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"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 49

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A roupa que guardava o tempo

Na saída da passarela, Clara Bell foi a primeira a abraçá-la.

Lara precisou pedir que esperasse, porque a saia ainda prendia parte do espaço entre as duas. Giulia se abaixou para liberar a barra, e Owen ficou segurando a porta, com um sorriso que fazia seu rosto parecer menos severo.

Não tinham o resultado. Tinham conseguido mostrar o trabalho inteiro.

Por alguns minutos, isso bastou.

A contestação veio de outra área do concurso. Priscila alegava que uma designer desfilar criava uma vantagem fora do regulamento.

Lara recebeu a informação enquanto retirava os sapatos verificados pela equipe. Não levantou a voz nem tentou responder a cada comentário no corredor.

Entregou à responsável a autorização registrada antes da apresentação.

O pedido foi analisado. A decisão confirmou a participação do grupo: a substituição fora permitida dentro das regras e motivada por um atendimento médico documentado.

Owen leu a resposta com atenção e soltou o papel sobre a mesa.

"Podemos voltar a respirar?"

"Um de cada vez", respondeu Giulia, sentando finalmente.

Rafael apareceu quando o acesso aos acompanhantes foi liberado. Seus olhos foram primeiro ao rosto de Lara, depois aos pés.

Ela ergueu as duas mãos.

"Eu estou bem. Já avisei."

Ele se aproximou e a abraçou com cuidado para não prender o tecido.

"Queria conferir de perto."

Lara encostou o rosto no seu ombro. O susto, que guardara enquanto todos precisavam de uma decisão, começava a encontrar espaço.

"Ela se machucou de verdade", murmurou. "Não era só para estragar uma roupa."

Rafael apertou sua cintura de leve.

"Estão cuidando dela?"

Lara assentiu e contou o que sabia.

Ele ouviu sem tentar transformar a preocupação numa ordem de volta ao hotel. Perguntou como poderia ajudar e recebeu a tarefa de buscar os sapatos que ela deixara na outra bolsa.

Quando voltou, ajoelhou para colocá-los ao alcance.

Lara olhou para o marido, lembrando da noite do jantar.

"Você está ficando especializado."

Rafael tocou a ponta da saia.

"Nessa parte eu prefiro continuar com pouco trabalho."

Nos dias seguintes, a apuração do incidente avançou por registros e relatos. A equipe de segurança identificou uma passagem não autorizada pela área do material, e um funcionário ligado à organização foi ouvido sobre mudanças na distribuição das equipes.

As duas situações não foram tratadas como se uma provasse automaticamente a outra.

Havia mensagens relacionadas à tentativa de influenciar a composição dos grupos. Priscila aparecia nelas, junto a promessas de pagamento que o funcionário tentara apresentar como trabalho separado.

Quanto ao sapato, as imagens e os depoimentos foram encaminhados às autoridades locais para esclarecer a participação de cada pessoa.

A organização retirou Priscila da competição após confirmar a interferência indevida no processo. A investigação sobre o ferimento continuaria fora do alcance de um troféu ou de uma decisão de bastidores.

Lara a encontrou uma única vez no corredor, acompanhada por uma responsável que recolhia a credencial.

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Priscila parou ao vê-la.

"Você sempre consegue fazer parecer que eu sou a única errada."

Lara olhou para o crachá na mão da funcionária.

Estava cansada demais para reconhecer naquela frase uma conversa nova.

"Hoje eu precisava terminar uma coleção. Você estava tentando decidir quem eu podia ter na equipe."

"Porque você tinha que aparecer em tudo. Até na passarela."

"Uma mulher foi ferida. Você entende o que aconteceu?"

Priscila desviou o olhar.

Lara não insistiu em arrancar uma resposta que ainda não vinha de um lugar sincero.

"Eu não vou discutir minha vida com você nesse corredor. O que tiver para explicar, explique às pessoas que estão perguntando."

Seguiu ao lado de Rafael.

No elevador, ficou olhando para os números até sentir a mão dele encontrar a sua.

"Você queria dizer mais?"

Ela pensou antes de negar.

"Queria que ela ouvisse uma frase e entendesse tudo. Mas eu já passei muito tempo tentando achar essa frase."

Rafael lhe beijou a mão.

Naquela noite, caminharam um pouco depois do jantar. Lara estava de sapatos baixos e um casaco que apertava contra o corpo quando o vento mudava.

O marido parou diante de uma vitrine iluminada.

Havia um vestido de noiva exposto, de uma simplicidade muito diferente da peça que ela apresentara.

"Quero fazer uma festa com você", disse.

Lara acompanhou seu olhar.

"Eu sei. Nós falamos de uma celebração depois."

"Hoje ficou menos abstrato."

Ela sorriu, emocionada.

Rafael se virou para ela.

"Quando você entrou, eu pensei que queria ver você vindo na minha direção num dia em que não precisasse salvar uma apresentação. Só porque escolhemos estar ali."

Lara se aproximou e acomodou o cachecol dele, que escorregara do casaco.

"Vamos pensar nisso depois de voltar. Eu quero escolher também."

"Quero que escolha."

O beijo aconteceu sob a luz da vitrine, sem plateia preparada nem roupa de cerimônia. Lara ficou perto quando se afastaram, sorrindo contra a boca dele.

Depois o telefone vibrou: os filhos aguardavam uma chamada antes de dormir.

Rafael soltou uma risada resignada e os dois procuraram um lugar menos barulhento.

A classificação para a final veio na manhã seguinte.

Os quatro integrantes da equipe sete tinham avançado na avaliação individual, realizada também com base nas contribuições identificadas de cada um. Lara abraçou Giulia e prometeu mandar a fotografia da coleção quando fosse liberada.

Na última etapa, trabalhariam sozinhos.

O tema apareceu no painel: tempo.

Lara leu sem procurar imediatamente um vestido.

Lembrou da mãe numa fotografia que só conhecera depois de adulta. Dos corpos dos filhos crescendo mais depressa do que as barras permitiam. De uma roupa antiga refeita, ainda viva porque alguém resolvera dar outra forma.

As primeiras ideias eram bonitas, mas vagas. Ela as desenhou e riscou antes de admitir que precisava de uma sequência clara.

Três peças.

Não queria usar um relógio como ornamento e chamar isso de passagem.

Começou por uma silhueta de construção elaborada, com detalhes que pediam um olhar demorado. A segunda preservou parte da estrutura, transformando-a em outra proporção. A terceira deixou aparecer apenas o que continuava necessário: uma linha limpa, movimento e marcas discretas das formas anteriores.

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Não eram três épocas escolhidas ao acaso. A mesma roupa parecia aprender a carregar menos sem esquecer de onde viera.

Durante a execução, uma solução de acabamento não funcionou. Lara perdeu um tempo precioso tentando salvar a primeira ideia até reconhecer que estava defendendo o desenho em vez da peça.

Desfez uma parte.

Foi a decisão que devolveu coerência ao conjunto.

Quando entregou, os dedos doíam e sua cabeça parecia continuar corrigindo costuras mesmo depois que saíra da sala.

Rafael não perguntou se ganharia.

Entregou água e caminhou com ela até uma cadeira.

"O que você fez?", perguntou, como prometera.

Lara sorriu, cansada, e começou a contar.

Na apresentação final, os trabalhos apareceram com identificação de avaliação, antes de os nomes serem associados às peças. Étienne acompanhou como convidado, sem integrar o júri responsável pelo resultado.

Rafael reconheceu a sequência de Lara antes de ver a confirmação no programa.

Não porque entendesse cada acabamento. Reconheceu o modo como a última peça se movia e a coragem de deixar visível uma escolha simples depois de tanto trabalho.

Mathieu, ao lado, inclinou-se para comentar.

Rafael assentiu sem conseguir tirar os olhos da passarela.

O resultado foi anunciado depois da análise final.

Quando ouviu o próprio nome em primeiro lugar, Lara demorou o suficiente para Clara Bell lhe tocar o braço.

"É você. Vai."

Ela levantou com os joelhos estranhamente leves.

No palco, recebeu o prêmio, apertou as mãos dos responsáveis e encontrou Étienne esperando no ponto reservado aos cumprimentos.

O professor abriu os braços.

Lara o abraçou e ouviu a voz dele, baixa, perto do ouvido.

"Você soube o que precisava tirar."

Ela riu com os olhos cheios de lágrimas. Era um elogio que conheceria mesmo sem o resto da sala.

Quando desceu, procurou Rafael.

Ele estava de pé, sorrindo de um jeito que a fez caminhar mais depressa.

Abraçaram-se antes que as primeiras perguntas chegassem.

Uma jornalista quis saber quais seriam os próximos passos. Representantes de marcas pediram uma conversa. Lara recebeu cartões, agradeceu e pediu que organizassem os contatos sem a necessidade de responder a todos no corredor.

Depois falou com clareza.

Terminaria a transição dos compromissos atuais e abriria sua própria marca no Brasil. O projeto estava em preparação, com equipe, condições e calendário ainda sendo definidos.

"Quero construir o LARA Atelier com tempo para fazer direito", disse. "Hoje estou muito feliz por poder levar esse trabalho de volta."

Quando perguntaram quem a acompanhava, ela segurou a mão do homem ao lado.

"Meu marido. Ele me ouviu explicar costuras durante vários jantares. Merece uma pausa."

Rafael riu, e a resposta tornou mais leve o pequeno grupo ao redor.

No hotel, os filhos comemoraram por vídeo com um cartaz tão grande que Antônio precisou segurá-lo por trás.

Leo queria saber se o prêmio tinha peso. Theo perguntou se ela podia mostrar a peça final depois.

Lara respondeu às duas perguntas e beijou a tela antes de desligar.

Mais tarde, junto à janela, o marido lhe colocou uma manta sobre os ombros.

Ela encostou nele e ficou em silêncio por alguns minutos.

"Eu te amo", disse, sem um acontecimento para justificar a frase.

Rafael virou o rosto.

Lara sorriu.

"Queria dizer antes de começar a falar de outra coisa."

Ele a beijou devagar e deixou a testa junto à sua.

Na manhã seguinte, voltariam para casa.

Ela guardou o prêmio entre roupas macias e colocou o desenho dos filhos no bolso da bolsa que levaria consigo.

Queria chegar logo ao lugar onde duas pessoas ainda precisavam conferir se a mãe tinha comido.

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