vez você vai me ouvir."
Lara levou a mão ao cabelo, devagar, sentindo sob os dedos a pequena peça do brinco. Não sabia se o sinal passaria por aquele corredor. Sabia apenas que precisava fazer alguma coisa antes que ele reduzisse ainda mais o espaço entre os dois.
Ao seu lado, Isabela segurou sua mão livre.
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