"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 50
O rosto que fez a conversa parar
Lara saiu do avião pensando nos braços dos filhos.
Durante o voo, conseguira dormir algumas horas, comer e revisar uma lista curta de coisas que faria depois de descansar. Rafael retirara a lista da sua mão quando ela começara a acrescentar outro compromisso.
"Chegar primeiro", sugerira.
Agora, no aeroporto, ela caminhava perto dele com a bolsa junto ao corpo, tentando decidir qual dos dois meninos correria antes ao vê-los.
Uma mala atravessou seu caminho.
Lara parou a tempo, mas a mulher que a puxava se virou irritada com o próprio movimento e com a necessidade de sair do lugar.
"Cuidado."
"Foi por isso que parei", respondeu Lara.
A mulher tinha o cabelo brilhante, a roupa impecável e uma expressão acostumada a encontrar alguém pronto para concordar. Abriu a boca para acrescentar alguma coisa, mas ficou olhando para o rosto de Lara.
A irritação deu lugar a um espanto breve.
Rafael se aproximou.
"Está tudo bem?"
A desconhecida virou os olhos para ele. Reconheceu-o, e a mudança na postura foi imediata.
"Rafael Valença?"
Ele assentiu sem demonstrar a familiaridade que ela parecia esperar.
"Isabela Monteiro. Nos vimos numa recepção em Lisboa, há alguns anos."
Rafael procurou a lembrança.
"Boa tarde."
Ela sorriu, recompondo-se.
"Que coincidência. Estou chegando também. Podíamos..."
O olhar desceu até a mão de Lara na dele.
Rafael não esperou que a pergunta fosse formulada.
"Minha esposa, Lara Azevedo. Estamos voltando de uma viagem de trabalho dela."
Lara cumprimentou com educação.
Isabela a examinou de novo, dessa vez procurando uma explicação diferente para o rosto que a surpreendera.
"Vocês se casaram?"
"Sim", respondeu Rafael.
A palavra não veio acompanhada de uma desculpa ou de uma oportunidade de tornar a conversa mais íntima.
Isabela apertou a alça da bolsa.
Lara olhou para o relógio e voltou ao marido.
"Os meninos estão esperando."
Ele assentiu, despediu-se e recebeu a mão dela outra vez.
A conversa acabou sem que Isabela encontrasse uma maneira agradável de mantê-los ali.
Felipe Albuquerque a encontrou minutos depois, junto à área de embarque de carros. Era filho de Otávio, o mais novo dos irmãos da mãe dela, e crescera habituado a lidar com as decisões repentinas da prima.
"Você avisou sua mãe que chegou?"
"Avisei quando pousamos. Não precisa começar também."
Ele guardou a mala e lhe ofereceu uma garrafa de água.
Isabela entrou no carro, mas não esqueceu a mulher do corredor.
"Tem alguma prima que eu não conheço?"
Felipe olhou para ela, surpreso.
"Por quê?"
"Encontrei uma mulher que parece a minha mãe nas fotografias antigas. Só achei estranho."
Ele esperou o nome.
Quando ouviu Lara Azevedo, lembrou de uma notícia recente sobre um prêmio de design e de outro sobrenome mencionado por um tio numa conversa de família.
Não fez a ligação em voz alta.
Isabela já perguntava se ele conhecia Rafael e por que ninguém lhe contara que o empresário se casara.
Na casa dos Valença, Leo saiu da sala antes que o carro terminasse de estacionar. Antônio o chamou de volta ao degrau, e o menino esperou apenas o tempo necessário para não ser repreendido pela mãe antes do primeiro abraço.
Theo veio logo atrás.
Lara desceu e se ajoelhou para receber os dois.
O impacto quase a fez sentar no chão. Não se importou.
Beijou cabelos, bochechas, a ponta do nariz de Leo, depois puxou Theo para mais perto quando ele começou a se afastar cedo demais.
"Deixa eu olhar você."
O menino sorriu e tentou ficar sério novamente.
Rafael se abaixou ao lado e recebeu um abraço que não dependia de chegar com presente.
Teresa aguardou os quatro terminarem antes de abraçar a nora. Antônio pegou a bolsa de viagem e perguntou onde estava o prêmio.
"Primeiro eles precisam comer", avisou a esposa.
Leo se virou imediatamente para Lara.
"Você comeu no avião?"
Ela olhou para Rafael.
"Eu falei que a inspeção continuava."
Durante o almoço, os filhos contaram dias inteiros por pedaços. O trem, uma discussão na escola, a receita que a avó tentara, a visita de um parente que não sabia distinguir os dois.
Lara ouviu com uma atenção que deixou a comida esfriar. Rafael cortou uma parte para Leo e pediu que respirasse entre uma história e outra.
Teresa quis saber do ateliê e ofereceu ajuda com tanto entusiasmo que Antônio perguntou se ela pretendia virar sócia de todas as lojas que gostaria de frequentar.
Lara agradeceu e prometeu conversar sobre formas concretas de colaborar quando a estrutura estivesse definida. Não precisava recusar carinho para manter a própria decisão.
À tarde, Antônio entregou a Rafael um convite dos Albuquerque para uma recepção na volta da família a São Paulo. Artur e Cecília estariam presentes, acompanhados pelos filhos Roberto e Otávio. Helena e Eduardo Monteiro continuavam fora do país por mais algum tempo.
O sobrenome chamou a atenção de Lara.
Era o da mãe.
Ela pousou a xícara.
"Você conhece todos?"
Antônio explicou o que sabia das relações antigas e perguntou se Beatriz falava da família.
Lara respondeu que pouco. Algumas frases, lembranças incompletas e a distância que nunca conseguira entender quando era criança.
Rafael encontrou seu olhar.
A suspeita de Augusto permanecia entre os dois, sem confirmação. O convite não resolvia nada, mas trazia para perto pessoas que talvez soubessem responder a perguntas antigas.
Lara aceitou ir.
Na noite da recepção, escolheu um vestido claro, deixou o cabelo preso e colocou o colar verde que Teresa lhe dera. Não pretendia chegar anunciando uma história de família para desconhecidos.
Queria ouvir primeiro.
Roberto Albuquerque os recebeu na entrada. Cumprimentou Rafael, virou-se para a esposa dele e perdeu a frase pela metade.
Lara percebeu a mudança.
"Boa noite."
Ele piscou, recuperando-se.
"Desculpe. Você me lembrou uma pessoa."
Rafael fez a apresentação.
Roberto repetiu o sobrenome dela com cuidado, como se o colocasse ao lado de uma lembrança ainda não organizada.
Felipe, que se aproximava, viu seu rosto e soube que a impressão de Isabela não fora um exagero.
A conversa seguiu para uma sala menor, onde Cecília estava sentada com Artur. Quando a mulher ergueu os olhos, ficou imóvel por alguns segundos.
Lara parou junto à porta.
Não conhecia aquele olhar. Mas conhecia a sensação de entrar num lugar e perceber que alguma coisa sobre si já estava sendo comparada a uma história que não lhe tinham contado.
"Helena?", murmurou Cecília.
Artur se virou para a esposa, depois para a jovem.
Roberto se aproximou.
"Mãe, é Lara Azevedo. A esposa do Rafael."
Cecília levou a mão ao peito, constrangida.
"Perdão. Você tem o rosto muito parecido com o da minha filha quando era jovem."
Lara aceitou o pedido de desculpas e sentou quando a convidaram.
Felipe perguntou pela mãe com uma cautela que não escapou a Rafael.
"Beatriz Albuquerque Azevedo", respondeu ela.
O silêncio seguinte não foi pequeno.
Artur segurou a borda da cadeira. Roberto olhou para Otávio, que acabara de entrar, e não precisou explicar por que o ambiente mudara.
Lara ficou com a bolsa no colo, esperando.
Foi Roberto quem falou primeiro.
Beatriz era sua irmã por parte de pai. Vivera afastada durante muitos anos. Eles tinham perdido o contato mais do que gostavam de admitir.
Lara ouviu a explicação sem sentir imediatamente a alegria que talvez esperassem.
"Ela morreu quando eu tinha seis anos."
Cecília abaixou os olhos.
Artur respirou fundo.
"Eu soube tarde", disse, a voz envelhecida pelo peso da frase.
Lara não lhe ofereceu consolo antes de saber o que sentia.
Rafael permaneceu ao seu lado. Quando ela procurou sua mão, encontrou-a disponível sobre o braço da cadeira.
Falaram de Beatriz na universidade, do gosto por livros e de uma viagem a Portugal no fim da gravidez. Algumas lembranças confirmavam o pouco que Lara sabia. Outras chegavam tarde demais para formar uma resposta inteira.
Otávio mencionou que Beatriz e Helena tinham sido atendidas na mesma cidade portuguesa, no mesmo período.
Lara levantou o rosto.
Antes que pudesse perguntar mais, Isabela entrou.
Reconheceu o casal e parou, desconfortável ao vê-los no centro de uma atenção que costumava lhe pertencer.
"Vocês se conhecem?"
Felipe explicou o vínculo com Beatriz. Isabela olhou para Lara e tentou recuperar um sorriso.
Depois procurou Rafael.
"Podia ter dito no aeroporto. Eu teria convidado vocês."
"Nós também não sabíamos de tudo isso", respondeu Lara.
A frase encerrou a tentativa de transformar o encontro numa familiaridade antiga.
Rafael a chamou de esposa ao responder a uma pergunta sobre o prêmio. Isabela ouviu e pegou uma bebida sem continuar.
Quando Lara disse que precisava ir embora para ver os filhos antes de dormirem, ninguém a impediu. Artur pediu que voltasse. Cecília ofereceu enviar fotografias em que Beatriz aparecia.
Ela aceitou as imagens, sem prometer uma intimidade que ainda não tinha.
No carro, ficou alguns minutos sem falar.
Depois olhou para o marido.
"Eu fui querendo saber da minha mãe. Agora estão me dizendo que pareço outra mulher."
Rafael lhe segurou a mão.
"Vamos juntar as coisas sem decidir por uma semelhança."
Ela assentiu, exausta.
Em casa, os meninos ainda estavam acordados com Célia, esperando a última história antes de dormir. Lara se trocou e foi recebê-los enquanto Rafael atendia uma chamada curta.
Theo apareceu na porta do escritório pouco depois, segurando o caderno usado para anotações.
Não trazia a expressão de quem queria mostrar um truque novo.
"Papai, eu ouvi o nome da cidade em Portugal", disse baixo. "A mamãe falou quando a gente chegou."
Rafael desligou a chamada e lhe deu atenção.
O menino abriu uma página com duas referências a um mesmo hospital. Eram registros públicos antigos, encontrados depois que procurara uma notícia sobre Beatriz que o pai deixara aberta numa pasta da família.
Leo apareceu atrás dele.
"A gente não entrou em lugar fechado", disse imediatamente.
Rafael olhou para os nomes, as datas e a observação que Augusto finalmente conseguira localizar entre papéis antigos.
Beatriz e Helena. Duas meninas nascidas no mesmo dia.
Ainda não era uma resposta.
Mas, pela primeira vez, as perguntas começavam a apontar para a mesma porta.
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