"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 54
A mesa ficava maior antes de ficar pronta
Na véspera de Natal, Lara encontrou farinha na manga de Rafael.
Ele estava no balcão da cozinha dos pais, segurando uma massa que já não tinha o formato prometido pela receita.
Leo observava ao lado, com um avental pequeno por cima da camiseta. Theo lia uma instrução, tentando manter o papel longe do recheio.
"Vocês começaram sem mim?", perguntou Lara.
Rafael olhou para a massa, depois para ela.
"Você ainda pode chegar como salvamento."
Antônio riu do outro lado da mesa.
A decisão de fazer pastéis em família tinha começado com Teresa contando uma lembrança antiga. Agora havia adultos demais dando opinião, crianças demais pedindo para apertar a borda e uma quantidade de comida que tornava irrelevante qualquer fracasso da primeira tentativa.
Lara lavou as mãos e se aproximou de Leo.
Mostrou como fechar sem pôr recheio até a borda. Ele fez um com tanto cuidado que pediu uma identificação para não perder o próprio trabalho depois.
Theo preferiu comparar duas formas de dobrar. Rafael recebeu a tarefa de organizar as peças prontas e tentou não demonstrar que fora discretamente afastado da parte mais delicada.
Uma tia chegou, beijou o rosto de Lara e perguntou onde podia deixar uma travessa. Outra apareceu com duas crianças e imediatamente reconheceu os gêmeos pelas fotografias.
Os meninos suportaram os primeiros abraços com paciência.
Na quarta apresentação, Leo se escondeu atrás da mãe.
"Eu já fui olhado."
Lara se abaixou, escondendo o sorriso.
"Pode falar que quer brincar. Não precisa ficar aqui o tempo inteiro."
Theo, que tentava corresponder à própria reputação de educado, pareceu aliviado por ouvir a mesma autorização.
Foram ao jardim com um primo mais velho, depois voltaram correndo para perguntar onde ficavam os blocos de montar.
Antônio apontou o armário antes que terminassem a pergunta.
A casa aumentou de volume de um jeito que não tinha a ver com paredes. Vozes entravam pela porta e continuavam pela cozinha, uma conversa começava junto ao forno e terminava perto da árvore.
Lara levou algum tempo para não seguir cada pessoa com os olhos, procurando o que precisaria fazer para continuar sendo bem-vinda.
Teresa percebeu quando ela recolheu um prato que ainda estava sendo usado.
"Você também pode sentar."
"Eu estou ajudando."
"Eu sei. Agora me ajuda a escolher onde cabe essa travessa antes que alguém resolva pôr em cima dos presentes."
A tarefa concreta a devolveu à conversa sem transformar sua inquietação num assunto para a sala inteira.
Rafael encontrou um lugar para ela perto da janela. Trouxe um copo de água e ficou em pé ao lado até um tio lhe perguntar se não pretendia se sentar também.
"Estou verificando se minha mulher tem espaço."
"Se continuar parado aí, tem menos."
Lara começou a rir. Rafael puxou a cadeira, aceitando a derrota com bom humor.
Os parentes queriam saber do concurso, mas também das coisas que os filhos faziam pela manhã, de como se adaptaram à escola e se a receita do bolo de Leo realmente existia.
Ela contou de Paris sem sentir que precisava apresentar uma biografia de sofrimento para merecer aquela atenção.
Uma mulher mais velha ouviu uma história sobre a vizinha e lhe perguntou se continuavam em contato.
"Continuamos. Os meninos mandaram uma fotografia do prêmio."
"Manda uma daqui depois. Ela vai gostar de saber que estão juntos."
Lara assentiu e guardou a ideia com carinho.
No jardim, Theo tentava organizar um grupo de crianças menores numa construção que não tinha a menor intenção de respeitar seu desenho.
Uma menina colocava o telhado no chão. Um primo derrubava a ponte para testar se a parte seguinte ficaria de pé.
Leo começou a protestar, mas uma criança de dois anos lhe ofereceu um bloco e o chamou de irmão.
O menino parou.
Olhou para a peça, depois para o rosto redondo que o esperava.
"Assim", explicou, diminuindo a voz. "Você põe aqui. Eu seguro."
Lara viu da varanda e sentiu uma ternura tão forte que precisou chamar Rafael para olhar.
Ele acompanhou a mudança do filho: o pequeno comandante do próprio mundo aprendia a esperar por uma mão ainda menor.
Theo acabou desistindo da estação perfeita. Sentou no chão e fez uma garagem larga, capaz de receber o telhado onde a menina insistia em colocá-lo.
Quando um adulto elogiou sua paciência, ele respondeu com seriedade:
"É mais fácil mudar a casa."
Rafael riu e foi ajudar antes que as peças terminassem num desentendimento.
Durante a refeição, os meninos ficaram entre os pais e os avós, com lugar para responder às perguntas e para comer sem virar uma apresentação permanente.
Um tio comentou que, com duas cabeças tão boas, Rafael já podia pensar em quem o ajudaria na empresa.
Leo ergueu o rosto.
"Eu quero fazer avião."
Theo disse que ainda não sabia.
Antônio ergueu o copo.
"Ótimo. Temos tempo para descobrir. Hoje a empresa pode esperar a sobremesa."
A conversa seguiu para profissões improváveis que os adultos tinham desejado quando crianças. Rafael confessou uma fase em que quis desenhar projetos de pontes, e Lara o olhou com uma provocação silenciosa sobre o cavalo da escola.
Ele percebeu.
"Eu disse projetos. Não prometi cavalos."
Os meninos começaram a rir antes que os parentes entendessem. Leo pediu o telefone para mostrar a obra.
Rafael negou com a solenidade de quem sabia que não tinha autoridade suficiente naquela mesa.
A fotografia apareceu mesmo assim, enviada por Teresa a uma prima que a guardara desde a atividade.
A risada se espalhou.
Lara olhou para o marido, que aceitava as brincadeiras enquanto ajudava Leo a alcançar a água, e sentiu o contraste entre aquele homem e o do aeroporto.
Ainda tinha a força que a atraía. Agora também sabia ficar quando todos viam suas tentativas ruins.
Depois do jantar, os presentes foram distribuídos sem que cada criança precisasse superar a anterior. Os avós combinaram uma ordem para diminuir a confusão, mas Leo queria entregar primeiro o que fizera para a mãe.
Era um pequeno enfeite com quatro figuras, desenhadas pelos dois numa base de madeira.
Lara o recebeu com cuidado.
Theo apontou uma letra que tinha apagado várias vezes.
"A gente queria que desse para ler."
Ela leu o próprio nome junto ao de Rafael e aos dos filhos.
Não conseguiu responder imediatamente.
O marido se inclinou para ver e colocou a mão nas suas costas enquanto ela abraçava os dois.
Mais tarde, Teresa encontrou Lara num corredor, observando uma fotografia de Rafael pequeno.
"Ele fazia essa cara também quando era feliz", comentou.
Lara sorriu.
"O Theo faz."
"Eu sei. No começo eu queria que ele sorrisse mais nas fotos. Agora gosto de ver quando esquece que estamos olhando."
As duas ficaram em silêncio por um pouco.
Depois Lara falou, sem planejar:
"Eu queria ter tido mais disso quando era pequena."
Teresa lhe pegou a mão.
"Eu queria que tivesse."
Não acrescentou que tudo acontecera por uma razão nem que o presente compensava o passado.
A simplicidade deixou Lara chorar sem sentir que precisava defender a própria gratidão.
Quando voltaram à sala, Rafael viu os olhos vermelhos e se aproximou. A esposa lhe segurou a mão antes que perguntasse.
"Estou bem. Só fiquei com saudade de uma coisa que não tive."
Ele a trouxe para perto por um instante.
Na fotografia enviada à vizinha de Paris, os gêmeos apareciam sentados à frente da árvore, um deles com o cabelo torto e o outro tentando impedir que uma criança menor pegasse a fita do pacote.
Lara e Rafael estavam atrás, cercados pelos avós e por parentes demais para caber sem se apertar.
Ela gostou justamente disso.
Antes de irem embora, um dos pequenos primos começou a chorar porque não encontrava um carrinho. Theo tinha acabado de fechar a caixa de blocos, mas voltou ao jardim para ajudar.
Leo foi atrás, reclamando do sono enquanto olhava debaixo das cadeiras.
Encontraram o brinquedo junto a um vaso. A criança o recebeu com um abraço que pegou os dois irmãos desprevenidos.
Lara esperou perto da porta, sem chamar para apressar. Quando os filhos voltaram, Theo lhe entregou um bloco que sobrara no bolso.
"Esse é da vovó. Eu quase levei sem querer."
Ela o guardou na caixa e beijou o cabelo dele.
Rafael pegou Leo no colo quando o menino finalmente admitiu que suas pernas tinham acabado. O filho apoiou a cabeça em seu ombro, ainda segurando a fita que ganhara de um presente.
Lara acompanhou os três até o carro com a sensação de que a família também se aprendia nesses últimos minutos, quando a festa acabava e ainda havia alguém para procurar um brinquedo.
No caminho para casa, Leo dormiu antes de completar uma história. Theo resistiu por alguns minutos e depois apoiou a cabeça para o lado.
Rafael diminuiu a música.
Lara olhou para os filhos pelo retrovisor e lhe segurou a mão numa parada.
"Foi um dia bom."
Ele sorriu.
"Foi."
Na manhã seguinte, a mensagem sobre a família Albuquerque chegou antes de terminarem o café.
Helena e Eduardo haviam antecipado o retorno. Os contatos sobre o parentesco já tinham tornado impossível adiar a conversa até depois do aniversário de Artur.
Lara leu o aviso de Roberto e pousou o telefone devagar.
O marido a observou por cima da xícara.
Ela olhou para o enfeite feito pelos filhos, agora pendurado perto da janela.
Em poucos dias, conheceria as pessoas cujos nomes tinha repetido em silêncio desde que vira as duas páginas do hospital.
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