"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 59
A porta que continuava aberta
Quando percebeu que não sabia voltar, Isabela já tinha parado diante da mesma farmácia duas vezes. As avenidas pareciam diferentes sem o motorista esperando junto à calçada. Procurou o celular no bolso e encontrou apenas o lenço que enfiara ali ao sair. O aparelho continuava em cima da cama. A lembrança, que antes lhe parecera uma declaração corajosa de independência, agora lhe dava vontade de chorar.
Uma garoa começou a cair. Isabela entrou debaixo do toldo de uma pequena lanchonete e ficou olhando o homem que guardava espigas de milho num recipiente. O cheiro quente abriu um buraco ainda maior em seu estômago. Naquela manhã, deixara o café intacto para que Helena percebesse seu sofrimento. Na hora do almoço, trancara a porta. Agora não tinha dinheiro nem para uma garrafa de água.
"Vai fechar?", perguntou, sem saber por que precisava conversar.
"Daqui a pouco. Quer uma espiga?"
Ela levou a mão ao bolso outra vez. O gesto bastou para que o homem entendesse.
"Pode pegar. Essa já estava pronta."
Isabela ergueu o rosto, desconfiada. "Por quê?"
O homem pareceu achar a pergunta estranha. "Porque você está olhando para ela faz cinco minutos. Tem sal aqui."
Ela aceitou o guardanapo. A primeira mordida queimou sua língua, mas não reclamou. Sentou-se na ponta do banco, protegendo os sapatos da água que começava a escorrer pela calçada. Quando agradeceu, o homem já estava ocupado fechando uma caixa. Não perguntou seu sobrenome, não quis conhecer sua família e não esperou nada em troca.
A simplicidade daquilo a desconcertou mais que qualquer discussão dos últimos dias. Ficara esperando que alguém demonstrasse que ela ainda tinha valor, como se precisasse apresentar um documento para merecer uma gentileza. Aquele desconhecido lhe dera comida porque tivera fome.
Algum tempo depois, a chuva diminuiu. Isabela seguiu até uma rua movimentada, onde havia mesas na calçada e vendedores recolhendo carrinhos. Parou diante de um balcão de pastéis, calculando se poderia pedir um telefone emprestado. Foi então que um rapaz de camiseta escura e tênis coloridos perguntou se estava procurando alguém.
"Não estou perdida", respondeu depressa.
Ele olhou para a placa da rua, depois para os sapatos molhados dela. "Ótimo. Porque eu estou esperando um amigo há vinte minutos e já comecei a achar que a cidade mudou de lugar."
A resposta inesperada desarmou sua irritação. Isabela quase sorriu.
"Você está tremendo. Quer sentar?"
"Não tenho dinheiro."
O rapaz não fez a expressão de pena que ela temia. Apenas puxou uma cadeira. "Eu perguntei se queria sentar. A parte financeira da cadeira é bastante acessível."
Ela sentou. Quando o atendente apareceu, pediu água; o rapaz acrescentou dois pastéis e um caldo de cana pequeno para ele. Só depois se apresentou.
"Tiago."
"Isabela."
"Você quer ligar para alguém, Isabela?"
Queria. Não queria. A contradição lhe apertou a garganta. Imaginou Helena encontrando a cama vazia e, pela primeira vez desde que saíra, pensou na angústia que provocara em vez de pensar apenas na reação que desejava obter.
"Daqui a pouco."
Tiago empurrou o telefone para o meio da mesa. "Fica aí. Sem pressa, mas não precisa passar a noite tentando criar coragem."
Ela comeu em silêncio. Ele conversou sobre o amigo atrasado, sobre um filme cujo final detestara e sobre o pastel que sempre prometia comer sem derrubar recheio. Não sabia quem ela era. Não falava de exames, heranças ou parentes. Quando derramou um pouco do próprio caldo na mesa, Isabela riu antes de conseguir impedir.
Tiago olhou para ela com surpresa satisfeita.
"Então você sabe fazer isso. Achei que tinha esquecido."
O telefone continuava entre os dois. Isabela finalmente o pegou, mas não discou para Helena. Pediu a localização de um endereço que guardara na memória por motivos dos quais já começava a se envergonhar. Tiago chamou um carro e esperou que a viagem fosse confirmada. Ela insistiu em anotar o valor para devolver depois.
"Devolve quando estiver com o seu celular. E avisa alguém que está viva. Isso é mais importante que o pastel."
Na casa dos Valença, Lara acabara de ouvir de Rafael que Isabela desaparecera quando a portaria telefonou. A identificação da visitante fez os dois se olharem. Minutos depois, a jovem entrou segurando as mangas úmidas do casaco.
Lara pediu uma toalha a Célia antes de fazer qualquer pergunta.
"Sua mãe está procurando você."
Os olhos de Isabela se encheram. "Eu sei."
"Então vamos avisar que está aqui."
Não houve negociação sobre isso. Lara telefonou para Helena diante dela, informou que estava bem e passou o aparelho. Isabela levou alguns segundos para falar. Quando conseguiu dizer "mãe", a voz do outro lado chegou tão quebrada que Lara se afastou para lhe dar privacidade.
Helena quis buscá-la imediatamente. Isabela pediu para ficar até a manhã seguinte. Lara ouviu o pedido quando a jovem devolveu o telefone, com o rosto vermelho e a coragem inteiramente desfeita.
"Só esta noite. Eu não sei o que falar quando chegar lá."
Lara pensou na mão que tentara alcançá-la no café, nas acusações e na dor que ainda carregava. Abrigar Isabela não mudaria nada daquilo. Ainda assim, havia um quarto de hóspedes disponível e uma pessoa molhada em sua sala.
"Você pode dormir aqui. Rafael e eu vamos combinar a volta com eles amanhã."
"Você não vai me perguntar por que vim?"
"Quando estiver seca e tiver comido."
Mais tarde, Isabela encontrou os dois na cozinha. Rafael tinha uma caneca na mão; Lara estava descalça, tentando alcançar uma caixa numa prateleira. Ele a retirou sem interromper a conversa e recebeu um beijo rápido como agradecimento. A naturalidade daquele gesto produziu em Isabela um constrangimento novo. Não havia conquista em andamento ali. Havia uma vida acontecendo.
Quando Rafael percebeu sua presença, afastou uma cadeira, mas continuou junto da esposa.
"Helena confirmou que vem depois do café."
Isabela assentiu. Pela primeira vez, não sentiu vontade de disputar sua atenção. Pensou em Tiago limpando caldo de cana com guardanapos e se perguntou por que aquela lembrança lhe dava calor no rosto.
Antes de subir, Isabela escreveu uma mensagem para Tiago no telefone emprestado, avisando que estava abrigada e que a família já sabia onde encontrá-la. A resposta chegou sem cobrança: ele ficou contente por saber. Ela releu aquelas poucas palavras antes de devolver o aparelho.
Na manhã seguinte, Theo e Leo a encontraram diante de uma tigela de frutas. Os dois pararam juntos, numa formação que Lara reconheceu imediatamente.
"Bom dia", disse Isabela.
"Você vai morar aqui?", perguntou Theo.
"Não. Vou para casa hoje."
Leo olhou para a mãe, conferindo a informação. Depois se aproximou da mesa.
"Você ainda quer casar com o papai?"
Isabela quase deixou cair a colher. Lara chamou o filho pelo nome, mas a resposta veio antes da advertência.
"Não. E foi errado eu insistir nisso."
Os meninos pareceram estudar seu rosto. Theo continuou sério. Leo pegou uma banana e a descascou devagar, como se estivesse conduzindo uma investigação importante.
Depois do café, convidaram a visitante para ajudar a construir um castelo com almofadas. Lara voltou à sala quando ouviu discussão sobre quem seria a ponte. Encontrou Leo tentando convencer Isabela a ficar ajoelhada entre duas cadeiras enquanto Theo empilhava uma almofada em suas costas.
"A ponte vai ser feita com as caixas", determinou Lara.
"Mas ela disse que podia", protestou Leo.
"Vocês podem brincar com uma pessoa sem transformar essa pessoa numa tarefa que ela não quer fazer. E não vão usar brincadeira para cobrar o que aconteceu comigo."
Theo baixou a almofada. Isabela tentou dizer que não se importava, mas Lara manteve a voz tranquila.
"Eu me importo com o que estou ensinando aos meus filhos."
Os dois pediram desculpas. Isabela, sentada no tapete, ficou olhando enquanto recolhiam as caixas. Nunca lhe ocorrera que Lara pudesse defendê-la numa coisa tão pequena sem exigir que esquecesse as grandes.
Quando ficaram sozinhas por um instante, ela entrelaçou os dedos.
"Eu falei coisas horríveis sobre você. Sobre os meninos também. Não era só medo. Eu queria ganhar. Queria que você fosse embora para eu não ter de pensar no que estava acontecendo."
Lara se sentou na ponta do sofá.
"Eu sei."
"Desculpa. Não estou pedindo para você dizer que não foi nada."
Aquilo, pelo menos, era diferente de todas as tentativas anteriores. Lara sustentou seu olhar.
"Foi alguma coisa, sim. Eu ouvi. E me machucou. A gente vai precisar de tempo."
Isabela assentiu, com lágrimas descendo em silêncio.
"Mas você não precisa desaparecer para saber se alguém vai sentir sua falta", continuou Lara. "Eles ficaram assustados. Você pode estar com raiva deles e continuar atendendo ao telefone."
Quando Helena chegou, não entrou com perguntas. Abraçou a filha na porta e demorou a soltá-la. Eduardo ficou ao lado das duas, uma mão no ombro de Isabela, como se precisasse confirmar que estava inteira.
Lara observou a cena sem se obrigar a sentir apenas uma coisa. Havia alívio, havia tristeza por tudo que não vivera, havia uma abertura pequena para o futuro. Rafael tomou sua mão sem comentar nenhuma dessas emoções.
Antes de sair, Isabela se voltou.
"Posso devolver o casaco lavado depois?"
"Pode."
Ela respirou fundo, abraçada ao casaco que Célia lhe emprestara. Pela primeira vez, uma volta futura não parecia uma ameaça.
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