"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 58
Ela não tinha que ceder antes de chegar
Na manhã seguinte, Lara encontrou um prato cheio de carne diante de Leo e três ervilhas cuidadosamente afastadas para uma borda.
Teresa estava servindo mais comida a Theo, que aceitava com uma educação perigosamente conveniente.
Lara parou ao lado da mesa.
"Eu saio por uma tarde e vocês reorganizam a alimentação da casa inteira?"
Leo encostou no braço da avó.
"A vovó falou que a gente está crescendo."
Teresa tentou manter o rosto sério.
"E estão."
"Com legumes também", respondeu Lara.
Rafael, que acabara de chegar, olhou o próprio prato e trouxe de volta uma parte verde antes que a esposa precisasse comentar.
Antônio riu por trás da xícara.
Theo ofereceu ao irmão uma pequena colherada de legumes, tentando parecer colaborativo sem comprometer demais o próprio prato.
Lara sentou e aceitou o café que o marido lhe serviu.
Dormira melhor do que imaginava. Não porque as perguntas tivessem terminado, mas porque conseguira dizer o que acontecera sem ouvir que precisava apressar uma reconciliação.
Eduardo enviara as cópias e uma mensagem curta, confirmando que conversariam quando ela quisesse. Helena escrevera apenas que gostaria de ouvi-la pessoalmente, respeitando o tempo pedido.
Lara respondera às duas.
Não oferecera uma data.
Depois do café, seguiu para o ateliê com uma lista de coisas que queria concluir antes da abertura. Havia uma etiqueta a revisar, uma dúvida sobre o provador e a decisão de não aceitar mais encomendas do que a equipe poderia entregar.
Henrique lhe mostrou os custos atualizados e ouviu sua recusa a uma solução que ocuparia espaço demais da área de trabalho.
"Você quer margem para crescer sem ficar espremida no primeiro mês", disse.
Lara assentiu.
Gostou de reconhecer uma conversa em que suas necessidades não eram recebidas como ameaça às de outra pessoa.
A ligação de André chegou no intervalo.
Ela conhecera o filho mais velho de Roberto na recepção, numa conversa breve. Desde então ele mantivera distância, talvez tentando não repetir os movimentos impensados do irmão Ricardo.
"Lara, você pode falar?"
Ela olhou para o relógio.
"Tenho alguns minutos."
André começou perguntando como estava. A voz tinha uma cordialidade cuidadosa, e Lara esperou para saber se a pergunta continuaria sobre ela.
Continuou por pouco tempo.
Ele disse que a família estava abalada, que Isabela chorava e não queria comer com ninguém. Todos sabiam que os últimos acontecimentos tinham sido injustos com Lara, acrescentou, mas a outra também não escolhera ser trocada.
Lara se recostou na cadeira.
"Eu sei que ela não escolheu."
André pareceu aliviado demais com a concordância.
"Então talvez, quando vocês conversarem todos juntos, você possa dizer que não se importa se ela continuar em casa. Isso ajudaria muito."
O silêncio de Lara fez a próxima frase perder velocidade.
"Não estou dizendo para esquecer o que aconteceu. Só... ela cresceu com a gente."
Lara olhou para os desenhos diante de si.
Tinha passado a manhã escolhendo espaço para trabalhar. Agora outra pessoa lhe pedia que chegasse a uma família anunciando onde aceitaria ficar para que ninguém precisasse rearrumar o que já existia.
"André, eu ainda não decidi como vão ser minhas visitas. Não pretendo me mudar para a casa dos seus avós. Nem pedi que a Isabela saia."
"Eu sei."
"Então por que preciso prometer isso para você antes de alguém me perguntar como fiquei depois de ontem?"
Do outro lado, houve um movimento de cadeira.
André demorou a responder.
"Você tem razão. Eu comecei mal."
Lara soltou o ar, ainda sentindo a raiva subir pela garganta.
"Eu não quero que parem de amar uma pessoa porque descobriram outra. Eu sei o que significa ter sido criada por alguém que não era minha mãe biológica. Não preciso que me expliquem isso como se eu só entendesse um exame."
André ficou quieto.
Ela continuou, com a voz menos firme agora que chegara à parte que doía.
"Mas vocês estão me conhecendo. Eu ainda não sei que lugar existe para mim. Se a primeira coisa que querem ouvir é que não vou atrapalhar o lugar dela, como você acha que eu vou me sentir?"
O pedido de desculpas veio sem uma justificativa junto.
Lara o aceitou como começo, não como solução.
Disse que precisava voltar ao trabalho e que conversariam quando houvesse uma ocasião concreta para isso. Depois desligou e ficou alguns segundos olhando para a tela.
Joana, que passara para ajudar em parte da organização acordada entre as equipes, apareceu à porta com duas etiquetas.
Percebeu o rosto da amiga e parou.
"Quer que eu volte depois?"
Lara balançou a cabeça.
"Mostra. Preciso ver uma coisa que eu possa corrigir com uma tesoura."
Joana não perguntou mais naquele momento.
Na casa dos Albuquerque, André voltou à sala onde Ricardo e Felipe aguardavam. A chamada não tinha sido colocada no viva-voz, mas os dois sabiam o assunto.
Ricardo se levantou.
"Ela disse que vai deixar a Isabela ficar?"
André olhou para o irmão.
"Ela nunca pediu que saísse."
"Mas quando todos souberem, vão..."
"Todos quem? Nós? Você está tentando resolver uma ameaça que ainda é sua imaginação e pondo a obrigação na Lara."
Ricardo passou a mão pelo rosto.
Felipe se aproximou da janela.
Desde o aeroporto, guardava a lembrança de Isabela perguntando por uma mulher parecida com Helena. Tivera medo de uma resposta antes de saber qual era a pergunta.
"Eu pensei em dizer que eram duas meninas da família criadas separadas", confessou. "Deixar as pessoas entenderem o que quisessem."
André o observou.
"Você quer que a Lara passe a vida explicando uma versão conveniente para nós?"
Felipe abaixou a cabeça.
Ricardo tentou se defender.
"Eu só não quero que a Isabela seja humilhada."
"E por isso a Lara precisa chegar pedindo licença?"
O irmão não respondeu.
André sentou outra vez, cansado do próprio papel naquela conversa.
"Eu também fui pedir uma garantia a ela. Achei que estava ajudando. Ela me perguntou como eu pensava que se sentiria. Eu não tinha pensado até aquela frase."
O silêncio durou.
Depois Felipe admitiu que também precisava pedir desculpas, embora não soubesse como fazer sem transformar Lara numa pessoa encarregada de aliviar o remorso dos primos.
André sugeriu começarem por não ligar todos no mesmo dia.
Ricardo ficou olhando para a porta fechada do corredor onde Isabela se recolhera.
Ainda se preocupava com ela. Pela primeira vez, reconheceu que a preocupação não explicava a facilidade com que acusara outra pessoa no aniversário.
Naquela noite, Lara contou a ligação a Rafael enquanto dobravam roupas dos filhos.
O marido deixou a camiseta sobre a cama e lhe deu atenção inteira.
Ela repetiu a parte em que André pedira uma promessa sobre a permanência de Isabela.
Rafael soltou o ar devagar.
"Você não precisa resolver a casa deles antes de entrar nela."
Lara sentou na beira da cama.
"Eu sei. Só queria não precisar explicar isso também."
Ele se aproximou e sentou ao lado.
"Você queria que perguntassem o que precisa."
Ela assentiu, com os olhos cheios.
Não havia novidade na frase. Havia o alívio de ouvi-la formulada sem acrescentar que a outra família também sofria, como se isso cancelasse sua vez.
Rafael lhe abraçou os ombros.
Lara permaneceu perto por alguns minutos, depois recuperou a camiseta e percebeu que dobrara com uma manga para dentro.
Mostrou ao marido.
"Esse é o nível da concentração hoje."
Ele refez a dobra de um jeito ainda pior.
Lara começou a rir.
"Você está tentando ajudar ou me distrair?"
"Eu achei que tinha acertado."
A resposta sincera fez a risada aumentar. Leo apareceu à porta, atraído pelo som, e quis saber se estavam mexendo nas suas roupas.
Theo veio atrás para buscar a própria camiseta, alegando que o desenho precisava ficar para cima.
Rafael entregou a pilha e recebeu uma correção detalhada sobre a posição dos foguetes.
Lara olhou para os três e sentiu o dia voltar a um tamanho que podia suportar.
Mais tarde, respondeu à mensagem de Helena. Aceitaria uma conversa em breve, num encontro pequeno, com tempo para ouvir e também para ir embora quando precisasse.
Não prometeu ser uma filha pronta.
Helena agradeceu e perguntou se preferia escolher o lugar.
Lara ficou olhando a pergunta por um instante antes de responder que sim.
Na casa dos Albuquerque, Isabela ouvira fragmentos das conversas do dia. Cada frase sobre espaço e verdade parecia confirmar a pior versão que construía para si mesma.
Não viu a mensagem em que a mãe perguntava se queria jantar no quarto ou descer. Viu apenas o próprio rosto refletido no espelho, procurando traços de uma família sobre a qual conhecia notícias que desprezava.
Pegou um casaco leve e desceu quando o corredor ficou vazio.
Acreditava que, se sumisse por algumas horas, todos perceberiam a falta e voltariam a procurá-la como antes.
Deixou o telefone sobre a cama para não receber ordens de voltar. Não pensou no dinheiro, nos endereços ou em quanto a cidade era diferente quando não havia alguém esperando ao lado do carro.
Passou pelo acesso lateral e caminhou até não conseguir ver a casa.
Só então percebeu que ninguém podia adivinhar para onde iria.
No quarto vazio, o aparelho acendeu com uma nova mensagem de Helena.
Isabela já não estava ali para ler.
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