"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 45
A amiga que não queria pedir outra vez
Bianca parou na entrada da sala e olhou para as caixas ainda abertas.
"Você escreveu que tinha uma novidade. Eu achei que fosse um sofá."
Mirela, atrás dela, examinou as duas mochilas junto ao banco.
Lara recebeu os potes que trouxeram e tentou manter o rosto sério.
"O sofá já estava aqui."
Bianca olhou para sua mão.
A aliança resolveu a parte da história que ninguém começara a contar.
"Você casou."
Lara assentiu.
A amiga soltou um grito curto, depois lhe segurou o rosto entre as mãos.
"E me chamou para comer bolo como se tivesse trocado uma cortina?"
Mirela começou a rir e abraçou as duas.
Lara explicou o cartório, mostrou as fotografias e repetiu que fariam uma celebração maior depois. A decisão se tornara concreta enquanto organizavam documentos, trabalho e escola; quando percebera, já queria guardar o dia pequeno para si antes de contá-lo a todos.
Bianca a ouviu com uma mão sobre o coração.
"Estou ofendida por uns cinco minutos. Depois quero ver todas as fotos."
"Podemos começar enquanto você continua ofendida."
Sentaram na sala, perto da janela que Lara começava a ocupar com plantas. Célia deixou uma bandeja e as três combinaram buscar o restante na cozinha quando quisessem.
Mirela perguntou pelos quartos dos meninos. Lara mostrou uma fotografia da primeira cama desfeita e contou como Leo visitara o corredor várias vezes antes de dormir.
"Na casa dos outros eles dormem bem", observou Bianca.
"Porque têm que conferir a minha de perto", respondeu Lara.
O riso veio fácil. Depois Bianca ficou quieta diante de uma imagem em que Rafael segurava a mão da esposa durante o almoço.
Não era o beijo do cartório. Era um gesto pequeno, quase fora do centro.
"Ele olhou para você assim o dia inteiro?"
Lara sentiu calor no rosto.
"Eu acho que sim."
Mirela sorriu e pegou outra fatia de bolo, dando à amiga tempo para decidir se queria dizer o que guardava atrás da pergunta.
Bianca apoiou o telefone na mesa.
"Eu ainda penso no Diego. Isso está me irritando."
Lara se acomodou melhor no sofá.
"Ele procurou você?"
"Duas vezes. Pediu para conversar. Na primeira eu não estava pronta. Na segunda estava trabalhando. Depois fiquei esperando que ligasse de novo e me odiei um pouco por isso."
Mirela franziu a testa.
"Você respondeu que estava trabalhando?"
"Respondi. Não disse quando podia."
Bianca olhou para a xícara.
"Passei tantos anos tentando acertar o horário, o humor, o jeito de perguntar. Agora até responder uma mensagem parece que estou correndo atrás outra vez."
Lara não lhe ofereceu uma solução rápida.
Lembrou da mulher no ateliê, da água fria e da culpa depois. Já não era a única lembrança que tinha dela.
"Você pode querer uma conversa e ainda não querer voltar", disse.
Bianca assentiu devagar.
"O problema é que uma parte de mim quer voltar. Para o Diego de quando éramos mais novos. Não sei quanto dele ainda existe."
"Isso só ele pode mostrar", respondeu Mirela.
Ficaram alguns segundos em silêncio. Depois Bianca ergueu a cabeça, tentando recuperar o humor.
"Pronto. Consegui falar do meu ex durante a notícia do seu casamento. Estou melhorando muito como convidada."
Lara lhe apertou a mão.
"Eu te chamei para saber de você também."
Rafael chegou ao fim da tarde com os filhos e encontrou a sala cheia de risadas. Leo largou a mochila para contar a Mirela que Davi fizera um desenho que precisava de uma roda maior.
Theo cumprimentou as duas e procurou a mãe.
Rafael foi até ela antes de tirar o relógio. Tocou sua nuca e lhe deu um beijo breve, perguntando se tinha conseguido ler o documento da manhã.
Lara assentiu.
"Fiz perguntas nas margens. Depois quero te mostrar duas."
"Depois do jantar?"
"Pode ser."
Ele viu a xícara vazia e perguntou se queria mais café antes de levar a bandeja à cozinha.
Bianca acompanhou o gesto com os olhos.
Não era uma cena construída para ser observada. Essa era a parte que mais a atingia.
Mirela ajudou Theo a tirar uma folha amassada da mochila. Era uma atividade sobre as pessoas com quem morava. O desenho tinha quatro figuras, mas o menino ainda não decidira onde escrever o endereço novo.
Lara sentou perto e mostrou a linha. Ele copiou devagar, apagou uma letra e conferiu com ela antes de guardar.
Bianca ficou olhando os quatro nomes.
"Ficou bonito."
Theo lhe entregou a borracha, pedindo que segurasse enquanto fechava a pasta. A confiança simples a fez sorrir. Não precisava resolver a própria vida inteira naquela tarde para continuar pertencendo àquela conversa.
Pouco depois, Rafael lembrou o jantar com os amigos. Gustavo e João queriam parabenizar Lara e conhecer os meninos com mais calma. Diego também estaria lá.
Bianca ficou muito ocupada em fechar a própria bolsa.
Lara não a convidou diante de todos. Quando ficaram a sós no corredor, apenas disse que a amiga poderia ir se quisesse e que não tinha obrigação de transformar a noite numa decisão.
"Eu penso", respondeu Bianca.
O jantar começou num restaurante tranquilo, com espaço para as crianças e uma mesa reservada. Gustavo recebeu Leo com um abraço que fez o menino pedir imediatamente para aprender a levantar alguma coisa pesada.
"Primeiro você aprende a guardar sua mochila", respondeu Rafael.
João ajudou Theo a escolher um lugar sem exigir que sentasse no colo. Diego ficou ao lado da cadeira, esperando que os meninos lhe dessem atenção por vontade própria.
Leo o cumprimentou com educação, mas correu para mostrar o avião de papel a Gustavo. Theo lhe deu um aceno e se sentou perto da mãe.
Diego aceitou a distância sem reclamar.
Perguntou a Lara pelo lançamento, ouviu a resposta e comentou uma parte que vira na apresentação. Não fez um discurso sobre como sempre soubera que ela tinha talento.
Ela gostou da diferença.
Durante a refeição, uma pessoa entrou pela porta lateral trazendo um casaco no braço. Usava óculos de armação larga, o cabelo preso de outra maneira e uma roupa mais discreta que a habitual.
Lara a reconheceu quando deixou o casaco cair ao tentar consultar o telefone.
Bianca.
A amiga parecia ter escolhido vir sem decidir como chegaria à mesa. Parou perto da recepção, e Diego se levantou antes que Lara pudesse chamá-la.
"Bianca?"
Ela parou.
Olhou para ele por cima dos óculos.
"Eu vim falar com a Lara."
"Eu sei que pode falar com ela. Quer sentar?"
Bianca segurou o casaco com mais força.
"Você me reconheceu de costas."
Diego olhou para o cabelo preso, depois para o rosto dela.
"Você puxa a manga quando está decidindo se vai embora. Faz isso desde a escola."
Ela ficou quieta.
O reconhecimento chegou com a lembrança de uma intimidade que ele parecia ter deixado esquecida até precisar dela.
"É curioso o que você sabe quando resolve olhar", disse.
Diego perdeu o começo do sorriso.
Lara afastou uma cadeira ao seu lado.
"Vem. Ainda temos comida."
Bianca sentou, aceitou água e respondeu às perguntas dos meninos. Não tirou imediatamente os óculos. Precisou de alguns minutos para parar de sentir que todos esperavam uma conversa que não estava pronta para ter.
Gustavo começou outro assunto. João lhe passou um prato sem comentar a entrada. Aos poucos, a mesa recuperou o ritmo.
Diego permaneceu mais quieto.
Quando chegou a sobremesa, não pediu o favorito dela como se o gesto autorizasse uma volta. Perguntou se ainda gostava daquele doce.
Bianca olhou para ele.
"Gosto. Mas hoje quero esse."
Apontou outro.
"Está bem."
Foi uma resposta pequena. Ela percebeu a ausência de comentário, a falta de esforço para provar que a conhecia melhor do que conhecia a si mesma.
Na saída, Diego pediu um minuto.
Bianca olhou para Lara, que estava perto do carro com Rafael e os filhos.
Tinha como ir embora. A certeza lhe permitiu ficar.
"Eu sei que pedi desculpas por coisas específicas", disse Diego. "Mas passei muito tempo falando como se você fosse exagerada por se importar. Eu não devia ter feito isso."
Bianca segurou o casaco contra o corpo.
"Não vou conseguir ouvir isso e esquecer o resto."
"Não estou pedindo."
Ele parecia desconfortável por não ter uma frase que terminasse bem por ele.
"Queria perguntar se podemos tomar um café. Sem eu aparecer onde você está nem insistir se disser que não."
Bianca pensou.
"Você pode me mandar uma mensagem amanhã. Eu respondo quando olhar minha agenda."
Diego assentiu.
Não tentou transformar aquilo num abraço.
No carro, Lara ficou em silêncio por um tempo, observando a amiga se afastar no próprio veículo.
Rafael pegou sua mão.
"Você está torcendo."
"Estou torcendo para ela não ter que diminuir o que quer para caber na vida de alguém."
Ele beijou seus dedos.
Leo, atrás, perguntou se Diego também tinha que aprender a guardar a mochila. A pergunta fez Lara rir antes de responder que alguns adultos precisavam aprender outras coisas primeiro.
Naquela noite, Rafael subiu para verificar se os meninos tinham apagado a luz da mesa.
A porta estava entreaberta.
Ouviu Theo pedir ao irmão que não usasse o nome Musa em voz alta.
A mão dele parou sobre a madeira.
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