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"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 60

正文开头

Um lugar à mesa

Lara passou boa parte do caminho olhando para a sacola entre seus pés. Levava um bolo simples de laranja, feito naquela manhã com a ajuda ruidosa dos meninos. Theo cuidara da contagem dos ovos. Leo reclamara que raspar a tigela deveria ser uma atividade oficial, com cargo e horário definidos. A cozinha ficara cheia de farinha, mas o bolo crescera direito.

Agora ela se perguntava se deveria ter comprado flores.

Rafael percebeu quando sua mão voltou à alça da sacola.

"Ele continua inteiro."

"Estou pensando se foi uma ideia estranha."

"Você quis levar alguma coisa que tivesse feito. Eles vão entender."

No banco de trás, Leo se inclinou até o limite do cinto.

"Se não entenderem, a gente explica que fui eu que coloquei a cobertura."

"Você colocou na sua boca", corrigiu Theo.

A discussão sobre quantidades desviadas fez Lara rir, e a tensão perdeu um pouco de espaço. Ainda assim, quando o carro parou diante da casa dos Monteiro, precisou respirar antes de abrir a porta. Não estava indo a uma recepção. Concordara com um almoço pequeno, sem convidados inesperados, fotografias para divulgação ou conversas decididas por outras pessoas.

Helena respeitara tudo. Esperava ao lado de Eduardo, com os olhos atentos e as mãos vazias. Não havia presentes empilhados na entrada. Isabela apareceu atrás deles, usando uma roupa simples, e se limitou a dar bom dia.

"Trouxe bolo", disse Lara, quase ao mesmo tempo que Helena dizia que estava feliz por vê-los.

As duas pararam. Depois sorriram com a mesma timidez, e aquilo pareceu facilitar o abraço breve que veio em seguida.

Eduardo se abaixou para cumprimentar os netos. Leo lhe mostrou imediatamente um dedo com um pequeno curativo.

"Não foi no bolo. Foi numa folha. Papel é perigoso quando parece que não é."

"Vou lembrar disso", respondeu Eduardo, com uma seriedade que conquistou o menino.

Theo entregou uma caixa menor. Dentro, havia dois desenhos da família, um feito por cada irmão. Num deles, todas as pessoas tinham o mesmo tamanho. No outro, Rafael ocupava quase metade da folha.

"O papai ficou grande porque eu comecei por ele", explicou Leo. "Não deu para diminuir depois."

Helena recebeu os desenhos como se fossem objetos frágeis. Passou o dedo pelo próprio nome, escrito com ajuda, sem tocar no lápis de cor.

Da sala veio um homem alto, de semblante reservado. Lara reconheceu o rosto das fotografias que Eduardo lhe mostrara, mas ficou parada quando ele se aproximou. Marcelo também pareceu perder por um instante a sequência do que tinha preparado.

"Eu sou Marcelo."

"Eu sei."

"Também sei quem você é", respondeu ele, e os dois riram da apresentação desnecessária.

O abraço não veio imediatamente. Marcelo lhe ofereceu a mão, permitindo que escolhesse a distância. Lara apertou seus dedos e sentiu o quanto aquele gesto formal escondia um nervosismo parecido com o seu.

Leo resolveu a parte seguinte sem consultar ninguém.

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"Você é nosso tio?"

Marcelo olhou para Lara antes de responder. Ela assentiu.

"Sou."

"Você sabe montar pista?"

"Depende da pista."

Theo ergueu a mochila que trouxera. "A gente trouxe as peças difíceis."

Quinze minutos depois, o homem que parecera intimidar até os próprios móveis estava sentado no chão, com um trilho azul na mão e duas crianças explicando que ele tinha invertido a curva. Isabela passou pela sala, viu a cena e parou para guardar a imagem na memória.

"Ele nunca deixa ninguém mexer na organização dele", comentou, baixo.

Marcelo ouviu. "Essa organização é outra."

"Está toda errada", informou Theo, prestativo.

A gargalhada de Eduardo se espalhou pelo ambiente. Lara, ainda perto da porta, deixou os ombros baixarem. Não precisava encontrar uma maneira perfeita de entrar naquela família. Podia observar um trilho de brinquedo sendo encaixado ao contrário e participar da correção.

Cecília e Artur chegaram pouco depois, avisados desde o começo e esperados por todos. A avó segurou as mãos de Lara com cuidado. Artur pareceu procurar palavras que coubessem naquele domingo, sem trazer de volta toda a culpa dos anteriores.

"Obrigado por vir."

"Eu quis vir", respondeu ela.

Fez questão de dizer aquilo. Não estava ali para receber uma sentença sobre o passado nem para aliviar a consciência de ninguém. Quis conhecer as pessoas que, dali em diante, teriam de aprender a conhecê-la também.

Durante o almoço, Helena quase pediu desculpas pelo tempero três vezes. Na quarta, Lara sorriu.

"Está bom. Pode parar de observar meu prato."

Helena levou a mão à própria boca, surpreendida. "Estou fazendo isso?"

"Desde a salada."

"Eu não sei o que você gosta."

A honestidade desarmada da frase mudou o ar entre elas. Lara pousou o garfo.

"Pode perguntar. Eu gosto de laranja, café sem muito açúcar e arroz quando ele não fica grudado. Não gosto que escolham por mim antes de perguntar."

Helena assentiu lentamente. "Está bem. Você quer mais arroz?"

"Quero."

Foi uma conversa pequena. Ainda assim, Eduardo desviou o rosto por um instante. Rafael, sentado ao lado da esposa, percebeu a mão dela procurando a sua debaixo da mesa e apertou seus dedos.

A sobremesa trouxe o bolo, duas travessas preparadas pela casa e a discussão de Leo sobre qual deveria ser experimentada primeiro. Marcelo cortou uma fatia pequena para si. O sobrinho examinou o tamanho com desaprovação.

"Você está com medo de ter sido eu?"

"Agora estou."

Leo deu uma gargalhada tão alta que Isabela, pela primeira vez naquele almoço, riu sem interromper o próprio riso para conferir o rosto de Helena. Lara viu. Não sentiu a obrigação de produzir um sorriso para acompanhá-la, mas deixou de esperar uma nova disputa a cada movimento.

Depois, Eduardo perguntou se podia mostrar uma caixa de fotografias. Não abriu antes de receber autorização. Havia imagens de Helena jovem, de Marcelo pequeno, de viagens antigas e de Beatriz em ocasiões familiares.

Lara segurou uma fotografia da mãe que a criara. Beatriz aparecia de perfil, com uma menina ainda pequena no colo. A imagem estava ligeiramente desfocada, como se quem fotografara tivesse se virado depressa.

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"Eu não conhecia essa."

"Pode ficar com ela", disse Artur.

Lara passou o polegar pela borda. "Quero uma cópia. Esta faz parte da história de vocês também."

Helena se sentou ao seu lado, deixando um espaço entre os corpos.

"Eu tenho medo de falar dela e parecer que estou pedindo para você escolher."

Lara olhou para a fotografia antes de responder.

"Eu não consigo deixar de sentir falta da minha mãe porque encontrei vocês."

"Eu sei. Estou tentando aprender a não ouvir isso como uma porta fechada."

Lara ergueu os olhos. Aquela confissão lhe pareceu mais útil que uma promessa grandiosa. Helena não dizia que sabia fazer tudo. Estava mostrando onde ainda precisava mudar.

Na sala, os meninos chamaram a avó para ver o trem funcionando. Helena se levantou depressa e parou, como se esperasse uma correção. Lara apenas pegou a fotografia e foi junto.

A tarde avançou entre conversas que não tentavam resolver todos os anos perdidos. Eduardo contou um desastre culinário de Marcelo. Marcelo negou a quantidade de fumaça. Isabela confirmou que os bombeiros não tinham sido chamados, mas apenas porque a janela fora aberta a tempo. Theo quis saber se um adulto também ficava de castigo.

Quando Lara saiu para atender uma ligação breve do ateliê, Marcelo a acompanhou até a varanda. Ficaram alguns segundos ouvindo o barulho das crianças.

"Eu ensaiei uma conversa inteira", admitiu ele.

"E esqueceu?"

"Quando você disse que sabia quem eu era."

Ela sorriu. Marcelo apoiou as mãos no parapeito.

"Não vou pedir que você me trate como alguém que esteve aqui. Eu não estive. Mas posso começar atendendo quando você ligar. Ou consertando uma prateleira, se você tiver uma. Eu trabalho melhor com coisas que consigo fazer."

Lara pensou no quarto dos filhos, onde um suporte esperava havia dias por um parafuso apropriado.

"Tenho uma prateleira."

Ele a olhou com uma alegria tão inesperada que ela precisou baixar os olhos para conter a própria emoção.

Na hora da despedida, Leo descobriu que deixara um carrinho debaixo do sofá. Todos começaram a procurar. Lara estava segurando as sacolas quando falou sem preparar a frase:

"Mãe, você viu o vermelho?"

Helena ficou imóvel junto à mesa. O silêncio chamou a atenção de Lara, que percebeu o que dissera. Sentiu o rosto aquecer, mas não retirou a palavra.

"Eu... acho que está perto da cortina", respondeu Helena, num fio de voz.

Eduardo encontrou o brinquedo. Lara o recebeu com um beijo no rosto.

"Obrigada, pai."

Ele fechou os olhos por um instante, sem prender a filha num abraço que ela não pedira. Quando se virou para Marcelo, Lara conseguiu sorrir mesmo com a garganta apertada.

"Você me manda mensagem sobre a prateleira, irmão?"

"Mando. Amanhã. Antes das oito é cedo?"

"Muito cedo", respondeu Rafael, arrancando uma risada de todos.

Já perto do carro, Helena mencionou outra coisa, com cuidado. O aniversário de Lara se aproximava. O mesmo dia em que, durante tantos anos, tinham celebrado Isabela.

"Queria conversar sobre como você gostaria de passar essa data. Sem decidir por você."

Lara olhou para a irmã de criação dos Monteiro, que permanecia na porta. Isabela não baixou o rosto, mas tampouco se adiantou para responder.

"A gente conversa", disse Lara.

Dessa vez, o futuro tinha uma data no calendário. E ela já não precisava atravessá-lo sozinha.

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