"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 57
O nome que ainda não saía
Eduardo chegou cedo demais.
Escolheu uma mesa onde ninguém precisaria passar por trás da cadeira de Lara e pediu que esperassem por ela antes de servir qualquer coisa. Depois examinou o cardápio três vezes, incapaz de lembrar quais opções tinha visto na primeira.
Quando a porta se abriu, levantou tão depressa que quase bateu na mesa.
Lara o viu e diminuiu o passo.
O homem que conhecera no aniversário tinha a aparência controlada de quem estava acostumado a ser ouvido. Agora ajeitava uma cadeira com cuidado excessivo e não parecia saber onde colocar as mãos.
"Obrigada por esperar", disse ela.
"Eu cheguei cedo. Você está no horário."
Lara sentou, deixando a bolsa perto dos pés.
Pediu café. Eduardo escolheu o mesmo, depois perguntou se queria comer alguma coisa. Ela agradeceu e recusou por enquanto.
O silêncio seguinte pareceu durar mais do que deveria.
Ele olhou para a pasta.
"Trouxe o que conseguimos reunir. Não precisa ler tudo aqui."
Lara assentiu.
Eduardo abriu os documentos sem empurrá-los imediatamente para ela.
Começou pelo nascimento: Helena e Beatriz na mesma cidade portuguesa, no mesmo período; duas meninas nascidas no mesmo dia; movimentações e saídas que pareciam corretas isoladamente, mas não coincidiam quando comparadas.
A mãe de Beatriz estivera presente e intermediara os cuidados naqueles dias. Informações recuperadas de correspondências familiares e um relato antigo confrontado com os registros indicavam a troca deliberada das crianças por ela.
Não fora Márcia. Não fora uma troca feita anos depois. O começo estava naquela maternidade, antes de Lara conseguir ter qualquer lembrança.
A mulher já morrera. Não responderia agora às perguntas que deixara para duas famílias.
Lara manteve os olhos na folha.
"Por quê?"
Eduardo respirou fundo.
"O que os relatos indicam é ressentimento. Ela acreditava que Beatriz recebera menos de Artur, que Helena teria uma vida protegida e a filha dela não. Quis que a neta fosse criada no lugar que considerava devido."
Lara olhou para ele.
"Então achou que podia escolher quem ia ficar com qual vida."
Eduardo assentiu, com o rosto contraído.
O café chegou. Os dois agradeceram automaticamente, e nenhum levou a xícara à boca.
Lara perguntou por Beatriz.
O exame antigo mostrava que descobrira a diferença, mas não o que conseguira reconstruir. A comunicação recuperada sugeria uma suspeita sobre a própria mãe e uma busca por informações que não se concluíra antes da morte.
Eduardo não transformou as lacunas em certeza.
"Eu gostaria de dizer que sabemos cada coisa. Não sabemos. O que posso fazer é continuar procurando sem inventar uma intenção para quem já não pode responder."
Lara assentiu devagar.
A precisão do limite doeu menos do que uma explicação perfeita que não suportasse a pergunta seguinte.
"Ela me amava", disse.
A frase não era um pedido de autorização.
Eduardo a recebeu como o que era.
"Pelas lembranças que você compartilhou e pelo que guardou, sim. Não quero tirar esse nome dela."
Lara olhou para a fotografia pequena que trouxera na bolsa e não chegou a retirar.
Eduardo aproximou um envelope diferente.
Havia uma imagem de Helena com um bebê nos braços. A criança era Isabela.
Ele não fingiu que aquela parte podia ser apagada.
"Eu tenho fotografias de todas as fases dela. Do primeiro dia de escola, de um dente que caiu, de uma festa em que só queria o balão. Eu olho e continuo lembrando."
A voz falhou um pouco.
Lara permaneceu quieta.
Ele voltou a olhar para ela.
"Depois olho para você e percebo que não tenho uma única lembrança do seu primeiro dia. Nem sei qual música você gostava quando era pequena."
Lara segurou a xícara para dar às mãos um lugar.
"Eu gostava quando minha mãe cantava sem saber a letra. Ela mudava para eu dormir."
Eduardo baixou a cabeça e deixou uma lágrima cair antes de conseguir impedi-la.
Não pediu que a filha o consolasse.
"Eu sinto muito", disse. "Por não ter percebido. Pelo que você viveu depois que a Beatriz morreu. Na época achamos que a casa do seu pai era o lugar onde estaria cuidada. Foi mais fácil aceitar essa explicação do que olhar de perto."
Lara respirou fundo.
Era a parte que mais temera ouvir transformada numa desculpa. Ele não negara que a família poderia ter feito alguma coisa mesmo sem saber a verdade.
"Eu não sei o que fazer com isso agora."
"Você não precisa saber para eu assumir."
Ela tomou o primeiro gole de café.
Depois perguntou por Helena. Queria saber como estava, o que gostava de fazer, se falava de Beatriz antes de tudo aquilo.
Eduardo respondeu sem apresentar uma mulher perfeita esperando para preencher um espaço vazio. Falou de uma pessoa que colecionava livros de viagens, esquecia o chá quando se concentrava e às vezes tinha dificuldade para perceber quanto a própria preocupação ocupava o lugar dos outros.
Lara ouviu com atenção nova.
Ao falar de Marcelo, o filho mais velho, Eduardo sorriu pela primeira vez.
"Ele está tentando chegar sem transformar a primeira conversa num interrogatório sobre quem machucou você. Eu pedi que começasse aprendendo seu nome."
Lara soltou uma risada breve.
"É um começo razoável."
O homem a olhou com uma esperança que procurava manter pequena o suficiente para não pressionar.
"Ele quer conhecer você. Quando quiser."
Ela assentiu, sem prometer uma data.
O encontro começava a encontrar um ritmo quando a porta se abriu outra vez.
Isabela entrou olhando diretamente para a mesa.
Tinha sabido que o pai sairia para conversar e recebera a confirmação do lugar por uma mensagem que não deveria ter sido encaminhada sem perguntar. Vinha de uma manhã em que as explicações sobre o exame lhe pareceram um idioma inteiro organizado para expulsá-la da própria vida.
Eduardo se levantou.
"Isabela, combinamos conversar em casa."
Ela não olhou para ele primeiro.
"Você está conseguindo tudo, não está?"
Lara sentiu o corpo ficar rígido.
"Eu estou numa conversa."
"Com o meu pai."
Eduardo se colocou ao lado da mesa.
"Não fale com ela assim."
Isabela soltou uma risada sem alegria.
"Agora você defende ela. Até o jeito de falar mudou."
O pai pediu que se afastassem para não discutir diante dos outros. A jovem ignorou e se aproximou de Lara.
"O Rafael não bastava? Você tinha que vir até aqui também?"
Lara ficou de pé, mantendo a mesa parcialmente entre as duas.
"Eu não procurei seus pais para tirar alguma coisa de você. Eu pedi para saber onde nasci."
"Você acha que eu não sei o que significa?"
A mão de Isabela subiu num gesto rápido. Lara recuou o suficiente para que não a atingisse, e Eduardo segurou o antebraço da jovem antes que tentasse de novo.
O som da cadeira arrastando fez um funcionário se aproximar.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Isabela olhou para a mão do pai no seu braço e começou a chorar.
"Você não pode deixar de ser meu pai."
Eduardo soltou o braço assim que ela deixou de avançar, mantendo-se entre as duas.
"Eu não disse isso. Eu disse que não pode agredir a Lara."
Ela continuava chorando, mas a frase não lhe ofereceu a saída de transformar o ataque em prova de abandono.
Lara pegou a bolsa.
Eduardo se virou imediatamente.
"Eu lamento. Não era para acontecer assim."
"Eu sei. Mas vou embora."
Ele assentiu, recebendo o custo do encontro interrompido sem exigir que ela ficasse para ajudá-lo a conter a outra filha.
Acompanhou-a até a porta depois de pedir ao funcionário que aguardasse perto de Isabela, que já estava sentada e aceitara água.
Na calçada, Eduardo parecia ter envelhecido durante aqueles minutos.
"Posso mandar uma mensagem depois? Só para saber como chegou."
Lara assentiu.
"Pode. E pode encaminhar as cópias. Quero guardar."
Ele concordou, emocionado pela pequena continuidade que ela não tinha fechado.
Não ouviu pai. Não tentou obter a palavra.
Mauro a esperava no lugar combinado. Lara entrou e pediu para ir à casa dos Valença, onde Rafael e os meninos estavam com os avós.
Durante o caminho, viu Eduardo ainda parado na porta pelo retrovisor.
O gesto parecia mais verdadeiro do que qualquer anúncio de que agora tudo seria diferente.
Não sabia ainda se confiaria nele.
Queria poder descobrir sem que Isabela a obrigasse a se defender a cada encontro.
Em casa, Teresa abriu a porta antes que Lara tocasse a campainha. Rafael já recebera uma mensagem breve sobre o que acontecera e preferira esperá-la ali a encher o telefone de perguntas.
Lara entrou e encontrou os filhos levantando do tapete.
Leo vinha depressa. Theo tentava conter a própria pressa e falhava.
Ela os recebeu com os braços abertos.
Ficou ajoelhada por alguns segundos, com o rosto entre as duas cabeças, sentindo o cheiro conhecido de sabonete e um pouco de chocolate.
"Você demorou", disse Leo.
"Demorei."
"A gente guardou um pedaço."
A promessa simples desfez a última firmeza que trouxera da cafeteria.
Lara chorou junto aos filhos, sem lhes contar a parte que não cabia ali.
Rafael se agachou perto e lhe tocou as costas.
Ela lhe segurou a mão.
Mais tarde, quando conseguiram ficar a sós, contou tudo. O marido ouviu com o maxilar tenso ao saber do gesto de Isabela, mas não interrompeu a lembrança do resto.
"Ele me ouviu falar da Beatriz", disse Lara. "Não pediu que eu trocasse uma mãe pela outra."
Rafael assentiu.
"Isso importou."
"Importou."
Ela encostou nele, cansada.
Do corredor veio a voz de Teresa chamando para comer antes que a comida esfriasse. Leo acrescentou que o pedaço de bolo ainda estava salvo, mas por pouco.
Lara riu contra a camisa do marido.
Havia nomes novos esperando um lugar na sua vida.
Nenhum precisava tirar dela a casa para onde acabara de voltar.
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