"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 39
O nome que ela queria na porta
Lara leu a proposta uma vez com pressa e outra devagar.
Na terceira, pegou um lápis.
Henrique sugeria uma marca independente, começando com uma coleção pequena e produção controlada. O investimento não dependeria de ela deixar imediatamente a Maison Vallon nem de aceitar um espaço cujo custo consumisse tudo antes da primeira venda.
Havia números, estimativas, dúvidas anotadas nas margens.
Não havia uma promessa de que seria simples.
Ela gostou disso antes mesmo de chegar ao ponto que mais lhe importava: a criação teria seu nome, e as decisões sobre desenho permaneceriam com ela, dentro dos limites de produção que combinassem.
Na reunião, Bianca apareceu só para cumprimentar e trazer café. Depois saiu, deixando o irmão e a amiga com uma mesa cheia de folhas.
"Ela disse que eu não devia usar a conversa do restaurante como se você já tivesse concordado", informou Henrique.
Lara sorriu.
"Ela tem razão."
"Por isso trouxe uma coisa para você poder discordar."
Ela abriu a página marcada.
"Vou começar por aqui. Eu não quero produzir demais só porque temos dinheiro para pagar o primeiro lote."
Henrique puxou a cadeira.
"Qual seria o começo certo?"
Lara mostrou as peças que imaginava para uma estreia. Poucos modelos, diferenças suficientes para testar o público e tempo entre uma etapa e outra para corrigir o que não funcionasse.
Falou das provas, da qualidade do tecido e das roupas que gostava de usar enquanto precisava trabalhar e buscar duas crianças.
Não queria desenhar apenas para uma fotografia com a pessoa parada.
Henrique ouviu, tomando notas.
"Você já pensava nisso antes de voltar?"
"Desde Paris. Tinha uma pasta com um nome diferente por mês. Alguns eram horríveis."
"Quero conhecer os horríveis."
"Esses não entram na avaliação do investimento."
Ele riu.
Quando chegaram à participação de cada um, Lara deixou o sorriso diminuir para dar lugar à atenção.
Não assinaria antes de examinar as condições com orientação própria. Queria entender a propriedade da marca, o uso de seu nome, a remuneração pelo trabalho e o que aconteceria se discordassem no futuro.
Henrique não pareceu ofendido.
"Foi por isso que escrevi preliminar. Prefiro resolver agora a descobrir daqui a um ano que você achou que cedia uma coisa diferente."
Ela assentiu, mais animada.
"Também preciso cumprir o contrato atual. A coleção da Maison Vallon continua sendo da Maison Vallon. Não vou levar as peças para uma empresa nova."
"Quero seu trabalho futuro. Não uma disputa que já começou em outro lugar."
Lara fez uma anotação e virou a página.
Discutiram a possibilidade de usar um ateliê menor primeiro, adiar a loja e aproveitar a experiência comercial da família Barreto sem fingir que vender joias e produzir roupas eram o mesmo negócio.
Henrique tinha contatos e capital. Lara conhecia o caminho entre o papel e uma peça pronta. Os dois precisariam de outras pessoas.
Ela saiu da reunião carregando mais perguntas do que quando entrara.
Ainda assim, sorriu no elevador.
No telefone, Rafael perguntava como tinha sido.
Lara respondeu com uma fotografia da página cheia de anotações.
Ele ligou ao ver o nome da marca.
"Gostou?"
Ela encostou na parede do corredor, esperando os outros passageiros se afastarem.
"Gostei muito. Não está decidido. Mas parece possível de um jeito que eu ainda não tinha colocado no papel."
Rafael ficou em silêncio por um instante.
Lara reconheceu o esforço antes que viesse a pergunta.
"Você está fazendo aquela cara?"
"Qual?"
"A da pilha de exercícios."
Ele soltou uma risada breve.
"Eu ia perguntar se precisava conhecer os números."
"Posso mostrar. Não para você aprovar com quem eu trabalho."
"Eu sei."
"Sabe com alegria?"
"Podemos começar com sei e melhorar."
Lara riu alto, chamando a atenção de uma mulher junto à recepção.
"Eu gosto quando você fala a verdade."
"Nesse caso, gosto mais da parte em que o seu nome fica na porta."
A resposta a deixou quieta, emocionada.
"Eu também."
À tarde, Gabriel apareceu na Maison Vallon.
Tinha voltado de uma viagem e levava uma sacola com materiais que comprara antes de saber que a coleção passara por tudo aquilo. Joana o anunciou, e Lara o recebeu com um abraço carinhoso.
"Você sumiu."
Ele se afastou para olhar seu rosto.
"Você ficou famosa enquanto eu estava fora."
"Preferia ter pulado parte do caminho."
Gabriel sorriu, mas pareceu cansado. Perguntou se podia sentar.
Lara abriu espaço, retirando da cadeira uma pasta da proposta.
Ele viu o nome.
"Sua marca?"
"Talvez. Estou conversando com Henrique Barreto."
O sorriso dele diminuiu.
"O irmão da Bianca?"
Ela assentiu e contou o essencial, animada outra vez. Gabriel ouviu, mas sua atenção parecia presa numa parte que ela não estava tentando destacar.
"Eu podia investir. Você sabia."
Lara apoiou o lápis.
"Você nunca me propôs isso assim."
"Porque achei que, quando estivesse pronta, falaria comigo."
Ela olhou para o amigo com mais cuidado.
"Gabriel, eu estou examinando uma proposta. Não estou escolhendo quem me ajudou mais em Paris."
Ele se recostou, desconfortável.
"Não foi o que quis dizer."
"Eu sei que você se importa. Também quero que saiba que estou feliz com essa possibilidade."
Gabriel ficou olhando a sacola sobre a mesa.
Por alguns segundos, Lara reviu o homem que conhecia na França, capaz de atravessar a cidade para encontrar uma amostra e depois voltar para casa antes que alguém lhe perguntasse por que se dedicava tanto a ela.
"E Rafael?", perguntou ele.
Ela não desviou.
"Estamos juntos."
Gabriel já sabia o suficiente para suspeitar. Ouvir ainda assim fez seu rosto mudar.
"Os meninos estão felizes."
"Eu também."
A resposta veio gentil, inteira.
Ele assentiu devagar.
Lara lhe ofereceu café. Gabriel aceitou e perguntou pelos filhos. Conversaram sobre a escola, o avião e as peças que ele trouxera meses antes.
Não precisavam apagar tudo que tinham sido para reconhecer o que não havia acontecido.
Quando Henrique chegou para deixar uma versão corrigida de um anexo, Gabriel se levantou.
Os dois se cumprimentaram com uma educação cuidadosa.
"Soube da marca", disse Gabriel. "Se precisarem de outra fonte de investimento, podemos conversar."
Henrique olhou para Lara antes de responder.
"Estamos definindo o formato. Ela vai avaliar."
Gabriel assentiu. A facilidade com que o outro devolveu a decisão a ela tornou difícil continuar uma disputa sem admiti-la.
Lara recebeu o anexo e marcou outro horário para discutir os detalhes. Depois se despediu de Gabriel, agradecendo pelos materiais.
Ele segurou sua mão um segundo a mais.
"Eu quero que dê certo."
Ela sorriu.
"Então torce por mim."
Gabriel soltou seus dedos.
Naquela noite, Lara encontrou os filhos diante de duas folhas enormes sobre o tapete.
Rafael estava no sofá, acompanhando uma discussão sobre a diferença entre uma lua e uma banana.
Leo apontou para o próprio desenho.
"A lua pode estar assim."
"Com o nome da mamãe dentro?", perguntou Theo.
"Cabe."
Lara parou à porta.
"O que vocês estão fazendo?"
Os dois levantaram a cabeça, satisfeitos por finalmente poder apresentar.
Eram propostas para a placa da marca.
Theo desenhara letras bem grandes, com um sol no canto. Leo fizera a lua, um coração e uma tesoura que parecia capaz de cortar o prédio inteiro.
Lara sentou no tapete.
"Eu ainda não aluguei lugar nenhum."
"Por isso estamos ajudando antes", explicou o menor.
Rafael se inclinou para olhar.
"Esse coração está maior que o nome."
Leo examinou a folha.
"Porque é importante."
Theo aproximou seu desenho da mãe.
"O meu dá para ler de longe."
Ela recebeu as duas folhas. Lembrou dos primeiros projetos de placa, do astronauta e do sol enorme que os meninos tinham imaginado quando a marca ainda era uma conversa à mesa.
Agora havia uma proposta numa pasta e duas crianças discutindo o tamanho de um letreiro.
Lara apertou os papéis contra o peito.
"Posso guardar os dois?"
Leo já se jogava no seu colo. Theo se aproximou devagar, esperando que ela abrisse o outro braço.
Rafael ficou olhando até Lara lhe estender a mão.
Ele desceu ao tapete, acomodando-se perto.
"Você ainda não falou o que acha de verdade", disse ela, depois que os meninos foram buscar mais lápis.
"Da tesoura? Precisa de revisão."
Lara lhe apertou os dedos.
"Da proposta."
Rafael olhou para as folhas nas suas mãos.
"Acho que você está fazendo as perguntas certas. E que eu queria ter sido a primeira pessoa a colocar isso diante de você."
Ela permaneceu quieta, ouvindo.
"Mas não fui", continuou ele. "Isso não torna a ideia pior. Só me deixa menos elegante por alguns minutos."
Lara começou a sorrir.
"Alguns?"
"Estou sendo otimista."
Ela beijou seu rosto.
"Você foi a primeira pessoa para quem eu quis mandar a página."
Rafael se virou. A resposta tinha alcançado uma parte que ela não pretendia deixar insegura.
Ele a beijou, breve, antes que os filhos voltassem correndo.
Leo trouxe outro lápis e olhou para os pais com desconfiança.
"Vocês começaram sem a gente?"
"O desenho?", perguntou Lara.
O menino apontou para a boca do pai, onde ficara uma pequena marca do batom dela.
Theo começou a rir.
Rafael limpou com o polegar, sem parecer arrependido.
Depois do jantar, quando os projetos finalmente foram guardados, ele ajudou Lara a recolher os copos.
"Meus pais querem receber você para um almoço. Com calma, sem eu levar uma criança machucada ou buscar uma mochila na porta."
Lara parou com um copo na mão.
"Um almoço?"
"Minha mãe usou a expressão almoço simples. Eu achei melhor avisar antes que ela compre comida para vinte pessoas."
Da mesa, Leo abriu a boca.
Theo lhe acertou um toque discreto no joelho.
Lara se virou.
"O que foi?"
"Nada", responderam os dois, depressa demais.
Rafael pegou o copo da mão dela e esperou a resposta.
Lara olhou para o homem, depois para os filhos, que repentinamente pareciam muito interessados em não participar da conversa.
"Eu vou", disse. "Mas você vai me ajudar a escolher um presente."
Leo abriu um sorriso enorme antes de conseguir escondê-lo.
Theo baixou a cabeça, fingindo procurar um lápis que já estava guardado.
Lara estreitou os olhos.
Aquele almoço parecia estar sendo esperado por muito mais gente do que Rafael acabara de admitir.
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